Quando salta a tampa: o que se passa em Itália

Notas escritas a quente sobre a súbita onda de mobilização e conflito que está a aquecer a Itália – por Tano “Que” Festa

A curva dos contágios enlouqueceu e desta vez não é só a Lombardia ou Milão. Desta vez, o vírus espalha-se um pouco por todo o país, os hospitais estão sob pressão e o governo decide emitir novos decretos, cada vez mais confusos, sem qualquer lógica aparente. Após 8 meses ou mais de pandemia, o véu da retórica governamental cai e “descobre-se” que não há qualquer preparação para a chamada segunda vaga da covid-19.

O governo volta a recorrer às armas do costume: a culpa e responsabilidade dos indivíduos em relação aos contágios. Arma que já funcionou tão bem nos últimos meses. Mas agora a situação mudou e as pessoas, o povo, as trabalhadoras e as pequenas empresas já deram tudo nos meses anteriores. As poupanças estão a esgotar-se, não há dinheiro, as medidas postas em prática pelo governo são irrisórias face à crise económica. E, quando se soube que os bilionários italianos aumentaram os seus rendimentos em 30% desde o início da pandemia, o conflito alastrou por todo o lado.

Napule è mille culure

Perante o novo confinamento nocturno, decretado sexta-feira, 23 de outubro – encerramento de quase todas as atividades e recolher obrigatório às 18 horas: restaurantes, bares, ginásios, teatros, cinemas, associações, escolas secundárias, etc. … – em Nápoles, centenas de pessoas saem à rua e manifestam-se em dois cortejos espontâneos. Há de tudo – trabalhadores informais, pequenos comerciantes, desempregados – os slogans são simples, mas claros: “A saúde é a primeira coisa, mas sem dinheiro não se pode ir a lado nenhum”, “Stop às rendas, às contas, aos impostos”. Os manifestantes dirigem-se contra a região (na Itália o sistema de saúde é regional, e o novo decreto dá mais poderes aos presidentes das regiões) e os confrontos com a polícia escalam rapidamente. Os contentores de lixo são incendiados, são lançadas numerosas bombas de gás lacrimogéneo, e seixos são atirados. É o primeiro verdadeiro cheiro de revolta desde que o estado de emergência foi declarado (que em Itália tem estado em vigor ininterruptamente desde março).

Os nazis tentam vestir a camisola nas redes sociais com proclamações, mas Nápoles não é Roma, aqui os fascistas têm historicamente pouco espaço de ação. Mas os jornais (especialmente os da esquerda liberal) gostam desta retórica e atiram-se de cabeça, apesar da complexidade da realidade das coisas. Os jornais e as redes sociais enlouquecem imediatamente, derramando todo o repertório colonial da tradição italiana sobre os napolitanos: é a Camorra, são os mafiosos, os ultras (adeptos), os nazis, os negacionistas (a grande imprensa continua a fazê-lo ainda hoje, sem vergonha).

Mas quem realmente saiu à rua? Pelo que podemos ver, o quadro é realmente muito heterogéneo. Não se pode falar de uma praça de esquerda, mas o que é certo é que as camaradas estão presentes, misturam-se com este húmus feito de desempregados, pequenos empresários, vendedores de rua e informais.

O destino, juntamente com a “boa saúde” do contexto nacional dos movimentos sociais em Nápoles, faz com que no dia seguinte, sábado, 24 de outubro, a rede anticapitalista convoque uma manifestação. Graças à noite anterior, nesta manifestação saem à rua não apenas os militantes das organizações, mas também muitas pessoas que não estão habituadas às manifs da esquerda de classe. A manifestação começa num cortejo espontâneo reiterando que, concretizando-se o confinamento, deve haver proteção para as classes mais pobres. Tinta vermelha é atirada contra a sede da Confindustria (a organização nacional de empresários italianos) e ocorrem confrontos com a polícia, mas o desfile mantém-se e termina calmamente na Piazza del Plebiscito.

Na segunda-feira, 26 de outubro, uma nova manifestação com o slogan “Fecha-nos, paga-nos” é marcada, novamente às 18 horas: hora do recolher obrigatório. A composição é complexa e heterogénea, os militantes da Casapound (organização neofascista) tentam juntar-se, mas são imediatamente afastados pelos manifestantes. Para descrever quem está na praça pedimos emprestadas as palavras de Napoli Monitor, um site de informação independente:

No Plebiscito iluminado pelas sirenes dos veículos da polícia, pode-se encontrar barmen, bailarinas/mulheres, gerentes de clube, empregadas de mesa, agentes de expedição, atrizes e atores, artistas de teatro, técnicos de som, carregadores, trabalhadores precários licenciados, gestores e operadores de centros de fitness, animadores de festas infantis, músicos (de refinados a instrumentalistas de casamento), vídeo-makers, operadores de serviços audiovisuais, mas também cuidadores, baby-sitters, desempregados, trabalhadores têxteis ou logísticos, freelancers, bem como grupos de fãs organizados, operadores de automóveis não autorizados, e outras figuras, de formas diferentes, unidos pela precariedade económica e social. Mulheres e homens que, pela primeira vez, partilham um momento de conflito coletivo motivado pela iminência do novo confinamento. A grande maioria deles são trabalhadores que, durante anos, aceitaram empregos pagos por baixo da mesa renunciaram a contribuições e outros direitos em nome de salários amaldiçoados e imediatos. Os trabalhadores forçados a não reivindicar a legitimidade da sua posição, da sua especialização, do seu papel no mercado de trabalho. Trabalhadores que sentiram a insustentabilidade da sua própria condição quando com a pandemia até o rei vai nu.

