E a habitação, caramba?

O colectivo Stop Despejos, escreveu uma carta ax futurx presidentx da República Portuguesa, na qual questiona o facto do tema da habitação não ter sido (praticamente) tratado nos debates e nas campanhas dos partidos políticos. O colectivo relembra ainda nesta carta o estado lamentável das habitações, com problemas de aquecimento, humidade e de qualidade de construção, e as condições insalubres em que muitas pessoas ainda vivem, sem acesso a água canalizada ou electricidade. Esta é a situação da habitação durante esta pandemia e sucessivos confinamentos. E, mais uma vez, pede-se à população para “ficar em casa.” Enquanto a habitação digna não for acessível a todxs, não vai ficar tudo bem. 

Carta completa (também no site da Stop Despejos):

Carx futurx Presidentx da República,

com as eleições presidenciais à porta e quase a completarmos 1 ano de pandemia em Portugal, cabe a todxs nós fazermos um balanço das condições de habitação em Portugal e da forma como elas foram geridas nos últimos meses. Aqui na Stop Despejos é o que pretendemos fazer.

Em primeiro lugar é importante salientar como a crise da habitação foi ignorada pelos moderadorxs dos sucessivos debates e apenas referida superficialmente por algunxs dxs candidatxs de esquerda. Referir e problematizar esta crise implica fazer um diagnóstico sério e implacável acerca dos falhanços da democracia portuguesa nos últimos 46 anos e isso não é algo que interesse à comunicação social e muito menos a um debate para as presidenciais, onde todas as questões giram à volta de temas mais mediáticos e “polémicos” como a pandemia, o confinamento, a corrupção, o adiamento das eleições ou a gestão do sistema nacional de saúde. E, claro, o reaparecimento do fascismo só poderia acentuar a falta de seriedade dos debates mediatizados, com a sua estratégia única que é tentar arrastar todxs xs candidatxs na lama para poder esconder as suas próprias contradições e falta de um programa coerente e sério.

É evidente que a falta de relevância dada aos assuntos da habitação nestes debates constitui um erro político crasso (muito embora, e provavelmente, intencional). De facto, a habitação está directamente ligada aos aspectos mais íntimos e quotidianos de todas as pessoas e não pode deixar de estabelecer um papel determinante no combate à pandemia, à precariedade e à crise de saúde pública que atravessamos.

Ora vejamos:

  • O novo confinamento decreta o teletrabalho obrigatório e fecha todos os estabelecimentos considerados não-essenciais, proibindo as pessoas de circularem na rua excepto para um número bastante preciso e reduzido de tarefas. Torna-se claro que um vasto sector da população irá passar a maior parte do próximo mês em casa (tal como já vinha fazendo aos fins-de-semana e depois das 23h nos últimos meses, e antes disso de forma idêntica em Março e Abril do ano passado). A habitação torna-se um factor mais determinante que nunca;
  • Estamos a viver um Inverno particularmente frio e há ainda muitos milhares de pessoas que não têm as devidas condições de aquecimento em casa ou que, fruto dos recentes despedimentos, da falta de emprego e do fecho de empresas ou mesmo da precariedade que sempre tiveram (mesmo antes da pandemia!), não podem cobrir as elevadas despesas de electricidade. É importante frisar que em Portugal se paga a 4ª electricidade mais cara da Europa tendo em conta o poder de compra das famílias (dados da Eurostat de 2020). O que é que o Governo decide fazer? Um desconto de 10% nas facturas energéticas, como se esse valor significasse algo de substancial no combate à enorme crise que combatemos e que só se irá acentuar nos próximos tempos;
  • A falta de um devido aquecimento nas nossas casas tem a consequência óbvia de piorar a saúde de muitxs nós, sobretudo xs mais idosoxs, o que levará a uma sobrecarga do sistema nacional de saúde (precisamente aquilo que deveríamos evitar a todo o custo). Segundo os dados do Instituto Nacional Ricardo Jorge morrem cerca de 400 pessoas em Portugal todos os Invernos devido ao frio. Além disso, quase um quarto dos portuguesxs declara não ter possibilidades de aquecer devidamente a sua casa;
  • Se no primeiro confinamento decretado em Março de 2020 nos deparámos com o fecho de muitos balneários públicos em Lisboa (e certamente noutras partes do país que não conseguimos acompanhar), verificamos agora a existência de condições inaceitáveis em muitos desses espaços, com caldeiras que não funcionam e forçam xs seus/suas utilizadorxs a tomar banho de água fria em pleno Inverno. Relembramos que para além das centenas de sem-abrigo que vivem na rua e que dependem destes balneários para tomar banho havia ainda “em 2011, data dos últimos Censos, (…) 4000 pessoas a viver em Lisboa em casas sem instalação de banho ou duche”, segundo o Jornal i, a 9 de Abril de 2019). A este número somam-se os milhares de famílias carenciadas que ocupam casas vazias pelo país inteiro, muitas delas sem luz e sem água;
  • Absolutamente inaceitável é também a condição de vida de tanta gente que vive nos bairros sociais e periféricos das grandes cidades, muitas delas vivendo sem água e sem luz Só na área da Grande Lisboa há mais de 200 bairros ilegais, segundo dados do Público em Maio de 2020). Um deles é o Bairro da Torre, que está há anos sem electricidade. Mas também no interior das grandes cidades, escondidas do olhar dos turistas, podemos encontrar bairros como a Quinta do Ferro, na Graça, onde mais de 100 pessoas vivem sem luz, água canalizada e saneamento básico. Como podem estas pessoas proteger-se contra a pandemia? Como poderão muitas delas não adoecer e sobrecarregar os hospitais e o serviço nacional de saúde?;
  • É também importante referir a falta de preparação dos imóveis portugueses face a fenómenos climáticos extremos (sejam vagas de frio ou de calor) como os que vamos sofrer cada vez com mais frequência à consequência da mudança climática. A maior parte das casas portuguesas têm importantes carências de isolamento térmico e problemas derivados de infiltrações, humidade ou apodrecimento nas janelas e paredes são comuns ao 24% da população portuguesa em 2019, segundo dados do Eurostat. Isto tem um custo muito elevado não apenas para a economia e a saúde dos portugueses senão também para o planeta. 

Por todas estas razões, lamentamos o desprezo que foi dado a este tema no contexto geral dos debates presidenciais e dos enunciados políticos dos diversos candidatos, fazendo as devidas excepções axs candidatxs situadxs mais à esquerda, que tentaram abordar a questão no último debate (a própria moderação, responsável pelas perguntas e organização dos debates, não permitiu grandes desenvolvimentos neste campo).

Como bem sabemos, os despejos continuam suspensos até ao Verão (muito embora não nos faltem exemplos de senhorixs que se consideram à margem da lei e que continuam a despejar ilegalmente xs seus/suas inquilinxs, muitas vezes recorrendo ao bullying e à violência). No entanto, e inevitavelmente, esta torneira fechada pelo Governo terá de ser aberta. Até agora as soluções para o pagamento das rendas passaram por políticas neo-liberais que promovem o sobre-endividamento das famílias ao IHRU (e fazendo muitas delas escolher, literalmente, entre ter casa ou ter pão).

Sem necessidade de criar alarmismos, sabemos que a situação será bastante grave para uma grande camada da população. Não é possível continuarmos a ignorar a crise da habitação que já vivíamos antes da crise pandémica, e não é possível acharmos que podemos continuar a viver sob o mesmo modelo legal e jurídico que, por falta de regulamentações estatais, nos levou até aqui.

A liberalização dos despejos, o preço incomportável das rendas, a especulação imobiliária, as condições insalubres em que muitxs vivem, a política de “gueto” que deu origem aos bairros sociais, a criminalização das ocupações, os benefícios fiscais para residentes não-habituais, os vistos Gold, a falta de regulamentação do alojamento local, a turistificação sem limites da cidade, a privatização dos espaços públicos e o esvaziamento populacional dos centros históricos (basta mencionar o caso de Alfama), não podem mais continuar.

Exigimos um novo modelo habitacional e de cidade e exigimos que ele seja discutido publicamente, entre todxs, e não à revelia dos cidadãos e cidadãs como tem sido prática comum do governo e das autarquias deste país.

Com o fantasma do fascismo ressurgindo sobre nós (cuja única mensagem política neste campo é a de nos convencer de que as pessoas fechadas em guetos uma vida inteira e com as piores condições dehabitação são os unicos responsáveis pela própria pobreza e os maiores
culpados da pobreza dos demais) torna-se ainda mais urgente a promoção de políticas que promovam a inclusividade, a solidariedade e a igualdade de acesso à habitação e a todos os bens essenciais.

Esperemos, futurx Presidentx da República eleitx, com os seus limitados, mas ainda assim expressivos poderes, que tenha tudo isto em conta. Afinal de contas, irá prometer cumprir e fazer cumprir o singelo artigo 65 da Constituição.

A nossa casa é a nossa vida e todxs merecemos viver com dignidade!

Atenciosamente,

STOP DESPEJOS
JANEIRO DE 2021

Rebels on the Mov(i)e #27 | Branco sai, Preto fica

O filme cria suas imagens e sons a partir de uma história trágica: dois homens negros, moradores da maior periferia de Brasília, ficam marcados para sempre graças a uma ação criminosa de uma polícia racista e territorialista da Capital Federal. Essa polícia invade um baile black. Tiros, correria e a consumação da tragédia: um homem fica para sempre na cadeira de rodas, o outro perde a perna após um cavalo da polícia montada cair sobre ele. Mas esses homens não se sentem confortados em contar a história de maneira direta e jornalística. Eles querem fabular, querem outras possibilidades de narrar o passado, abrindo para um presente cheio de aventuras e ressignificações, propondo um futuro.

Branco sai, preto fica (2014), de Adirley Queirós.

Horóscopo “Vai ficar tudo bem 2021”

Com a Terra alinhada com a Pandemia e a entrar na 11a Casa, fomos saber o que os planetas nos reservam. Trabalho, Saúde, Amor, Sexo, Dinheiro, Família e Amigos. Uma coisa é certa, Mercúrio ficará em Revolta até à Revolução e 2021 é sem dúvida um ano auspicioso para “conspirar”.
Ouve o que o alinhamento das estrelas rebeldes nos diz ★

Rebels on the Mov(i)e #26 | Saturado

Saturado é um filme em forma de «tríptico». O seu título tem a ver com as experiências de saturação de cor que o filme faz, mas pode ter outros sentidos. «Saturado» pode querer dizer «farto». E também se trata aqui de um filme «cheio» de coisas, entre reflexões «dançadas», imagens de uma cidade vigiada, sitiada ou privatizada, entre voos de pássaros e câmaras de vigilância, ruínas e despejos, e uma série de referências directas ou indirectas ao 25 de Abril, numa montagem desconcertante (usando filmes do tempo da revolução portuguesa de 1974/75) que levanta perguntas incómodas e procura (re)pensar revoltas e emancipações.

http://lugardoreal.com/video/saturado

Livro: “If They Come in the Morning – Voices of Resistance”

Faz hoje 50 anos de que Angela Davis se declarou inocente das queixas de conspiração, rapto, e assassinato de um juiz. Inocentada 18 meses após a sua detenção, no que foi um dos maiores julgamentos políticos da história dos Estados Unidos da América, a sua prisão marcou a luta pela abolição do sistema prisional que continua até hoje e sobre a qual vos convidamos à reflexão.

Oficialmente, afirma-se que não existem prisões nos Estados Unidos. Existe um Departamento de Correcções, e existem “instalações correcionais” [….]. Também não há prisioneiros nos Estados Unidos; existem apenas “reclusos”. Não há certamente prisioneiros políticos nos Estados Unidos; apenas “terroristas” e aqueles que “perpetram violência criminosa” – o que é conhecido na arena internacional como “agressão comunista criminosa”.

Bettina Aptheker em “The Social Functions of the Prisons in the United States”

“If They Come in the Morning – Voices of Resistance” é uma edição da Verso Books, publicado dentro da série Radical Thinkers, que se inicia com a poderosa “Open Letter to My Sister” escrita por James Baldwin a Angela Davis em 1970. Partindo do encarceramento de Davis e das lutas que o rodeiam, esta coleção de textos leva-nos para uma análise mais abrangente e minuciosa do sistema prisional dos Estados Unidos e dos seus objectivos capitalistas.

Apesar do oceano que nos separa, e do meio século decorrido desde a escrita dos textos, é a sua atroz pertinência que torna esta leitura fundamental.

