Uma declaração Zapatista…. pela vida – Aos povos do mundo

A 27 anos do levantamento contra a guerra do esquecimento, que a partir das montanhas da Selva Lacandona abalou os tronos dos poderosos, o Exército Zapatista de Libertação Nacional anunciou uma turnê mundial para 2021. Uma delegação sairá dos territórios zapatistas no Chiapas para encontrar e conhecer todes aqueles que lutam desde baixo e à esquerda nos cinco continentes, através do diálogo, do intercâmbio de ideias, opiniões e estratégias na convicção de que a união faz a força e a diversidade cria riqueza. Estes eventos irão decorrer no continente europeu nos meses de Julho, Agosto, Setembro e Outubro com a participação directa de uma delegação mexicana formada pelo CNI-CIG, a Frente de Povos em Defesa da Água e da Terra de Morelos, Puebla e Tlaxcala, e o EZLN.

A Rádio Gabriela gravou uma leitura da primeira parte da declaração Zapatista… pela vida.

Primeiro de Janeiro do ano de 2021.

Aos povos do mundo:

Às pessoas que lutam nos cinco continentes:

Irmãs e irmãos, companheir@s:

Durante esses meses anteriores, temos estabelecido contato entre nós por diversos meios. Somos mulheres, lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis, transsexuais, intersexuais, queer e muito mais, homens, grupos coletivos, associações, organizações, movimentos sociais, povos originários, associações de bairros, comunidades e um longo etc etc que nos dá identidade.

Nos diferenciam e distanciam terras, céus, montanhas, vales, estepes, selvas, desertos, oceanos, lagos, rios, arroios, lagoas, raças, culturas, idiomas, histórias, idades, geografias, identidades sexuais e não sexuais, raízes, fronteiras, formas de organização, classes sociais, poder aquisitivo, prestígio social, fama, popularidade, seguidores, likes, moedas, graus de escolaridade, formas de ser, afazeres, virtudes, defeitos, prós, contras, mas, contudo, rivalidades, inimizades, concepções, argumentações, contra argumentações, debates, desacordos, denúncias, acusações, desprezos, fobias, filias, elogios, repúdios, vaias, aplausos, divindades, demônios, dogmas, heresias, gostos, desgostos, modos e um longo etc etc que nos faz distintos e, não poucas vezes, contrários.

Só nos unem muito poucas coisas:

Fazer nossas as dores da terra: a violência contra as mulheres; a perseguição e desprezo às diferenças em sua identidade afetiva, emocional, sexual; o aniquilamento da infância; o genocídio contra os povos originários; o racismo; o militarismo; a exploração; a espoliação; a destruição da natureza.

O entendimento de que é um sistema o responsável destas dores. O verdugo é um sistema explorador, patriarcal, piramidal, racista, ladrão e criminoso: o capitalismo.

O conhecimento de que não é possível reformar este sistema, educá-lo, limá-lo, domesticá-lo, humanizá-lo.

O compromisso de lutar, em todas as partes e por todas as horas – cada qual em seu terreno –, contra este sistema até destruí-lo por completo. A sobrevivência da humanidade depende da destruição do capitalismo. Não nos rendemos, não estamos à venda e não cederemos.

A certeza de que a luta pela humanidade é mundial. Assim como a destruição em curso não reconhece fronteiras, nacionalidades, bandeiras, línguas, culturas, raças; assim a luta pela humanidade é em todas as partes, todo o tempo.

A convicção de que são muitos os mundos que vivem e lutam no mundo. E que toda pretensão de homogeneidade e hegemonia atenta contra a essência do ser humano: a liberdade. A igualdade da humanidade está no respeito à diferença. Em sua diversidade está sua semelhança.

A compreensão de que não é a pretensão de impor nossa visão, nossos passos, companhias, caminhos e destinos, o que nos permitirá avançar, e sim a escuta e o olhar do outro que, distinto e diferente, tem a mesma vocação de liberdade e justiça.

Por estas coincidências e sem abandonar nossas convicções, nem deixar de ser o que somos, temos concordado:

Primeiro: Realizar encontros, diálogos, intercâmbios de ideias, experiências, análises e avaliações entre aqueles que nós encontramos empenhados, desde distintas concepções e em diferentes terrenos, na luta pela vida. Depois, cada um seguirá seu caminho ou não. Olhar e escutar o outro talvez nos ajudará ou não em nossos passos. Mas conhecer o diferente é também parte de nossa luta e de nosso empenho, de nossa humanidade.

Segundo: Que estes encontros e atividades se realizem nos cinco continentes. Que, no que se refere ao continente europeu, se concentrem nos meses de Julho, Agosto, Setembro e Outubro do ano de 2021, com a participação direta de uma delegação mexicana formada pelo CNI-CIG, a Frente de Povos em Defesa da Água e da Terra de Morelos, Puebla e Tlaxcala, e o EZLN. E em datas ainda a marcar, apoiar segundo nossas possibilidades, para que se realizem na Ásia, África, Oceania e América.

Terceiro: convidar quem compartilha das mesmas preocupações e lutas parecidas, a todas as pessoas honestas e a todos os de abaixo que se rebelem e resistam nos muitos rincões do mundo, a que se somem, aportem, apoiem e participem nestes encontros e atividades; e que firmem e façam suas esta declaração PELA VIDA.

Desde um dos pontos da dignidade que une aos cinco continentes.

Nós.

Planeta Terra.

1 de janeiro de 2021.

Publicado por Rádio Gabriela

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