Não há núcleo duro da manifestação, não se pode ver nenhuma componente hegemónica do movimento. Vê-se que a polícia aprendeu a sua lição na sexta-feira e a cidade está militarizada, os polícias à paisana são muitos. Chega-se à frente do edifício da Região da Campânia e são feitas intervenções confusas, mas entusiásticas. As reivindicações são as mais díspares. A polícia provoca, mas a inteligência coletiva evita o confronto devido ao destacamento de forças e meios blindados. Os camaradas de Nápoles estão a tentar dar forma a esta nebulosa de raiva e entusiasmo, a fim de continuar a mobilização sustentada por reivindicações políticas precisas e não corporativas. Ontem à noite, a bandeira principal era pedir impostos para os ricos e rendimentos para todas, e isto já é um grande salto em frente. O facto político é que em Nápoles há fermentação e tudo pode acontecer.

De facto, quarta feira 28 de outubro, os trabalhadores e as trabalhadoras da multinacional Whirlpool, em greve contra o fecho do estabelecimento marcado para este sábado que vai deixar sem trabalho 1400 pessoas, ocuparam e bloquearam a entrada da autoestrada A1. Perante a inatividade do governo e em defesa do tecido produtivo da região, uma greve geral metropolitana está já marcada para a próxima semana, dia 5 de novembro.

Grande e generalizada é a confusão debaixo do céu

Na sequência do que aconteceu em Nápoles, no sábado, começam a surgir mobilizações no resto do país.

Na Catânia, Sicília, um desfile semelhante ao de Nápoles, na sexta-feira: heterogéneo, não classificável, mas irado, estiveram cara a cara com as “forças da desordem”. Em Roma, o partido neonazi Forza Nuova lançou uma mobilização na Piazza del Popolo. Cerca de duzentos manifestantes reuniram-se ao grito de liberdade e nada mais, encenando confrontos com os seus amigos da polícia.

Nos meios de comunicação e nas redes sociais, torna-se evidente que a crise e as dificuldades já não podem ser resolvidas e, mesmo personalidades embedded, começam a criticar as medidas governamentais, mas sobretudo começam a quebrar o silêncio à volta da falta de políticas económicas, sociais e de saúde perante a crise. Obviamente, a descarga escatológica das redes socias continua sobre aqueles que tomam as ruas: mas é evidente que a investida contra os manifestantes é classista.

Os apelos para ocupar as ruas começam a aparecer por todo o país, e não apenas nas principais cidades. Na segunda-feira à noite, realizam-se manifestações em Turim, Milão, Trieste, Génova, Viareggio e Palermo. Mais uma vez uma composição que supera categorias pré-determinadas. O que se vê é muita raiva e desejo de fazer com que o mundo sinta. Um pouco em todo o lado há confrontos com a polícia, barricadas e atiram-se pedras e cocktails molotov. Em Turim, as lojas de luxo da Louis Vuitton e da Gucci são saqueadas. Segundo o Infoaut, órgão da Autonomia Contropotere, em Turim houve dois desfiles: um dos comerciantes e trabalhadores, outro da precariedade mestiça metropolitana. Ambos espontâneos, ambos imediatamente reprimidos pela polícia. Foi precisamente a repressão imediata que desencadeou um motim que durou várias horas.

Em suma, como se pode compreender a partir destas notas, a situação é confusa e complexa e existem demasiadas variáveis e contextos muito diferentes para se fazerem previsões. Durante toda a semana decorrem mobilizações do norte ao sul país. Para amanhã, sábado, em Roma uma nova manifestação é convocada pelos movimentos, centros sociais, organizações e sindicatos de base.

O que é evidente é que em Itália existe subitamente um nível de mobilização e conflito que não se via há alguns anos, que perante um novo confinamento e medidas governamentais insultuosas, a tampa da mediação baseada na proteção da própria saúde e da saúde dos outros saltou. É necessário ver se na emergência pandémica será possível dar continuidade, se será possível sair da dimensão corporativa de certas reivindicações, se será possível dar um sentido político à raiva. Será necessário ver a escala que a repressão assumirá num contexto de estado de emergência permanente.

Entretanto, no entanto, podem ser feitas algumas reflexões que podem ser úteis para os tempos que vêm.