If They Come in the Morning – Voices of Resistance

Incluí contribuições de numerosos radicais como George Jackson, Bettina Aptheker, Bobby Seale, James Baldwin, Ruchell Magee, Julian Bond, Huey P. Newton, Erika Huggins, Fleeta Drumgo, John Clutchette, entre outros/as.

Vivemos numa época em que o silêncio não é apenas criminoso, mas suicida.

James Baldwin em “Letter to My Sister”

Rebels on the Mov(i)e #25 | Planet of the Apes

Planet of the Apes é um filme de 1968 e um clássico de culto do realizador Franklin J. Schaffner. Com Charlton Heston como protagonista, este filme de ficção científica desenrola-se segundo um modelo de parábola descrevendo-nos indirectamente os anseios e e terrores de um mundo nuclear (acometido por uma Guerra Fria que encerrava em si a possibilidade do apocalipse) e onde os problemas da segregação e estratificação sociais adquiriam particular intensidade (sobretudo nos EUA, mas não só). Heston era à altura um defensor muito importante dos direitos civis contra a discriminação, em particular da população afro-americana, bem como de medidas de gun control, antes da sua viragem súbita para a direita e para o partido Republicano, que o tornariam numa espécie de celebridade ultra-conservadora e alvo da crítica de um realizador como Michael Moore (ver Bowling For Columbine).

Em Planet of the Apes, um grupo de astronautas despenha-se num planeta desconhecido depois de uma viagem à velocidade da luz onde hibernaram durante um longo período de tempo. Na sua descoberta do planeta encontram um mundo onde os macacos são os seres civilizados e os humanos os selvagens que são caçados, perseguidos e estudados em laboratórios. O desenrolar enigmático do filme mostrar-nos-á uma sociedade pós-apocalíptica onde as estratificações ontológicas e políticas entre humanos e animais, brancos e negros, homens e mulheres serão evidenciadas e satirizadas.

Não poderemos deixar de pensar, à medida que vemos o filme, que esse planeta habitado por macacos é estranhamente parecido ao nosso… Numa altura de crise pandémica, que é também uma crise política, social e, sobretudo, uma crise de percepção e de subjectividade, parece-me adequada a proposta deste filme, que através da parábola e da sátira põe a nu a possibilidade de destruição da nossa própria realidade.

Rebels on the Mov(i)e #24 | Persépolis

É véspera de Natal, 24 de Dezembro, o dia em que os mais pequenos esperam a chegada de um velho com uma grande barba e vestido com a cor mais bonita que existe – o vermelho. Infelizmente, apesar da semelhança, não estamos a falar de Karl Marx e o vermelho da indumentária não é ditado pela posição política, mas sim por uma simples e bem sucedida operação de mercado da Coca-Cola, que substituiu as suas anteriores roupagens verdes.


Para terminar este preâmbulo, que nada tem a ver com o filme que sugerimos, resta-nos afirmar que acreditamos que o Natal é um momento para ver filmes de animação, sobretudo aqueles que, pela sua veia rebelde, servem de contraponto à maioria de séries e filmes disponíveis nesta época festiva.


Persépolis é um filme de animação de 2007, nomeado para um Óscar, baseado na novela gráfica com o mesmo nome. O filme foi escrito e realizado por Marjane Satrapi – a autora deste relato autobiográfico – e por Vincent Paronnaud. O título é uma alusão à antiga e histórica “cidade persa”.
O enredo inicia-se pouco antes da Revolução Iraniana e dá-nos a conhecer, através dos olhos de uma criança de nove anos, Marjane, como as esperanças de transformação alimentadas pela população foram lentamente defraudadas com a tomada de poder dos fundamentalistas islâmicos. As mulheres vêem-se forçadas a cobrir as cabeças com o lenço, a liberdades da população diminuiu e milhares são aprisionados. A história termina com Marjane, já com 22 anos, expatriada.
No seu discurso de recepção do prémio do júri em Cannes, Marjane Satrapi declarou: “embora este filme seja universal, quero dedicar o prémio a todos os iranianos.”

Cantos Nómadas #6

Francisco Aguiar, Subsolo, Queda; David Graeber, Dívida, os primeiros 5000 anos; Os Homens da Segurança; Michel Luc Bellemare, The Structural-Anarchism Manifesto; Maria Daniela, Cona Cósmica, 1.º Excerto; Miami Vice; Guarda Rios, Improv 1; Quebra,?; Maria Daniela, Cona Cósmica, 2.º Excerto; Luigi Nono, Complete Works for Solo Tape.

Teletrabalho: uma visão 360º…

1.      Introdução

Num contexto laboral em constante mutação devido sobretudo ao desenvolvimento tecnológico, questões capitalistas e imperialistas à escala mundial acentuadas pela globalização, esta mutação torna-se cada vez mais recorrente. São as alterações constantes que surgem no trabalho, tanto em termos de abrangência transversal – em que são englobadas cada vez mais pessoas e territórios, em termos numéricos e de velocidade – como de intensidade com que essas alterações se sucedem.

Com a pandemia de COVID 19, está a ocorrer um aumento exponencial do teletrabalho, o que em certa medida, e em jeito de prevenção, é bastante positivo. Pese embora já existissem em todo o mundo algumas pessoas a trabalhar neste regime laboral, o facto é que na generalidade existe pouca regulamentação nesta matéria, e alguma da existente poderá estar obsoleta ou com enormes lacunas, pois na altura da sua criação não foram contempladas diversas realidades que agora se colocam de uma forma muito mais clara, devido à massa crítica provocada pela diversidade de situações e de insatisfações por parte da classe trabalhadora. É sobretudo o caso das políticas levadas a cabo por parte de multinacionais que procuram, de forma oportunista, acentuar as desigualdades sociais aumentando a precariedade laboral, seja a nível de formas de contratação perversas, incluindo o recurso a empresas de trabalho temporário, como imputando custos à classe trabalhadora quando estes deveriam ser totalmente suportados pelas entidades patronais (que devem assumir todos os encargos relacionados com o trabalho). O que sobretudo estas multinacionais fazem, na realidade, é tirar partido de todo um sistema, explorando a classe trabalhadora e os próprios Estados através de engenharias financeiras, acabando por lucrar com isso, para posteriormente aumentarem o seu capital e distribuírem os seus lucros pelas suas administrações e acionistas.

A legislação, seja em que matéria for, procura colmatar falhas detetadas no sistema quando também há interesse político nisso, pois, por mais importantes que possam ser as falhas encontradas, muitas vezes ninguém as quer resolver na sua totalidade e, como tal, a revisão legal vai sempre atrás dos prejuízos e por vezes ao ralenti. Nesta matéria será necessário balizar as regras gerais à escala mundial, de forma efetiva, transversal e intersectorial, não deixando que a regulamentação do teletrabalho permaneça somente sujeita ao livre arbítrio de cada país, provocando prejuízos e consequências gravosas que podem ocorrer no imediato, a curto, médio e/ou longo prazo. Sabemos que estas recaem sobretudo sobre a classe trabalhadora e sobre os contribuintes, direta ou indiretamente, seja através dos parcos serviços de que necessitam – como a saúde, por exemplo – até aos impostos pagos.

2.      Empresas & Classe Trabalhadora

a)      Custos e organização/reorganização do trabalho

As empresas devem ser responsáveis pela disponibilização de todos os equipamentos necessários à atividade laboral, como computadores e demais equipamentos e aplicações informáticas e devem garantir o seu transporte ou suportar os custos inerentes ao mesmo. Nos casos em que haja necessidade por parte do trabalhador/a, a empresa deve igualmente disponibilizar ou suportar todos os custos relativos aos mais diversos materiais e serviços, tais como: instalação de internet, cadeiras, secretárias, consumíveis, etc.; custos relacionados com o aumento dos consumos de água e eletricidade devido ao teletrabalho devem também ser suportados pela empresa e em momento algum pelo trabalhador/a.

Quando haja necessidade de reconversão profissional, adaptação a novas funções ou a novas formas de trabalhar, a empresa deve garantir a respetiva formação inicial e contínua em condições de segurança (neste caso, tal como acontece com o teletrabalho, deve ser utilizada a teleformação).

Também em contexto de teletrabalho é um desafio e uma obrigatoriedade da entidade empregadora garantir que toda a classe trabalhadora possa continuar a usufruir de condições de higiene e segurança no trabalho, condições de ergonomia e medicina do trabalho; urge também implementar o acompanhamento psicológico de forma pró-ativa, não se restringindo apenas à legislação existente ou a eventuais recomendações que possam advir de entidades reguladoras da saúde, entre outras.

b)     Relutâncias na implementação do teletrabalho por parte de muitas empresas

Muitas empresas tiveram relutância na aplicação do teletrabalho e, ainda hoje, apesar da pandemia existir por todo o mundo, diversas empresas nunca chegaram a implementá-lo – mesmo em países em que este foi declarado obrigatório em determinados períodos. O teletrabalho continua a manter-se como recomendável sempre que possível. Estamos a falar de uma verdadeira responsabilidade laboral e cívica.

   1. Uma das principais relutâncias por parte das empresas está relacionada com os custos de investimento requeridos, como por exemplo a disponibilização de computadores para que as pessoas possam trabalhar em casa, a instalação de internet em determinados casos, e outros equipamentos necessários e afetos às funções.

  2. Outra das razões está relacionada com a forma de gestão dos recursos humanos e o elevado controlo/ assédio que recai sobre o/a trabalhador/a, de que uma boa parte das empresas não está disposta a abdicar. Controlo dos tempos de trabalho: neste aspeto, o controlo é muitas vezes apenas nas horas de entrada ao serviço, já que os tempos trabalhados a mais raramente são pagos de acordo com a lei e com os direitos laborais; quebras de sistema aplicacionais, computadores por vezes lentos e obsoletos e/ou quebras de internet que impossibilitam a realização das tarefas servem muitas vezes para penalizar salarialmente o/a trabalhador/a. Contabilizar tudo… chegando ao ponto de, em muitos casos, se contabilizarem ao segundo as pausas de descanso/tempo de refeição/idas à casa de banho… Para poderem continuar a controlar à distância, as empresas teriam de fazer um investimento em ferramentas informáticas para esse efeito. Este tipo de controlo excessivo é em muitos casos, para além de ilegal, bastante perverso.

3. A questão de licenças informáticas individualizadas poderá também levar a eventuais encargos. 4. Investimentos na segurança informática de forma individualizada e potenciais fugas de dados e por conseguinte o não cumprimento do RGPD – Regulamento Geral de Proteção de Dados é outra questão.

5. Superiores hierárquicos já com fraca capacidade de gestão de equipas e lacunas que poderão, em alguns casos, ficarem ainda mais acentuadas, podem constituir mais problemas no quadro desta nova forma de trabalhar à distância.

c) Novas realidades laborais, também aqui existem realidades distintas…

O que foi e pode voltar a “ser” …

O que foi e não pode voltar a “ser” …

O que foi e não volta a “ser” …

O que foi e pode voltar a “ser” … Existem empresas que já tinham por hábito proporcionar boas condições de higiene e segurança no trabalho e que, com a pandemia, simplesmente reforçaram o que de bom já faziam, atendendo às recomendações e à época em que vivemos, procurando ir ao encontro das necessidades da empresa e da classe trabalhadora. Por outro lado, este tipo de empresas, embora sejam escassas (do meu ponto de vista), por norma já cumpriam ou procuravam cumprir com a legislação nas suas mais diversas vertentes, não aplicando a precariedade laboral mas sim um sistema justo para todos, com progressões salariais, carreira, articulação com sindicatos, comissões de trabalhadores se existentes ou necessário. Acredito que este tipo de empresas, se não degenerarem, estarão aptas para fazer face à pandemia e sobreviverem no mercado, mesmo que para isso tenham ou tiverem de reconverter toda a sua produção, criando serviços para um bem comum (tal como alguns exemplos que temos vindo a conhecer nos últimos meses, como empresas que passaram a produzir de um dia para o outro máscaras, gel desinfetante, etc.). Produzir coisas úteis para a sociedade de verdade e algumas delas com preocupações verdadeiramente sustentáveis para o planeta.

O que foi e não pode voltar a “ser” … Espaços tais como call centers, shared service centers, com centenas e até mesmo milhares de trabalhadores literalmente uns em cima dos outros, sem qualquer distanciamento social, muitos deles a trabalhar em espaços sem luz natural, espaços fechados a funcionar 7 dias por semana, 24 horas por dia e sem arejamento natural, com manutenção do ar condicionado fraca ou quase inexistente. Elevadores cheios em edifícios que chegam a ter mais de 10 andares e cujos espaços comuns são igualmente reduzidos, edifícios que contam com poucas casas de banho face ao número de trabalhadores existentes. Fracas condições de higiene e segurança no trabalho e fracas condições de ergonomia de uma forma geral.

