Rebels on the Mov(i)e #28 | O Abraço da Serpente

O Abraço da Serpente é uma jornada sinuosa que atravessa o coração da selva amazónica colombiana – e evidentemente o do ser humano – para mostrar um dos temas mais vulneráveis da América Latina, a neocolonização. Antropológico e humanista, o filme vagueia entre o passado e o presente para observar e reflectir sobre o desbravamento e consequente destruição do tempo e da aparentemente incólume floresta.

E é no encontro de duas culturas antagónicas que o filme se completa. Através das trajectórias de dois “exploradores” – a primeira em 1909, a segunda 31 anos mais tarde – manifesta-se o centro nevrálgico dos efeitos da colonização do século XX: a exploração capitalista e o negócio da borracha, a epidemia ideológica cristã na égide das missões jesuítas, a proibição da multiplicidade das línguas e dos dialectos, a violência brutal do Estado e, finalmente, o discurso científico opressor por meio da invenção e desenvolvimento da etnografia.

A terceira longa-metragem do colombiano Ciro Guerra, é então disruptiva com a tradição ocidental e dialoga-nos e a partir do ponto de vista do habitante originário – e não do colonizador, como o cinema nos foi habituando. Embora tivessem sido os diários verídicos dos expedicionários Theodor Koch-Grunberg e Richard Evans Schultes a despertarem o início da navegação, é na figura integra de Karamakate (o único sobrevivente de uma tribo amazónica aniquilada), que se arquitecta a narrativa. Sim, Karamakate é representado como um homem sábio, inevitavelmente prejudicado pelos limites latentes dos seus preconceitos contra o homem branco, e que tem aqui na posição central que lhe foi concedida, a possibilidade quer de reafirmação quer de expiação do seu Ser. Quanto aos dois homens da ciência, espécimes fiéis da intelectualidade da civilização ocidental, acreditam possuir capacidades superiores para auscultar tudo o que lhes rodeia através da serpente dos rios, apesar de incapazes de sonhar, encontrar e compreender o segredo abscôndito da sabedoria mística dos povos ancestrais.

Talvez seja plausível a convicção de que este filme critica de forma tão aberta algumas das causas que explicam hoje o subdesenvolvimento material e espiritual da humanidade.

Teresa Melo

Filme disponível em:https://www.arcoiris.tv/scheda/it/20742/

Publicado por Rádio Gabriela

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