Preparar as ferramentas, saber colocar-se

O primeiro aspeto que queremos destacar é como este conflito surgiu espontaneamente e de forma bastante repentina. Não que não houvesse (existem há anos) as razões pelas quais explodiu, mas na realidade a Itália dos últimos tempos e a Itália do período pandémico não permitiram antecipar tais acontecimentos. O acender das brasas da raiva só era visível em relação à guerra entre os pobres, e não dirigida para as instituições. Isto mostra-nos, apesar dos esforços das “organizações de classe” para criar movimentos de massas, como hoje em dia estes últimos surgem muito frequentemente fora das próprias organizações. A raiva contra um sistema que não lhes dá quase nada e exige apenas sacrifícios pode ser controlada apenas até um certo ponto pelo Estado. Em Portugal, a nova versão da gestão comunicativa da crise pandémica pelo governo de António Costa parece aproximar-se da versão muito italiana da culpabilização dos indivíduos (especialmente dos pobres) e da desresponsabilização do Estado: “ficar em casa”, “instalar stayaway Covid” e assim por diante. Em Itália, esta abordagem de criminalizar a vida quotidiana e o tom paternalista fez com que as pessoas começassem a irritar-se e a tomar consciência que não “vai ficar tudo bem”, porque não pode correr tudo bem para quem ficar em casa sem proteção económica e social e sem que haja uma redistribuição de rendimentos.

Outro aspeto interessante é que, como aconteceu noutros tempos na história dos movimentos italianos, a onda de mobilizações começou a partir do Sul. De facto, pode dizer-se que sem a faísca que eclodiu em Nápoles na sexta-feira, dificilmente teríamos visto enchentes nas praças das outras cidades nos dias seguintes. O sul da Itália tem características semelhantes a Portugal: insegurança no emprego, dependência do turismo, comércio informal, uma longa e constante história de emigração. No sul, o “estado social” e o trabalho são sempre mais escassos, a população é menos rica do que no resto do país, as crises fazem-se sentir mais intensamente e rapidamente e talvez por isso a raiva é desponte mais facilmente.

O caso de Nápoles é extremamente interessante. De facto, pode dizer-se que nos últimos anos, caracterizados por um declínio geral dos movimentos sociais na Itália, Nápoles representou, de certa forma, uma exceção e as iniciativas e as alternativas mais interessantes de auto-organização vieram da capital da Campânia. Talvez seja este o motivo dos protestos espontâneos assumirem cada vez mais conotações políticas: porque[LA1]  assentam na relação pragmática, baseada nas lutas, das companheiras napolitanas com as contradições de classe.

Todas as mobilizações destes dias demonstraram uma grande raiva e um certo grau de conflito, e graças a este conflito alcançaram as primeiras páginas dos jornais, colocaram o governo em grandes dificuldades, estão a pressionar para rever certas medidas tomadas e forçar os intelectuais, personalidades, etc., a falar sobre os problemas reais da população. Tudo resultados que as muitos mais pacíficas, performativas e “sinceramente democráticas” iniciativas que se têm sucedido nos últimos meses não conseguiram conquistar. Nem mesmo remotamente.

Obviamente, este nível de conflito é também a causa e consequência da enorme repressão que recai sobre os movimentos sociais e, de uma forma mais geral, sobre aqueles que protestam em Itália. Há vídeos nas redes, da noite passada, em que os chefes polícias dizem para disparar contra os manifestantes. E esta é uma variável a estudar e compreender em profundidade. Igualmente óbvia é a posição dos principais meios de comunicação face a estas manifestações: reduzir a fenómenos marginais, mafiosos, criminosos, negacionistas é a sua especialidade. E o refrão nas redes sociais para dar apoio a este mantra jornalístico é já um clássico. As companheiras italianas, o que resta do chamado Movimento, parecem estar a conseguir não ser cooptadas por estas vozes e, seguindo o exemplo das napolitanas, estão a misturar-se nestes processos, quanto mais não seja para manter afastados os nazi-fascistas.

Em suma, a raiva também se pode manifestar aqui em qualquer momento, porque as condições estão todas lá. Como irão as classes subalternas do nosso país ultrapassar esta segunda vaga e estas novas restrições? Quem poderá pagar as dívidas contraídas nos últimos meses? Como é que as famílias dos desempregados podem meter comida na mesa?

Pela nossa parte, como organizações de base e movimentos sociais, devemos ser capazes de estar à altura desta raiva. Saber expulsar os abutres fascistas que se lançarão na carnificina da guerra entre os pobres. Teremos de saber colocar em campo todas as ferramentas de luta que adquirimos nos últimos anos, para que as inteligências e os conhecimentos cultivados funcionem em conjunto e à disposição de instâncias iradas, a fim de as politizar com sucesso. Devemos ter o cuidado de não cair no moralismo e no paternalismo do debate dos meios de comunicação social. Devemos ser capazes de alavancar as nossas forças no nosso sofrimento e dificuldades e unir-nos a todos os que sim, estão no mesmo barco. E ser capazes, por uma vez, de fazer com que os ricos e poderosos que especulam sem restrições sobre as nossas vidas paguem pela crise.

Publicado por Rádio Gabriela

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