O que foi e não volta a “ser” … Com a forte implementação do teletrabalho a nível mundial (embora em alguns países/setores devido sobretudo à luta sindical, como foi o caso dos call centers em Portugal, em que muitas empresas aplicaram o teletrabalho não de livre e espontânea vontade, mas devido a uma greve no sector de duas semanas, aliado ao elevado medo e grande revolta dos/as trabalhadores/as), todas as empresas foram forçadas a apostar fortemente na informática. Esses investimentos tiveram de ser feitos mais cedo e de forma muito mais intensiva do que muitas empresas pretendiam fazer. Certamente irão continuar a apostar na informatização e otimização dos sistemas informáticos e, neste âmbito, dificilmente haverá retrocessos, bem pelo contrário… Acrescido da robotização, que tem estado a ocorrer faz décadas, a pandemia veio contribuir para muitas inovações informáticas das quais a robótica faz parte e que levou a uma automação em alguns serviços que outrora eram feitos por pessoas. Neste aspeto, as empresas multinacionais que auferem lucros brutais são as que poderão lucrar mais, devido à sua capacidade de investimento, feito com base na precarização laboral através de políticas de baixos salários, exploração das leis existentes, e fraca fiscalização, com conivência dos vários Estados e dos vários e sucessivos governos – não somente em Portugal, mas no mundo inteiro.

Também foram feitos investimentos informáticos em segurança e no controlo da classe trabalhadora à distância, muitas vezes de forma ilegal, como a instalação de câmaras e outros meios remotos de monitorização de equipamentos pessoais do/a trabalhador/a (computadores, telemóveis, aplicações de uso pessoal que foram e estão a ser utilizadas também para fins laborais), quebrando todas as regras de privacidade de cada pessoa. Neste caso das aplicações terá de haver um maior investimento em ferramentas internas de comunicação (intranet), seja para a realização de reuniões online, como para troca de mensagens.

3. Teletrabalho e suas envolvências…

a) O ser humano é um ser que vive em sociedade… sociável portanto!

Sendo sociável e vivendo em comunidade, o teletrabalho leva ao isolamento, gerado pela falta de interação presencial. Por isso, este acaba por não ser o mais adequado para todas as pessoas e muito provavelmente apenas para uma minoria da população. Por outro lado, pode comprometer futuramente o desenvolvimento interpessoal, devido à falta de interação presencial. Haverá ainda assim inúmeras pessoas que, por temerem o contágio da pandemia preferem, dentro do cenário atual, manter-se em teletrabalho. Querem resguardar-se da exposição nas suas deslocações para o trabalho e mesmo nos seus locais de trabalho. Estes espaços tendem cada vez mais a ser espaços pequenos face ao elevado número de pessoas que aí trabalham, como no caso dos call centers, service shared centers (serviços partilhados), fábricas, etc. Os equipamentos necessários para a laboração (computadores, ratos, auriculares, cadeiras, mesas, máquinas e outros equipamentos fabris) acabam inevitavelmente por serem partilhados por bastantes pessoas sem a higienização regular e adequada. Quanto aos espaços comuns (casas de banho, elevadores, locais de descanso e/ou refeição, etc.) são muitas vezes, além de escassos face a tantas pessoas, diminutos, e por isso potenciais focos de elevada contaminação, o que se alia à fraca ou inexistente disponibilização, por parte das empresas empregadoras, de equipamentos de proteção individual.

b) O “eu” e o teletrabalho…Terei ou não perfil…Terei ou não condições… Estas eventuais realidades permanecerão eternamente estanques no tempo e no espaço!

Cada pessoa tem as suas próprias características pessoais e vive ou pode viver num contexto muito específico, por conseguinte há um pouco de tudo… e o que hoje é uma realidade amanhã pode dar uma volta de 180º…

·        Há pessoas mais organizadas e auto-disciplinadas que outras…

·        Há quem por norma já seja sedentário e pode ganhar peso de forma substancial e por acréscimo ficar com falta de autoestima e vir a desenvolver graves problemas de saúde…

·        Há quem tenha o chamado perfil workaholic (trabalhador/a compulsivo/a) e trabalhe mais sem auferir contrapartidas salariais em conformidade com esse tempo disponibilizado “voluntariamente” …

·        Há quem fique simplesmente excluído do sistema (sem forma de ter acesso à internet e outros equipamentos informáticos… e cuja entidade patronal não queira facultar qualquer meio necessário e opte simplesmente por colocar a pessoa em lay-off ou acabe por agilizar um despedimento ilegítimo)…

·        Há quem consiga desligar do trabalho e diferenciar/separar a vida laboral da vida familiar e social…

·         Há quem sofra de violência doméstica e não tenha ferramentas (internas e externas) para ultrapassar a situação…

·         Há quem tenha de cuidar dos filhos ou sejam cuidadores informais de forma parcial ou a tempo inteiro, seja de pais ou outros familiares e/ou pessoas com quem coabitam no mesmo espaço…

·         Há quem tenha animais de estimação e isso possa interferir com a inaplicabilidade do teletrabalho…

·        Há quem possa ter vizinhança barulhenta ou simplesmente tenham obras a ocorrer nas proximidades…

·        Há quem possa viver num quarto sozinho ou com mais pessoas…

·        Há quem tenha uma casa pequena devido à falta de regulamentação que faça face à especulação imobiliária…

·        Há quem tema um despejo ou mudança involuntária de casa devido à perda de rendimentos do agregado familiar…

·        Há quem esteja a viver em casa de familiares de forma voluntária e há quem esteja na mesma situação por ter sido obrigado a isso (motivos financeiros, etc.)…

·        Há quem esteja a passar fome…

·        Há quem não consiga honrar os seus compromissos financeiros (créditos de habitação, automóvel, etc.)…

·        Há quem esteja com depressão…

·        Há quem seja hipocondríaco…

·        Há quem tenha perdido uma pessoa amiga ou familiar devido à pandemia…

·        Há quem tenha familiares e/ou pessoas amigas próximas que estão a passar sérias e graves dificuldades e se encontre, em simultâneo, impotente para as ajudar…

·        Há quem seja doente crónico/de risco ou coabite com familiares/pessoas consideradas população de risco…

·        Há quem reúna boas condições para o teletrabalho…

·        Há quem more perto do local de trabalho ou que não necessite de apanhar transportes públicos…

·        Há quem diariamente perde 2, 3 ou mais horas na sua deslocação de casa para o local de trabalho em transportes sem condições e muitas vezes sobrelotados…

·        Há ambientes familiares diversos, alguns salutares e outros pouco salutares…

·        Há quem tivesse rendimentos mensais já insuficientes e que com acréscimos de despesas (como água, eletricidade), sem qualquer apoio do empregador, fique com o cenário ainda mais agreste…

·        Há quem não tenha forma de ter acesso a comunicações em sua casa por motivos de falta de rede, ou que tenha acessos bastante limitados, ou mesmo casos em que não existe qualquer prestador que disponibilize serviços como a internet na sua área de residência.

Considerações finais:

·        O que pode ser bom para mim ou para ti, pode não o ser para outra pessoa…

 O conceito de qualidade de vida é muito relativo e cada caso é um caso e mesmo cada realidade atual pode sofrer alterações substanciais a qualquer momento. Toda e qualquer implementação do teletrabalho deve contemplar a sua reversibilidade, atendendo a questões opcionais e consensuais, que devem ser legais, leais e idóneas. Cada situação deve ser encarada de forma personalizada e adaptada o mais possível a cada pessoa e não deve ser tratada de forma generalista. Devemos todos estar atentos à legislação existente e à que vai saindo diariamente e lutarmos pelos nossos direitos, de forma preferencialmente organizada, para contribuirmos não somente para tornar real a legislação existente, como também para reivindicar de forma organizada e coletiva as eventuais melhorias que pretendemos obter de forma concertada e mais eficaz. Falo de organizações como comissões de trabalhadores, sindicatos, organizações da sociedade civil.

·        As entidades empregadoras devem procurar implementar e manter o teletrabalho consoante a evolução da situação pandémica. Nos casos em que possa não ser aplicável o teletrabalho por motivos da função em si, ou devido às próprias condições inerentes ao trabalhador/a, a empresa deve assegurar todas as condições de higiene e de segurança com o objetivo real de precaver qualquer forma de potenciais contágios (seja através da higienização regular e eficaz dos espaços e equipamentos, como da manutenção da distância entre as pessoas nos seus postos de trabalho e nos locais comuns, seja através do reajustamento de horários, de folgas e de férias, negociado de forma consensual e de acordo com a lei, em conjunto com a classe trabalhadora e os seus representantes). Esta situação não pode nem deve ocorrer de forma alguma através do assédio, uma estratégia sobejamente conhecida da classe trabalhadora e praticada frequentemente por parte das entidades empregadoras. As condições de monitorização do teletrabalho não devem invadir a privacidade das pessoas nem fomentar as irregularidades e desigualdades sociais perante as leis e o bem comum.

·        O futuro poderá passar por soluções híbridas em que parte do trabalho será realizado de forma presencial e outra em regime de teletrabalho. Certamente haverá um número de pessoas, talvez mais reduzido nalgumas empresas, que após esta experiência já não voltarão a trabalhar presencialmente de todo; enquanto outras empresas, para reduzirem encargos com instalações, apostarão 100% no teletrabalho, livrando-se deste tipo de encargos fixos. Haverá também empresas que voltarão à antiga normalidade, apostando única e simplesmente no trabalho presencial. Haverá de tudo um pouco. Ocorrerá certamente a deslocalização de algumas pessoas que vivem nos grandes centros urbanos para outras regiões, onde os custos de vida são menores do que nas grandes cidades. Por outro lado, abre-se uma janela de oportunidade e simultaneamente de precariedade, de dimensões potencialmente incalculáveis, pois uma pessoa com o teletrabalho pode estar a trabalhar para qualquer país, mas também a entidade empregadora pode contratar onde quiser e com as condições que quiser (procurando contratar pessoas em regime de teletrabalho em países onde são pagos salários mais baixos, com baixa regulamentação laboral e fraca fiscalização ou benefícios fiscais).

·        Os sindicatos, as comissões de trabalhadores e outras organizações que lutam e defendem os direitos da classe trabalhadora devem adaptar-se de forma rápida para garantir o acompanhamento desta nova realidade e, além das lutas presenciais, devem implementar novas formas de luta à distância que podem não ter sido contempladas até à data, tendo em vista obrigar os governos a nível internacional a aplicar as leis existentes e a rever a legislação do teletrabalho. Ao mesmo tempo devem ter cada vez mais como um dos seus principais focos a criação de sinergias à escala mundial e intersectorial, por forma a serem muito mais eficazes, eficientes e consequentes nas suas lutas.

Mais informações úteis:

Living, working and COVID-19 First findings – April 2020 Work, teleworking and COVID-19 https://www.eurofound.europa.eu/sites/default/files/ef_publication/field_ef_document/ef20058en.pdf

Este artigo encontra-se disponível para download no Cidac – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral: https://cidac.pt/files/9915/9912/1668/boletim_agosto.pdf?fbclid=IwAR2gOiPmZqkpNfJE-xWelxm8vM5BkOoBKceerInWOHJmGCC-jCH7cxI6Hpc

Danilo Moreira, Presidente do Stcc, tás logado? (Sindicato dos Trabalhadores de Call Center)

Rebels on the Mov(i)e #23 | Afirma Pereira

Afirma Pereira é um filme de 1995, baseado no livro homónimo publicado apenas um ano antes por Antonio Tabucchi e que é talvez a obra mais famosa do escritor toscano. Afirma Pereira, de facto. Um filme interpretado magistralmente pelo actor italiano “Marcellino” Mastroianni.

É a história de um jornalista, gordo e diabético, extremamente comum, que come omeletes e limonada todos os dias no mesmo bar, o Orquídea café. Está obcecado com o medo da morte e a memória da sua esposa, que morreu de tuberculose.

O contexto histórico é 1938, quando Portugal se encontrava sob a ditadura de António Salazar. “Era o dia 25 de Julho em mil novecentos e trinta e oito, e Lisboa brilhava no azul de uma brisa atlântica, afirma Pereira”. Pereira edita a página cultural de um jornal local, o Lisboa. É um homem apático, politicamente despreocupado e completamente desinteressado pelos assuntos sociais do seu país.

Tudo isto muda quando ele entra em contacto com um jovem escritor italiano, Francesco Monteiro Rossi, que nos seus obituários exprime facilmente as suas tendências políticas. Os acontecimentos da sua vida vão mudar rapidamente, tanto por causa do conhecimento de Monteiro Rossi, como por causa do encontro com o Dr. Cardoso. Este último apresenta-lhe a teoria da “confederação de almas”: em cada pessoa coexistem várias almas sobre as quais uma mais forte domina, mas pode acontecer, contudo, que uma destas almas se fortaleça ao ponto de expulsar a dominante. O resultado desta partilha é uma metamorfose completa do indivíduo. Pereira começa a tomar consciência da opressão do regime, da censura e do clima de violência.

A viagem de Pereira leva-nos a reflectir sobre os conceitos de liberdade e prisão. Pereira, na sua solidão, nas suas obsessões e na sua inépcia pensa ter encontrado a sua liberdade, optando por não ver a opressão e a censura, instrumentos necessários para levar a cabo a ditadura. Pereira vive assim sufocado entre os seus hábitos e a presença do regime.
Este filme, baseado no livro e na história de Pereira, pode ser tomado como uma contextualização da formação de oposição contra o sistema dominante. Vivemos uma crise sindémica (pandemia acompanhada por uma crise económica e social) onde se experimenta formas de controlo social muito semelhantes a ditaduras. Assim, esperamos que este filme seja uma inspiração para aqueles que querem realizar actos de coragem e questionar a nossa indiferença, em muito semelhante à do protagonista Pereira.

Cantos Nómadas #5

ALARMA#4, Rádio Sonoplasmática; Flower, Francisco Seara Aguiar; Merry Go Round, The Big Church of Fire; David Graeber, Dívida, os primeiros 5000 anos; John Zorn plays Cobra;
Shoshana Zuboff, A era do capitalismo de vigilância; Random Post-rock Recording, STOP,
Porto; ALARMA#4, Rádio Sonoplasmática; The Songlines, Bruce Chatwin; HHY & The Makumbas, Desertfest 2019.

Gabriela Live – Emissão #3

Este último Domingo estivemos nos Estúdios Sirigaita a levantar questões e a espicaçar debates naquele que provavelmente foi o último programa de mixórdias do ano da Rádio Gabriela. Sintoniza-te!

Falámos de:
i) Novas realidades laborais. O que é que é isso do trabalho ao sabor de uma app?

ii) Aniversário da Sirigaita e da resistência dos espaços auto-geridos.

iii) Acordos e desacordos climáticos.

iv) O que se passa noutras geografias, com paragens:
– temos um correspondente em Roma!

Tudo bem salpicado de óptimas malhas e, quiçá (a esperança é a última a morrer), da melhor gastronomia local.

A propósito do aniversário de um espaço auto-gerido.

A Sirigaita é uma associação cultural situada em Lisboa, no Intendente, no início da rua dos Anjos. Muitos colectivos autónomos – feministas, anti-racistas, anti-fascistas, ambientalistas, LGBTQ+, grupos de apoio mútuo, grupos artísticos – ali reúnem, debatem, fazem assembleias e preparam acções. É ainda a sede da associação Habita, que luta pelo direito à habitação. Neste lugar onde também se pode beber um copo já houve centenas de concertos, exposições, debates, filmes, performances. Ali se encontra uma cooperativa de consumo de produtos biológicos (a Bela Rama), ensaia um grupo de teatro comunitário e funciona uma pequena livraria. Quando em Março a Sirigaita foi obrigada a fechar portas, por causa da pandemia, ali surgiu a Rádio Gabriela. Lugar de convívio e de confluência de energias várias, políticas, sociais e artísticas, é um espaço que se assume como feminista e livre de apartheid israelita. A propósito do seu segundo aniversário, a Catarina, uma das Sirigaitas, escreveu este texto:

É o aniversário da Sirigaita e não consigo decidir se é a celebrar que o devemos passar.

Celebrar, sim, esta casa que se construiu colectivamente. Este espaço de cultura, de luta, de festa, de solidariedade, de convívio, de olhar crítico, de encontro, de livros, de pensar e fazer em conjunto, de experimentar sem olhar ao lucro, de amizades, de arte, de escuta, de comunidade no centro da cidade.

Mas sem ilusões: este é um espaço quase permanentemente em risco, porque está inserido numa zona de rápida gentrificação, porque as autoridades locais não têm interesse em proteger, quanto mais em apoiar as colectividades e associações de forma a que consigam manter-se em actividade, e deixa-as fechar para que hotéis e empreendimentos de luxo nasçam onde elas existiam. Mas também porque as pessoas à nossa volta têm as vidas fragmentadas e têm no seu viver uma luta tão grande que lhes resta pouca energia para construirem a associação cultural de que querem usufruir. Assinalar dois anos de Sirigaita é assinalar dois anos de luta, dura e alegre, tirada a ferros mas fecunda.

Se, quando abrimos portas, em 2018, sabíamos que íamos ser um lugar querido, não imaginávamos a procura nem a quantidade de solicitações que íamos ter. É uma ilusão pensarmos que as nossas ideias não precisam de uma casa, que sobrevivem em encontros online ou nos nossos quartos em casas partilhadas. É em lugares como a Sirigaita que se ensaia, que se reúne, que se planifica e que se apresenta trabalho que não quer esperar por espaço no mercado.

Este é o nosso lugar, um lugar contra a lógica e ideologia regentes, que experimenta outras formas de organização, que se baseia nos valores da solidariedade e da auto-gestão. Mas que não consegue escapar totalmente a um sistema opressor que não olha a meios para protecção da propriedade privada e prefere que esta esteja morta mas a render do que viva se não der lucro.

A Sirigaita não paga renda desde Março. Não paga porque não tem como pagar. De momento estamos protegidxs por uma lei que nos permite acumular dívida até um momento posterior em que, tudo indica, continuaremos a não ter como pagar. A certa altura perguntámo-nos se queríamos pedir ajuda financeira às e aos nossxs sócixs, mas achámos que, numa altura em que tanta gente à nossa volta ficou sem chão, não era prioritário pagar aos senhorios. Fizemos bem. Mas teremos uma luta e pêras pela frente, ou uma oportunidade para pôr um pauzinho na engrenagem. Esta casa quer-se, como todas as casas, por muito tempo. E em breve, cheira-me, vamos ter de fazer valer este desejo com a nossa força.

Que essa força cresça! Que a Sirigaita seja a casa de cada vez mais gente, de cada vez mais ideias e que seja construída sempre por mais gente com ideias. Que continue por muitos anos a evitar os tiques do mercado e dos grupinhos fechados, a dar lugar às lutas e às expressões que se constroem nesta cidade. E que um dia ganhe janelas, para respirarmos melhor em conjunto!

Catarina Carvalho

#FightFor1Point5

Vários colectivos saíram à rua nos dias 11 e 12 de Dezembro, a fim de contestar o Acordo de Paris e demonstrar o seu falhanço, ao final de 5 anos. Em diversos países gritou-se pelo fim da hipocrisia dos nossos governos, que prometeram metas que não tinham a intenção de cumprir: evitar uma subida da temperatura média global de 2 graus; promover o baixo desenvolvimento de emissões de gases de efeito estufa e avançar com projectos de desenvolvimento “sustentável”, tentando convencer o mundo (?) que adoptando alguns termos poderiam mudar as coisas…

Face à ineficácia dos governos, propõe-se hoje um novo acordo assinado por colectivos internacionais e nacionais: o Acordo de Glasgow.

Estivemos com a Climáximo que saiu hoje à rua e nos falou do Acordo de Paris, que foi feito para falhar.

#FightFor1Point5

Direito a existir, liberdade para ser e fazer acontecer…

Após um longo processo histórico passando pelo Cilindro de Ciro (539 a.c.), Carta Magna (1215), a Petição de Direito (1628), a Constituição dos Estados Unidos (1787), a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1798), e a Declaração dos Direitos dos Estados Unidos (1791) chegámos aos direitos humanos atuais. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) foi adotada pelas Nações Unidas no dia 10 de dezembro de 1948. Um processo complexo com avanços e retrocessos traduzidos em lutas eternas para que no seguimento das palavras escritas estas sejam cada vez mais modos colectivos de vida com carácter universal. Como forma de assinalar o dia 10 de dezembro (Dia Internacional dos Direitos Humanos) deixamos esta reflexão.

Direito a existir, liberdade para ser e fazer acontecer…
Que mundo queremos? O que está por fazer? Que contributo podemos dar?

Somos convidados a viver assim de repente sem mais nem menos, e dá-se início a todo o processo do existir e do interagir com tudo e com todos quer queiramos quer não, falamos aqui de todo o nosso percurso no tempo e por tempo indeterminado neste Mundo não tendo nem hora nem data marcada de fim.

Ao longo deste nosso ciclo existencial somos educados, deseducados pela família, sociedade, moldados por tudo o que nos rodeia não abdicando de parte do nosso cunho pessoal, de alguma forma através do peso da personalidade individual de cada um…

Nascemos livres e iguais, mas por vezes com severas restrições e condicionados por diversos factores, tais como, a época, o país, a cultura etc… onde nos encontramos inseridos por exemplo, nascer na Venezuela, Coreia do Norte nos dias de hoje é totalmente diferente de nascer em Portugal, no entanto, ao longo da história haverá sempre avanços e retrocessos no que diz respeito aos Direitos Humanos dado estes uma vez adquiridos não estão garantidos de forma vitalícia.

Consciente e/ou inconscientemente discriminamos e somos discriminados sendo este um processo de evolução e/ou mutação ao longo do tempo marcado por um crescimento/degeneração individual e coletiva dependendo do meio onde estejamos e da influência marcada pelo exterior à escala mundial.

Abominam-se práticas de tráfico humano, a escravatura e tortura ainda assim nos dias de hoje elas existem, em alguns casos com punições e em outros casos com a conivência e o interesse de determinados “chefes do mundo, chefes de estados”.

Através do uso da força militar, policial fazem-se dispersar pessoas reprimindo-as, colocando em causa a democracia, liberdade de expressão e de pensamento, visando aniquilar quaisquer formas de reunião/organização que não se coadunem com interesses de quem está no poder. Prende-se de forma arbitrária pelo simples facto de serem opositores de regimes ditadores …colocando em causa o facto de sermos todos iguais perante a lei e por vezes sem direito a julgamento justo ou mesmo com esquemas de corrupção por detrás.

A estabilidade e a instabilidade mundial a nível político, económico, o controlo sobre o território, sobre as populações e normas de segurança coloca em causa a privacidade a que temos direito, põe à prova a ambição do ser humano em alcançar um mundo livre e justo. É um desafio constante a distribuição/redistribuição da riqueza entre todos garantindo um sistema com equidade no tratamento de questões relacionadas com a segurança social, condicionando o acesso a princípio básicos de subsistência, como o direito a habitação, educação, saúde etc…

A exigência/instabilidade laboral e as oscilações de mercado constantes restringem em grande parte o assumir de compromissos mais sérios no que diz respeito à liberdade de constituir família em condições dignas de subsistência. 

Dizem-nos que temos direitos, mas onde quer que vamos deparamo-nos com políticas que restringem o direito a uma nacionalidade, limitam a liberdade de movimento, o direito ao asilo acabam por ser também uma responsabilidade de todos nós, ninguém nos pode tirar os nossos direitos. Procuramos de forma constante a felicidade e o bem-estar próprio e também para e com aqueles que mais gostamos, por vezes estamos solidários com situações das quais tomamos conhecimento e com as quais nos preocupamos, queremos nos divertir, queremos ter liberdade para criar sem sermos plagiados,  ambicionamos que o resultado das nossas criações sejam divulgados/replicados e igualmente reconhecidos.

Queremos agregar valor de alguma forma à sociedade em geral e não cairmos em esquecimento em tempo algum … queremos ser eternos…

Texto de Danilo Moreira, activista pelos Direitos Humanos das palavras à sua aplicabilidade no terreno!

https://www.humanrights.com/



Canção de Luta #5 “Gorizia”

“Gorizia”, canção antimilitarista do início do século, levantou grande polémica em Itália nos anos 60 quando voltou a ser cantada no Festival de Spoleto por Michele Straniero no espectáculo “Bella Ciao”. Feridas da Primeira Grande Guerra Mundial que esta canção reabriu.

Pelo Coro e Banda della Scuola Popolare di Musica di Testaccio.

Cantos Nómadas #4

Planningtorock, The Breaks; David Graeber, Dívida, os primeiros 5000 anos; Jeffrey Paul, Your Computer Isn’t Yours; Diogo Neto, Leonardo Janeiro e et al., Mal Menor; Shoshana Zuboff, A era do capitalismo de vigilância; Radio Klaxon, Ça y est on a gagné; Marc Rebillet, Bisexual Jesus; William Basinsky, The Disintegration Loops.

Rebels on the Mov(i)e #22 | They live

They Live é um filme americano de ficção científica de 1988 escrito e realizado por John Carpenter, baseado no conto “Eight O’Clock in the Morning” de Ray Nelson, de 1963. O filme acompanha a história de um vagabundo que descobre, através de óculos de sol especiais, que a classe dominante é composta por extraterrestres que disfarçam a sua aparência e manipulam as pessoas para consumir, procriar e conformar-se com o status quo através de mensagens subliminares nos meios de comunicação social.


O desempregado John Nada deixa Denver para se mudar para Los Angeles em busca de um emprego. É contratado como trabalhador da construção civil num estaleiro e, com a ajuda do afro-americano Frank Armitage, encontra alojamento num acampamento de barracas na periferia da cidade. Pouco depois da sua chegada, Nada nota uma série de acontecimentos estranhos: um pregador religioso que sofre de cegueira dizendo às pessoas para “acordarem”, mensagens estranhas de um homem que aparece como interferência na televisão e um helicóptero da polícia inspeccionando continuamente o local. Nada encontra vários equipamentos científicos, uma inscrição “Eles vivem, nós dormimos” e uma caixa escondida na parede, mas é obrigado a sair quando o pregador chega, que o deixa ir depois de lhe tocar no rosto e nas mãos.

https://www.youtube.com/watch?v=2sHp_WUF2tM&t=1708s

VIH e SIDA. Conversa sobre discriminação nos dias de hoje.

No Dia 1 de dezembro assinala-se o Dia Mundial da Sida. Momento anual criado em 1988 para prestar tributo aos que morreram, aos que vivem com VIH e reconhecer o que falta fazer. Desde os anos 80 até agora a realidade da infeção pelo VIH mudou. Os tratamentos e a prevenção evoluíram, mas o estigma e a discriminação continuam, criando uma invisibilidade que custa ultrapassar.

A Rádio Gabriela esteve à conversa sobre o tema da discriminação e da invisibilidade, a propósito do Dia Mundial da Sida e do lançamento da campanha #zerodiscriminação da Lisboa Sem Sida.

Com Paolo Gorgoni da iniciativa Lisboa Sem Sida, Maria João Brás do GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos, Eduardo Lima do CheckpointLx/GAT e João Brito do CAD – Centro Anti-Discriminação VIH e SIDA.

Gabriela Live – Emissão #2

A segunda emissão foi este Domingo dia 29 de Novembro.

Neste segundo live:

– da condenação de 8 agentes da PSP por agressões a jovens da Cova da Moura,
– dos EUA, com os seus movimentos sociais de base a eleger e revirar os olhos a Biden simultaneamente,
– do Orçamento de Estado e do que deixa por fazer em termos de políticas de habitação
– do 25 Novembro, ou seja, do dia mundial para a eliminação da violência contras as mulheres,
– de uma canção de luta,
– de podcasts que tens de ouvir: Cantos Nómadas,
– do que vier à rede!

Gabriela live é um programa para escutar os sons e os movimentos do mundo, com depoimentos e reportagens, música e pensamento livre.

Cantos Nómadas #3

Cantos Nómadas, um podcast de Pedro Augusto.

Sleaford Mods – Discourse; David Graeber, Dívida, os primeiros 5000 anos, continuação da introdução tradução de Pedro Augusto), com Steve Reich, Variations for Winds, Strings and Keyboards; Leonardo Janeiro, Herança, com Das 13:23 às 05:00, do álbum Recolhimento N.º 1, de Diogo Neto Machado; O Peregrino, de J.A. Baker, trecho de Os primórdios, tradução de Andreia Farinha, com Olivier Messiaen, Catalogue d’oiseaux, Book 7, No.1 Buzzard; Poema Muu, de Evelyn Reilly, tradução de Nuno Marques, com Turtle Dreams, de Meredith Monk; Radio Panik, Bruxelas, excerto de “La cloche de bois”.

Marcha pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, 25 Novembro

A Rádio Gabriela foi no último dia 25 de Novembro à concentração no Rossio falar com algumas associações, grupos e colectivos que participam na Marcha Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres.

Entrevistámos intervenientes da Umar, do Clube Safo, das Mulheres pelo Direito à Habitação, e da Rede 8 de Março.

Imagem de Las Piteadas.

Rebels on the Mov(i)e #21 | Another Lisbon Story

Estamos no meio de uma pandemia, dizem todos… mas talvez não tenhamos percebido que já entrámos numa segunda fase e que o termo correcto seria, talvez, Sindemia ou melhor, uma caracterização da integração mútua dos problemas de saúde da população no seu contexto social e económico. Através deste filme vamos tentar imaginar o que pode significar viver neste contexto histórico com o Inverno ao virar da esquina, nas mesmas condições que estas pessoas.

Another Lisbon Story foi filmado há mais de quatro anos para denunciar esta realidade. Naquela altura viviam lá 62 famílias – cerca de 300 pessoas – entre mulheres, crianças, homens, idosos, pessoas com deficiência e alguns casos com graves problemas de saúde. Num bairro sem condições mínimas de higiene, sem saneamento básico, com casas precárias, e nem sempre com água potável disponível. E, quatro anos mais tarde, o Bairro da Torre continua lá e em piores condições do que quando o realizador o filmou.

O encontro entre a comunidade e um grupo de investigação universitária iniciou um processo de inclusão na sociedade deste bairro estigmatizado com o objectivo de criar uma futura consolidação e integração através de planeamento urbano partilhado: entre práticas de auto-produção comunitária no seu habitat e de movimentos de cidadãos em defesa do seu direito à habitação, ao lugar e à cidade.

Link uteis:https://www.insider.pt/2017/11/26/claudio-carbone-e-o-cinema-militante-de-another-lisbon-story/

https://www.archdaily.com.br/br/796757/documentario-another-lisbon-story-narra-a-vida-em-uma-favela-de-lisboa

https://www.publico.pt/2017/02/20/video/as-portas-de-lisboa-um-bairro-de-barracas-20170220-130107

Cadáver Esquisito #1

Do que é que não se anda a falar por causa do que se anda a falar?

Um cadavre exquis dos temas menos batidos do momento, feito em dia de recolher obrigatório, a partir de muitas casas diferentes. O desafio era cada um falar sobre um tema sobre o qual não encontrasse eco no que anda p’raí. O resultado? Ouve aqui:

Cantos Nómadas #2

Cantos Nómadas, um podcast de Pedro Augusto.

Panther Modern, Kick it out; David Graeber, Dívida, os primeiros 5000 anos, Cap. 1, com o tema Das 23.13 às 05, de Diogo Neto; Schubert, Ave Maria shittyfluted; Por trás da fachada: estratégias e padrões de argumentação populistas de direita, com o tema Nível de Fumo, de Serpente; Leonardo Janeiro e Afonso Patinhas; Trechos de Radioart Residency, Halle, Alemanha; African fart insane music, artista não identificado.

Barulho pela Habitação

Na quinta-feira, 12 de Novembro, a Acção pela Habitação (coligação de vários coletivos que lutam pelo direito à habitação e à cidade na Área Metropolitana de Lisboa) esteve em frente ao Ministério das Finanças para entregar uma carta aberta com exigências para o Orçamento de Estado 2021 e as verbas atribuídas à habitação.

“A população teve uma queda de rendimentos brutal, o que notamos é que as rendas apesar de não continuarem a subir ao ritmo galopante de antes mantêm-se quase iguais.”

“O actual governo e o anterior, prometem alguns investimentos em termos de habitação pública e em termos de apoios também para as pessoas pagarem as rendas e depois não os cumpre, não os executa (…) numa estatística de Julho, por exemplo, no Programa Primeiro Direito, o governo executou 8% dos valores prometidos que é um valor baixíssimo.”

“…fartos de uma crise que não foi preparada, uma crise sanitária que podia ter sido prevenida através de investimento na saúde pública, através de investimento no trabalho a sério e não no trabalho precário, através de casas e habitações dignas.”


Carta Aberta

Se a crise de habitação já era uma lamentável realidade antes da crise pandémica, atualmente um número crescente de pessoas vê ainda mais difícil e incerta a sua situação habitacional. O desemprego e a enorme perda de rendimentos tem deixado muita gente à beira da rotura, os aumentos salariais e das pensões são irrisórios e a possibilidade de entreajuda familiar, já desgastada pela ultima década, deteriora-se. Muitas pessoas não conseguem pagar as rendas e sofrem enormes pressões dos senhorios. Muitas não aguentam e abandonam as casas que habitam ou são expulsas por proprietários que não cumprem a suspensão dos despejos.

As medidas para responder à crise de habitação têm sido insuficientes do ponto de vista estrutural ou na resposta à emergência do momento. Se assim não fosse, não teríamos o aumento do número de pessoas sem abrigo (que se amontoa em ginásios, abrigos colectivos, ou vivendo sem local fixo), não teríamos um número crescente de pessoas a viver em barracas sem água sequer para lavar as mãos, não teríamos tantos jovens desempregados a abandonar as casas que partilhavam e que deixaram de conseguir pagar, não teríamos famílias que perdem a casa, não teríamos o aumento de famílias em sobrelotação e o aumento da infecção Covid19 dentro de casa. Os programas de suspensão da renda duraram menos do que o necessário e transformaram-se em dívida, o apoio ao pagamento da renda pelo IHRU mostrou o quão limitado era.

Apesar da quebra do turismo, o preço das casas não caiu o necessário para que o mercado se torne razoável e seja novamente possível habitar de acordo com os rendimentos. Esta crise veio reafirmar a enorme vulnerabilidade económica de um país que se deixou tornar dependente deste sector de baixa produtividade, sector que paga mal e assim contribuiu para a crise e desigualdade na habitação.

O mercado imobiliário esteve em alta durante vários meses da pandemia e os vistos gold, ao contrário das promessas do governo, não acabaram. Aproveitando-se deste momento de crise, os fundos preparam-se para açambarcar os chamados activos imobiliários.

Os construtores e promotores imobiliários vêm pedir mais subsídios, mais isenções fiscais e parcerias para continuar a construir e a fazer aumentar a oferta no mercado privado. Querem, com o apoio do dinheiro público, continuar a ganhar dinheiro, promovendo a ideia falsa de que é o aumento da oferta privada de habitação que vai resolver os problemas de acesso a habitação. O aumento de oferta de habitação das últimas décadas nunca fez baixar os preços e não é agora que o fará. Os especuladores, responsáveis pela crise de habitação, não podem ser recompensados com dinheiro público para fingir que fazem parte da solução. As soluções devem ser habitação pública e regulação contra a especulação.

O governo anuncia, recorrentemente, que agora é que vai promover a habitação pública, agora é que vai converter património do Estado em habitação, agora é que vai acabar com os Vistos Gold. No entanto, essas promessas não saem do papel há vários anos. Por outro lado, preocupa-nos que no decreto-Lei n.º 81/2020, do início do mês de Outubro, se tenha acrescentado que o IHRU passa a participar em “sociedades, fundos de investimento imobiliário, consórcios, parcerias públicas e público-privadas e outras formas de associação (…)”. Esperemos que esta não seja a via privilegiada de resolução do problema de habitação: subsídios públicos ao negócio privado que não resolvem o problema da habitação.  Gasto público deve servir para habitação pública.

As promessas do governo têm alguns problemas fundamentais:

1) o governo não tem vindo a cumprir os seus compromissos em matéria de habitação:
a) estamos praticamente no fim de 2020 e, ao contrário do prometido, não acabou com os vistos gold;
b) os anúncios de habitação pública, através do programa Primeiro Direito, tem níveis de execução orçamental insignificante e assim, nos últimos anos, nunca foi sequer cumprido o magro orçamento para habitação pública que tinha sido anunciado e votado por uma maioria parlamentar; E fica por saber qual a capacidade das autarquias, altamente pressionadas, para acompanharem a parte que lhes compete (cerca de metade do investimento necessário).
c) para o ano de 2021 não é sequer claro no orçamento qual o valor que será afeto a esta área.

2) Por outro lado, não é suficiente anunciar o desenvolvimento de habitação pública. Além da demora deste projeto em sair do papel, será sempre um processo de médio/ longo prazo, em quantidade insuficiente para responder às necessidades da crise social e habitacional que temos hoje. Apesar da importância fundamental do aumento do parque público, a habitação em Portugal está esmagadoramente no sector privado e, por isso, é fundamental regular as rendas e dar estabilidade aos contratos desde já. É urgente e determinante impedir rendas abusivas e a espoliação das pessoas através da remuneração especulativa de rendas que em nada contribuem para o desenvolvimento económico do país.

3) A continuação dos vistos gold e do programa de fuga fiscal, o regime dos residentes não habituais é responsável pelo desgaste do mercado de arrendamento, orientação para a venda a preços nada têm que ver com o contexto de quem vive e trabalha em Portugal.

4) Programas para alojamento de emergência e outros anunciados ficam sempre muito aquém das necessidades. São pequenos programas que nunca serão suficientes para responder à dimensão de um problema que é estrutural. O Porta65 Jovem anuncia subsídios às rendas, no entanto apenas subsidia rendas com determinados limites que não existem na realidade, e por isso, não funciona onde faz mais falta.

Perante a crise pandémica e todos os problemas económicos e sociais decorrentes, a habitação não pode continuar a ser fator de agravamento da pobreza e da desigualdade. A política de habitação é crucial para responder à crise sanitária, social e económica.

Por isso neste mês de discussão do orçamento vimos relembrar a questão da habitação a todas as forças parlamentares e ao governo. O silêncio sobre este tema é ensurdecedor. Por isso HOJE fazemos barulho pela Habitação!

Exigimos:

– Investimento em habitação pública e um orçamento que cumpra, que execute, efectivamente, o que diz;

– Clareza na definição das rubricas sobre investimento em habitação pública no Orçamento do Estado, de forma que a sociedade consiga estar informada e envolvida nessa discussão;

– Que as verbas públicas não sirvam para parceiras público-privadas ou para financiar o mercado privado especulativo ou as chamadas “rendas acessíveis”, que não o são;

– O fim imediato dos vistos gold e do regime dos residentes não habituais;

– A regulação de preços para acabar com rendas abusivas; A regulação de tetos de renda não pode continuar a ser tabu: Berlim e Catalunha estão já a regular os preços do arrendamento, e esta legislação vai estender-se a todo o Estado espanhol.

– Diferenciação entre grandes e pequenos proprietários, impondo aos grandes especuladores responsabilidades, impedindo que tenham casas vazias e promovam despejos;

– A requisição das casas que são deixadas vazias, para responder à emergência na habitação;

– o cancelamento das rendas para quem não pode pagar durante a crise sanitária e social;

– O impedimento de despejos durante a pandemia, mas também para além desta, sempre que não haja alternativa de habitação adequada.

Rebels on the Mov(i)e #20 | Comizi d’amore

O que é surpreendente na linguagem de Pasolini é a sua pureza e simplicidade plasmada em toda a sua obra, capaz de manter a actualidade até hoje: incide a sua luz numa investigação sobre o conceito de sexualidade e a sua percepção pelo povo italiano.


Comizi d’amore é um registo incrível da Itália dos anos 60, onde os entrevistados de diferentes classes sociais se debruçam sobre temas quentes para a época – o divórcio, a homossexualidade e a emancipação das mulheres. Entre os protagonistas, destacam-se os convidados intelectuais da época, como Moravia, Ungaretti ou Fallaci.


Olhando para este passado recente – apenas há 50 anos – podemos reflectir, por exemplo, sobre a rapidez das transformações da moral de uma sociedade e como, através de lutas muito relevantes e constantes, alguns impensáveis da época representam hoje conquistas consolidadas.

Canção de Luta #2 “Blessed are those who struggle” The Last Poets

Canção de luta #2 “Blessed are those who struggle” – The Last Poets.
Uma canção de homenagem a quem lutou (e luta) contra a escravatura, a opressão, a discriminação e o apartheid, lançada em 1977 pelos The Last Poets, um grupo de arte e acção – através da poesia e da música – com uma história bem interessante. «Para que a liberdade e a paz sejam mais do que uma palavra para aqueles que vierem depois».

Onde bate o ponto? #1 A Crise sanitária e o sistema de saúde

Onde bate o ponto?
A mesa redonda da Rádio Gabriela sobre a crise sanitária e o sistema nacional de saúde.

Sentamo-nos à mesa com a Ágata, o Fabrizio e a Virginia, profissionais de saúde, para uma conversa sobre a crise sanitária e o SNS. Muito para além dos números do costume, falaremos da pandemia e das questões que nos assaltam a todos há mais de seis meses.

Uma mesa redonda onde conversamos sobre temas sociais de forma esclarecedora mas próxima das experiências vividas.



Passeio no Rossio – impressões no toque de recolher obrigatório

É dia 14 de Novembro de 2020 e são 12h30. Saímos dos Estúdios Sirigaita e dirigimo-nos ao Rossio, curiosos para ver com os nossos próprios olhos como corria a manifestação em Lisboa, depois da de anteontem no Porto, mas também testemunhar o efeito de uma cidade que entra num recolher obrigatório, em plena luz do dia.

O céu está cinzento, chuviscos caíram sobre a cidade pela manhã. Não há muita gente por perto, a maioria das pessoas desloca-se rapidamente, as lojas fecham as persianas. Chegamos ao Rossio saudados pelo hino nacional português, uma praça meia cheia – cerca de mil pessoas que tendo em conta estes tempos é um número considerável. Quando o hino termina, a Grândola, vila morena começa imediatamente. Olhamos à nossa volta e vemos muita gente comum. Enquanto no palco começam os discursos dos organizadores, nós passamos entre o povo. A esmagadora maioria usa máscaras, as pessoas não estão realmente longe umas das outras, mas também não estão juntas. A atmosfera é um pouco sombria, embora as vozes do palco soem bastante alto.

Pensamos que, entretanto, a cidade à nossa volta irá esvaziar-se, porém vemos mais pessoas a chegar para a manifestação. Se ao microfone, a falar, surgem principalmente pequenos empresários (restauração, hotelaria, turismo, cultura) a praça parece ser constituída de um pouco de tudo. Há trabalhadores e trabalhadoras, há patrões de restaurante, motoristas de autocarros de turismo. Muita gente comum.

Vêem-se jovens, afrodescendentes, migrantes, reconhece-se o empregado de mesa da tasca onde se vai sábado à noite. Mas também observamos: betos, um padre, um grupo de fascistas, muitos polícias à paisana. Para além de uma bandeira do Movimento Cumprir Portugal (que acabámos de descobrir que tem por objetivo “voltar ao mar”), não existem outras siglas para além da do Movimento Pela Liberdade, que tinha convocado uma manif para a Avenida da Liberdade ao mesmo tempo.

Toda a comunicação é feita com uma linha gráfica comum na qual são expressas poucas revindicações (na essência “querem trabalhar”), alguns “factos” tais como: “68% das infecções ocorrem em casa” ou “Não somos um movimento somos pessoas cansadas de arroz”.

As intervenções sucedem-se, por vezes mais sensatas, por vezes muito contraditórias. Aqueles que falam ao microfone, falam genericamente em nome de “empresários, trabalhadores e comerciantes”. Fala-se muito sobre a responsabilidade dos bancos, há muita raiva em relação ao governo, cujas escolhas parecem ilógicas. Os migrantes também intervêm ao microfone. Quando há intervenções “mais nacionalistas” a multidão não aclama como quando se enfurecem contra o governo (e os impostos). O slogan de maior sucesso é “vocês estão a matar os que querem trabalhar”.

Aqueles que pertencem à “indústria da cultura” querem enfatizar que “a cultura é segura”. A certa altura, um dono de uma discoteca decide fazer-nos dançar ao ritmo de RITMO Black Eyed Peas e J Balvin, dizendo: “As coisas mais importantes na vida não são os psicólogos, mas quem dá comida e faz dançar”.

Decidimos que já vimos o suficiente, são 14h30 e deixamos uma praça que promete permanecer ocupada a tarde toda. O Martim Moniz está deserto, apenas alguns trabalhadores de uma obra vagueiam por um edifício. À medida que subimos a colina, perguntamo-nos sobre o que vimos. Vimos tantas pessoas juntas. Os padrões hierárquicos pareciam os mesmos do trabalho – os patrões que comandam o protesto e reivindicam em nome dos seus trabalhadores e das suas trabalhadoras. E isto é estranho de se ver, pelo menos nas ruas. Mas também vimos os olhos e ouvimos as vozes desses trabalhadores e dessas trabalhadoras, vimos tanta preocupação e tanta raiva. Pensamos que isso só irá aumentar e alastrar a outros grupos.

Olhando em redor, com a cidade deserta, estamos quase perdidos, sem pontos de referência. Chegamos ao topo da colina e ouvimos a amplificação do Rossio a rasgar o silêncio surrealista da Lisboa no recolher obrigatório. E parece como um zumbido de uma tampa que, cada vez mais prensada, está preste a saltar.

Tano

Cantos Nómadas #1

Cantos Nómadas, um podcast de Pedro Augusto.

A linguagem começou como cântico. No Tempo do Sonho, cantou o mundo para a mente consciente e a memória. À medida que se canta a terra, a árvore, a rocha, o caminho, elas devêm. Aqui se combina evidências ancestrais com ideias modernas sobre a evolução humana, não esquecendo que na savana fomos uma espécie migratória caçada por um predador felino dominante. As nossas andanças alastram cantos nómadas pelo globo.

Neste primeiro podcast de Cantos Nómadas:

1-Genérico de abertura
2-Diamanda Galás, Autumn Leaves
3-Sexismo ambivalente, por Emma, com John Cage, In a landscape
5-Manifesto homeopático, de Karen Bennett, com Lula Côrtes e Zeca Ramalho, Ohm
6-Pedaço de rádio – Cocovidalocacaducul, emissão 1
7-Torel, de e por Leonardo Janeiro, com Camille 2000, Piero Piccioni
8-EUA, manifestantes pró-Trump e pró-Democratas em confrontos
9-Genérico de fecho

Rebels on the Mov(i)e #19 | A Estratégia Do Caracol

Num bairro pobre de Bogotá os habitantes de um prédio antigo encontram-se face à iminente expulsão e demolição de suas casas. Juntos decidem opor-se ao proprietário rico. Depois de várias tentativas de resistência os habitantes conseguem ganhar mais tempo o que lhes permitirá participar na estratégia proposta por Don Jacinto.

Este filme fala sobre uma luta colectiva de uma comunidade de vizinhos que se opõe às burocracias, à resignação, ao fatalismo mostrando como a inventividade pode muitas vezes trazer soluções a situações que parecem sem volta.

La Estrategia Del Caracol |Sergio Cabrera, 1993 – Colômbia.

Canção de Luta #1 “It isn’t nice”, Malvina Reynold

Canção de Luta # 1: “It isn’t nice”, de Malvina Reynolds. Uma canção sobre a necessidade de desobedecer perante as injustiças, de uma grande compositora norte-americana empenhada nas lutas pela emancipação em todo o mundo. Primeira «canção de luta» de uma série que aqui publicaremos.

Rebels on the Mov(i)e #18 | Property Is No Longer a Theft

Total, um jovem funcionário bancário, é alérgico ao dinheiro. Detesta tocar-lhe e despreza aqueles que o possuem. Acredita que o mundo é constituído por ladrões: aqueles que se professam ladrões e aqueles que ganham dinheiro à custa dos outros. Um dia convence-se que o dono do talho, cliente do banco onde trabalha, pertence a esta segunda categoria de ladrões. Decide alvejá-lo. 

Impressiona a escolha cinematográfica do realizador, que em casos específicos abandona o enredo ao optar por um discurso frontal. Os actores olham para a câmara e falam directamente com o público, com o objectivo de fazer com que a sociedade se reconheça nessas personagens e desmascare a hipocrisia e o egoísmo como pilares de uma sociedade baseada na competição e na propriedade. 

” Grotesco e brechtiano, frontalmente político, mas não tão esquemático como parece, escrito por Petri com a colaboração de Ugo Pirro. Rabino e verboso, exagerado e sombrio, desconjuntado e desafinado, apocalíptico e sinceramente fora do Partido”.  Vidioteca di classe

Gabriela Live – Emissão #1

A Rádio Gabriela está de volta às emissões em directo, da Sirigaita para o mundo! A primeira emissão foi este Domingo dia 1 de Novembro.

Neste Primeiro live:

– lutas na América Latina, com a participação especial de um correspondente da Telesur;
– espaços culturais fechados, trabalhadores em luta;
– protestos do cinema;
– acções climáticas e Resgatar o Futuro.

E o que vier à rede é peixe!

Gabriela live é um programa para escutar os sons e os movimentos do mundo, com depoimentos e reportagens, música e pensamento livre.
Podes enviar as tuas ideias e contribuições áudio (poemas, receitas ou desabafos que possamos incluir neste programa de mixórdias) para radiogabrielalisboa@gmail.com.

#Ao Vivo ou Morto

A associação Circuito promoveu no sábado dia 17 de Outubro de 2020 manifestações em Lisboa, Porto, Viseu e Évora, pela sobrevivência de espaços com programação musical regular. Sob o lema “ao vivo ou morto”, a Circuito, que junta salas de programação de música de todo o país, apelou a um protesto que pretendia “sensibilizar para a importância destes locais para a cena musical nacional”. A Rádio Gabriela esteve na “fila” de Lisboa, que partia da discoteca Lux. 

Quando salta a tampa: o que se passa em Itália

Notas escritas a quente sobre a súbita onda de mobilização e conflito que está a aquecer a Itália – por Tano “Que” Festa

A curva dos contágios enlouqueceu e desta vez não é só a Lombardia ou Milão. Desta vez, o vírus espalha-se um pouco por todo o país, os hospitais estão sob pressão e o governo decide emitir novos decretos, cada vez mais confusos, sem qualquer lógica aparente. Após 8 meses ou mais de pandemia, o véu da retórica governamental cai e “descobre-se” que não há qualquer preparação para a chamada segunda vaga da covid-19.

O governo volta a recorrer às armas do costume: a culpa e responsabilidade dos indivíduos em relação aos contágios. Arma que já funcionou tão bem nos últimos meses. Mas agora a situação mudou e as pessoas, o povo, as trabalhadoras e as pequenas empresas já deram tudo nos meses anteriores. As poupanças estão a esgotar-se, não há dinheiro, as medidas postas em prática pelo governo são irrisórias face à crise económica. E, quando se soube que os bilionários italianos aumentaram os seus rendimentos em 30% desde o início da pandemia, o conflito alastrou por todo o lado.

Napule è mille culure

Perante o novo confinamento nocturno, decretado sexta-feira, 23 de outubro – encerramento de quase todas as atividades e recolher obrigatório às 18 horas: restaurantes, bares, ginásios, teatros, cinemas, associações, escolas secundárias, etc. … – em Nápoles, centenas de pessoas saem à rua e manifestam-se em dois cortejos espontâneos. Há de tudo – trabalhadores informais, pequenos comerciantes, desempregados – os slogans são simples, mas claros: “A saúde é a primeira coisa, mas sem dinheiro não se pode ir a lado nenhum”, “Stop às rendas, às contas, aos impostos”. Os manifestantes dirigem-se contra a região (na Itália o sistema de saúde é regional, e o novo decreto dá mais poderes aos presidentes das regiões) e os confrontos com a polícia escalam rapidamente. Os contentores de lixo são incendiados, são lançadas numerosas bombas de gás lacrimogéneo, e seixos são atirados. É o primeiro verdadeiro cheiro de revolta desde que o estado de emergência foi declarado (que em Itália tem estado em vigor ininterruptamente desde março).

Os nazis tentam vestir a camisola nas redes sociais com proclamações, mas Nápoles não é Roma, aqui os fascistas têm historicamente pouco espaço de ação. Mas os jornais (especialmente os da esquerda liberal) gostam desta retórica e atiram-se de cabeça, apesar da complexidade da realidade das coisas. Os jornais e as redes sociais enlouquecem imediatamente, derramando todo o repertório colonial da tradição italiana sobre os napolitanos: é a Camorra, são os mafiosos, os ultras (adeptos), os nazis, os negacionistas (a grande imprensa continua a fazê-lo ainda hoje, sem vergonha).

Mas quem realmente saiu à rua? Pelo que podemos ver, o quadro é realmente muito heterogéneo. Não se pode falar de uma praça de esquerda, mas o que é certo é que as camaradas estão presentes, misturam-se com este húmus feito de desempregados, pequenos empresários, vendedores de rua e informais.

O destino, juntamente com a “boa saúde” do contexto nacional dos movimentos sociais em Nápoles, faz com que no dia seguinte, sábado, 24 de outubro, a rede anticapitalista convoque uma manifestação. Graças à noite anterior, nesta manifestação saem à rua não apenas os militantes das organizações, mas também muitas pessoas que não estão habituadas às manifs da esquerda de classe. A manifestação começa num cortejo espontâneo reiterando que, concretizando-se o confinamento, deve haver proteção para as classes mais pobres. Tinta vermelha é atirada contra a sede da Confindustria (a organização nacional de empresários italianos) e ocorrem confrontos com a polícia, mas o desfile mantém-se e termina calmamente na Piazza del Plebiscito.

Na segunda-feira, 26 de outubro, uma nova manifestação com o slogan “Fecha-nos, paga-nos” é marcada, novamente às 18 horas: hora do recolher obrigatório. A composição é complexa e heterogénea, os militantes da Casapound (organização neofascista) tentam juntar-se, mas são imediatamente afastados pelos manifestantes. Para descrever quem está na praça pedimos emprestadas as palavras de Napoli Monitor, um site de informação independente:

No Plebiscito iluminado pelas sirenes dos veículos da polícia, pode-se encontrar barmen, bailarinas/mulheres, gerentes de clube, empregadas de mesa, agentes de expedição, atrizes e atores, artistas de teatro, técnicos de som, carregadores, trabalhadores precários licenciados, gestores e operadores de centros de fitness, animadores de festas infantis, músicos (de refinados a instrumentalistas de casamento), vídeo-makers, operadores de serviços audiovisuais, mas também cuidadores, baby-sitters, desempregados, trabalhadores têxteis ou logísticos, freelancers, bem como grupos de fãs organizados, operadores de automóveis não autorizados, e outras figuras, de formas diferentes, unidos pela precariedade económica e social. Mulheres e homens que, pela primeira vez, partilham um momento de conflito coletivo motivado pela iminência do novo confinamento. A grande maioria deles são trabalhadores que, durante anos, aceitaram empregos pagos por baixo da mesa renunciaram a contribuições e outros direitos em nome de salários amaldiçoados e imediatos. Os trabalhadores forçados a não reivindicar a legitimidade da sua posição, da sua especialização, do seu papel no mercado de trabalho. Trabalhadores que sentiram a insustentabilidade da sua própria condição quando com a pandemia até o rei vai nu.

Não há núcleo duro da manifestação, não se pode ver nenhuma componente hegemónica do movimento. Vê-se que a polícia aprendeu a sua lição na sexta-feira e a cidade está militarizada, os polícias à paisana são muitos. Chega-se à frente do edifício da Região da Campânia e são feitas intervenções confusas, mas entusiásticas. As reivindicações são as mais díspares. A polícia provoca, mas a inteligência coletiva evita o confronto devido ao destacamento de forças e meios blindados. Os camaradas de Nápoles estão a tentar dar forma a esta nebulosa de raiva e entusiasmo, a fim de continuar a mobilização sustentada por reivindicações políticas precisas e não corporativas. Ontem à noite, a bandeira principal era pedir impostos para os ricos e rendimentos para todas, e isto já é um grande salto em frente. O facto político é que em Nápoles há fermentação e tudo pode acontecer.

De facto, quarta feira 28 de outubro, os trabalhadores e as trabalhadoras da multinacional Whirlpool, em greve contra o fecho do estabelecimento marcado para este sábado que vai deixar sem trabalho 1400 pessoas, ocuparam e bloquearam a entrada da autoestrada A1. Perante a inatividade do governo e em defesa do tecido produtivo da região, uma greve geral metropolitana está já marcada para a próxima semana, dia 5 de novembro.

Grande e generalizada é a confusão debaixo do céu

Na sequência do que aconteceu em Nápoles, no sábado, começam a surgir mobilizações no resto do país.

Na Catânia, Sicília, um desfile semelhante ao de Nápoles, na sexta-feira: heterogéneo, não classificável, mas irado, estiveram cara a cara com as “forças da desordem”. Em Roma, o partido neonazi Forza Nuova lançou uma mobilização na Piazza del Popolo. Cerca de duzentos manifestantes reuniram-se ao grito de liberdade e nada mais, encenando confrontos com os seus amigos da polícia.

Nos meios de comunicação e nas redes sociais, torna-se evidente que a crise e as dificuldades já não podem ser resolvidas e, mesmo personalidades embedded, começam a criticar as medidas governamentais, mas sobretudo começam a quebrar o silêncio à volta da falta de políticas económicas, sociais e de saúde perante a crise. Obviamente, a descarga escatológica das redes socias continua sobre aqueles que tomam as ruas: mas é evidente que a investida contra os manifestantes é classista.

Os apelos para ocupar as ruas começam a aparecer por todo o país, e não apenas nas principais cidades. Na segunda-feira à noite, realizam-se manifestações em Turim, Milão, Trieste, Génova, Viareggio e Palermo. Mais uma vez uma composição que supera categorias pré-determinadas. O que se vê é muita raiva e desejo de fazer com que o mundo sinta. Um pouco em todo o lado há confrontos com a polícia, barricadas e atiram-se pedras e cocktails molotov. Em Turim, as lojas de luxo da Louis Vuitton e da Gucci são saqueadas. Segundo o Infoaut, órgão da Autonomia Contropotere, em Turim houve dois desfiles: um dos comerciantes e trabalhadores, outro da precariedade mestiça metropolitana. Ambos espontâneos, ambos imediatamente reprimidos pela polícia. Foi precisamente a repressão imediata que desencadeou um motim que durou várias horas.

Em suma, como se pode compreender a partir destas notas, a situação é confusa e complexa e existem demasiadas variáveis e contextos muito diferentes para se fazerem previsões. Durante toda a semana decorrem mobilizações do norte ao sul país. Para amanhã, sábado, em Roma uma nova manifestação é convocada pelos movimentos, centros sociais, organizações e sindicatos de base.

O que é evidente é que em Itália existe subitamente um nível de mobilização e conflito que não se via há alguns anos, que perante um novo confinamento e medidas governamentais insultuosas, a tampa da mediação baseada na proteção da própria saúde e da saúde dos outros saltou. É necessário ver se na emergência pandémica será possível dar continuidade, se será possível sair da dimensão corporativa de certas reivindicações, se será possível dar um sentido político à raiva. Será necessário ver a escala que a repressão assumirá num contexto de estado de emergência permanente.

Entretanto, no entanto, podem ser feitas algumas reflexões que podem ser úteis para os tempos que vêm.

Preparar as ferramentas, saber colocar-se

O primeiro aspeto que queremos destacar é como este conflito surgiu espontaneamente e de forma bastante repentina. Não que não houvesse (existem há anos) as razões pelas quais explodiu, mas na realidade a Itália dos últimos tempos e a Itália do período pandémico não permitiram antecipar tais acontecimentos. O acender das brasas da raiva só era visível em relação à guerra entre os pobres, e não dirigida para as instituições. Isto mostra-nos, apesar dos esforços das “organizações de classe” para criar movimentos de massas, como hoje em dia estes últimos surgem muito frequentemente fora das próprias organizações. A raiva contra um sistema que não lhes dá quase nada e exige apenas sacrifícios pode ser controlada apenas até um certo ponto pelo Estado. Em Portugal, a nova versão da gestão comunicativa da crise pandémica pelo governo de António Costa parece aproximar-se da versão muito italiana da culpabilização dos indivíduos (especialmente dos pobres) e da desresponsabilização do Estado: “ficar em casa”, “instalar stayaway Covid” e assim por diante. Em Itália, esta abordagem de criminalizar a vida quotidiana e o tom paternalista fez com que as pessoas começassem a irritar-se e a tomar consciência que não “vai ficar tudo bem”, porque não pode correr tudo bem para quem ficar em casa sem proteção económica e social e sem que haja uma redistribuição de rendimentos.

Outro aspeto interessante é que, como aconteceu noutros tempos na história dos movimentos italianos, a onda de mobilizações começou a partir do Sul. De facto, pode dizer-se que sem a faísca que eclodiu em Nápoles na sexta-feira, dificilmente teríamos visto enchentes nas praças das outras cidades nos dias seguintes. O sul da Itália tem características semelhantes a Portugal: insegurança no emprego, dependência do turismo, comércio informal, uma longa e constante história de emigração. No sul, o “estado social” e o trabalho são sempre mais escassos, a população é menos rica do que no resto do país, as crises fazem-se sentir mais intensamente e rapidamente e talvez por isso a raiva é desponte mais facilmente.

O caso de Nápoles é extremamente interessante. De facto, pode dizer-se que nos últimos anos, caracterizados por um declínio geral dos movimentos sociais na Itália, Nápoles representou, de certa forma, uma exceção e as iniciativas e as alternativas mais interessantes de auto-organização vieram da capital da Campânia. Talvez seja este o motivo dos protestos espontâneos assumirem cada vez mais conotações políticas: porque[LA1]  assentam na relação pragmática, baseada nas lutas, das companheiras napolitanas com as contradições de classe.

Todas as mobilizações destes dias demonstraram uma grande raiva e um certo grau de conflito, e graças a este conflito alcançaram as primeiras páginas dos jornais, colocaram o governo em grandes dificuldades, estão a pressionar para rever certas medidas tomadas e forçar os intelectuais, personalidades, etc., a falar sobre os problemas reais da população. Tudo resultados que as muitos mais pacíficas, performativas e “sinceramente democráticas” iniciativas que se têm sucedido nos últimos meses não conseguiram conquistar. Nem mesmo remotamente.

Obviamente, este nível de conflito é também a causa e consequência da enorme repressão que recai sobre os movimentos sociais e, de uma forma mais geral, sobre aqueles que protestam em Itália. Há vídeos nas redes, da noite passada, em que os chefes polícias dizem para disparar contra os manifestantes. E esta é uma variável a estudar e compreender em profundidade. Igualmente óbvia é a posição dos principais meios de comunicação face a estas manifestações: reduzir a fenómenos marginais, mafiosos, criminosos, negacionistas é a sua especialidade. E o refrão nas redes sociais para dar apoio a este mantra jornalístico é já um clássico. As companheiras italianas, o que resta do chamado Movimento, parecem estar a conseguir não ser cooptadas por estas vozes e, seguindo o exemplo das napolitanas, estão a misturar-se nestes processos, quanto mais não seja para manter afastados os nazi-fascistas.

Em suma, a raiva também se pode manifestar aqui em qualquer momento, porque as condições estão todas lá. Como irão as classes subalternas do nosso país ultrapassar esta segunda vaga e estas novas restrições? Quem poderá pagar as dívidas contraídas nos últimos meses? Como é que as famílias dos desempregados podem meter comida na mesa?

Pela nossa parte, como organizações de base e movimentos sociais, devemos ser capazes de estar à altura desta raiva. Saber expulsar os abutres fascistas que se lançarão na carnificina da guerra entre os pobres. Teremos de saber colocar em campo todas as ferramentas de luta que adquirimos nos últimos anos, para que as inteligências e os conhecimentos cultivados funcionem em conjunto e à disposição de instâncias iradas, a fim de as politizar com sucesso. Devemos ter o cuidado de não cair no moralismo e no paternalismo do debate dos meios de comunicação social. Devemos ser capazes de alavancar as nossas forças no nosso sofrimento e dificuldades e unir-nos a todos os que sim, estão no mesmo barco. E ser capazes, por uma vez, de fazer com que os ricos e poderosos que especulam sem restrições sobre as nossas vidas paguem pela crise.

Rebels on the Mov(i)e #17 | Do The Right Thing

Brooklyn, durante um dia quente: a situação parece calma no distrito de Bedford-Stuyvesant. O mesmo acontece na pizzaria italiana, dirigida por Sal e pelos seus dois filhos, Vito e Pino, e frequentada sobretudo por negros. Tudo corre como habitualmente. A agitação racial vivida quinze anos antes parece esquecida. Mas um acidente trivial é suficiente para desencadear, imprevisivelmente, a batalha…  

https://mixdrop.co/f/47ettvsq8

Resgatar o Futuro – Não o Lucro Manifestação 17 de Outubro

No sábado, 17 de Outubro, vários colectivos e associações que subscreveram o manifesto da plataforma Resgatar o Futuro – Não o Lucro saíram à rua. Esta foi a segunda manifestação convocada pela plataforma. A primeira foi realizada no dia 6 de Junho.

Entrevistámos alguns colectivos, sindicatos e associações: Semear o Futuro; Resgatar o Futuro – Não o Lucro; SOS Racismo; PALVT – Plataforma Antifascista Lisboa e Vale do Tejo; Tás logado – Sindicato dos Trabalhadores dos Call-Centers.

Vimos exigir medidas de emergência para uma situação de emergência. As medidas de emergência devem ser medidas para salvar as pessoas e para salvar o clima, através da criação de um plano de empregos públicos para reforçar o serviço nacional de saúde, para reforçar a habitação, para garantiar direitos básicos para todas as pessoas” Resgatar o Futuro – Não o Lucro.

O mesmo governo que toma decisões sobre uns aspectos é o mesmo governo que toma decisões sobre outros, o governo que insiste em fazer o aeroporto do Montijo e portanto meter mais aviões a circular apesar de saber que isso contribui para o aquecimento global é o mesmo governo que se recusa a proibir os despedimentos que é o mesmo governo que se recusa a ter uma política de habitação justa“, “Então ganhamos em estar todos juntos nestas várias lutas” Semear o Futuro.

Apesar da pandemia temos de sair às ruas para pressionar os governos a tomarem políticas que vão ao encontro das nossas necessidades enquanto sociedade no seu todo“, “Acho que é extremamente importante os sindicatos envolverem-se nas lutas sociais porque de facto ficarem só pelas lutas laborais acaba por ser uma visão muito reduzida do que são os direitos, que os trabalhadores devem ter porque há questões que podem afectar indirectamente as questões laborais.” Tás Logado?

Mobilização Climática Global

Na sexta-feira, 25 de setembro, a Greve Climática Estudantil saiu à rua para responder “ao apelo internacional para a realização de uma Mobilização Climática Global“. 
Estivemos com Mourana Monteiro da Greve Climática Estudantil que nos falou sobre as razões e as propostas desta mobilização.

“O ambiente também inclui o ser humano, então medidas que são sustentáveis mas que não têm em conta as pessoas são medidas que não são sustentáveis”, “Nós queremos que nesta transição energética justa exista uma requalificação das pessoas trabalhadores dos sectores poluentes (Campanha Empregos para o Clima)”.


Respondendo ao mesmo apelo o GAIA Alentejo, o Movimento Alentejo Vivo, e a Associação Ambiental Amigos das Fortes também saíram às ruas de Beja para “uma acção pelo mundo rural” em frente à Câmara Municipal da cidade de Beja (Travar o Ecocídio).

Rebels on the Mov(i)e #16 | Bacurau

Os moradores de uma pequena povoação do sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade já não consta em nenhum mapa. Aos poucos, percebem algo estranho na região: enquanto drones passeiam pelos céus, estrangeiros chegam à cidade. Quando carros se tornam vítimas de tiros e cadáveres começam a aparecer, Teresa, Domingas, Acácio, Plínio, Lunga e outros habitantes chegam à conclusão de que estão a ser atacados. Falta identificar o inimigo e criar coletivamente uma forma de defesa.

Rebels on the Mov(i)e #15 | A Terra Treme

O pescador ‘Ntoni Valastro e a sua família vivem e trabalham em Aci Trezza, explorados por comerciantes de peixe e vivendo na profunda miséria. Cansado de sofrer o abuso dos comerciantes, ‘Ntoni incita os outros pescadores a revoltarem-se contra a situação opressiva que se tornou intolerável. Os colegas, convencidos pela proposta do ‘Ntoni, provocam motins. Determinado a criar o seu próprio negócio, ‘Ntoni hipoteca a casa e compra um barco só para si’. 
Em ‘I Malavoglia’ de Verga, Visconti desenha um filme que aborda o documentário (os actores são verdadeiros pescadores que falam em dialecto) e acentua os tons ‘políticos’ da história, divididos entre realismo e pessimismo contemplativo, conduzindo o neorealismo a resultados de refinada estética.

Rebels on the Mov(i)e #14 | Looking For Eric

Eric (Steve Evets) é um carteiro de Manchester com uma grande paixão pelo futebol e um fã incondicional do campeão francês Eric Cantona. Porém, a sua vida não corre muito bem. Os remorsos se um erro cometido muitos anos antes, quando abandonou a sua amada Lily (Stephanie Bishop) e a sua pequena filha Sam (Lucy-Jo Hudson), assaltam-no constantemente.

Eric vive com os dois filhos de uma esposa que partiu, Ryan (Gerard Kearns) e Jess (Stephan Cumbs), dois rapazes bastante confusos, especialmente Ryan, o mais velho, que se relaciona com bandidos perigosos. Pouco a pouco, no entanto, a sua vida acalma, contacta Lily, fala com ela e tem a oportunidade de esclarecer as coisas.

Os seus amigos no trabalho e no estádio ajudam-no muito, mas o crédito principal do seu renascimento é de Eric Cantona, que ele imagina ser o seu guia moral, a pessoa que se senta ao seu lado e o aconselha, representando o único ponto de apoio real para se levantar.

Uma Paciência Selvagem

“Uma paciência selvagem é uma hora e pouco de música (e algumas palavras), dedicada à electrónica experimental feita por mulherxs, para acabar com a domesticação.”

Por Filipa Cordeiro.

Tracklist:
Raw Forest – One Night at Google Valley
Cátia Sá – Deusa da Poda
Abençoada – Institutional Emptiness (feat. Rene McBrearty)
Odete – Mom I’m Not Eating
Sukitoa O Namau – Good Boy
Hüma Utku – Truth from the Deepest Source
Metamorphosis – VICOD-91
Kastrata – It’s Only Paranoia
Glandulas Syntax – Saliva
Maia Koening – Organicalterna
Calhau! – Bófiacult
Bartholins Glands – Printed Circuit Maze
Jejuno – Becos [unreleased]

Pademónio Grandíssimo Live – Emissão #17

Último Pandemónio Grandíssimo Live da temporada!
O primeiro quiz radiofónico das nossas vidas!

É verdade, babies, estivemos aos microfones, tudo à molhada, para nos despedirmos da primeira temporada de Pandemónios. A Rádio Gabriela vai continuar a lançar maravilhas durante o Verão, a propor discussões, leituras, filmes e trabalhos multi-disciplinares, mas o Pandemónio só voltará lá pra Setembro.

Para a despedida, preparámo-vos um mega Quiz radiofónico!

Vais ainda poder ouvir aquela conversa de associação que escreve com X que te faz tanta falta e podes contar com as sugestões para o Verão de Franco Tomassoni, Pedro Ferreira, Laura Almodovar, Antonio Gori, Fannie Vrillaud, Claudio Carbone, Marco Allegra, Catarina Carvalho e Pedro Rodrigues.

Rebels on the Mov(i)e #13 | Aguenta-te, Canalha!

Este filme já estava na lista de espera para ser lançado na nossa série Rebels on the Mov(i)e, e esta semana, após a perda do mestre Ennio Morricone, sentimos que o devíamos publicar já, dada a fantástica banda sonora gravada para o filme. “Sean, Sean, SEAN!”
Já desde os primeiros dez minutos é claro porque quisemos apresentar este filme: um contraste de classe cheio de ódio racial leva o protagonista a pilhar a carruagem burguesa e a dar uma lição de vida às várias figuras presentes.

Um filme do realizador que deu a forma definitiva ao “western-spaghetti”. Mais uma vez, Sergio Leone constrói uma história onde nada é o que parece. No entanto, “Aguenta-te Canalha!” é um “western” diferente, mais político, passado em plena revolução mexicana. Mas também contém muita acção, com Juan Miranda (Rod Steiger) a roubar bancos para libertar presos políticos mexicanos com a ajuda de John Mallory (James Coburn), um terrorista irlandês que tenta fugir ao seu passado — uma equipa estranha mas eficaz.

Rebels on the Mov(i)e #12 | Down By Law

Jim Jarmusch cria, em Down By Law, um alegre encontro entre três amigos devido a uma estadia forçada numa cela prisional em Nova Orleans. Os três têm diferentes origens sociais: Jack (John Lurie), um chulo, enfrenta a prisão por exploração de prostitutas, Zack (Tom Waits), um DJ, que acabou na prisão graças a uma luta e, por fim, Roberto (Benigni), um turista italiano, preso por um erro judiciário.

Roberto, com o seu temperamento cómico, vai encontrar pontos improváveis de convergência semântica para conversar com os outros dois. O resultado serão diálogos realmente grotescos e deliciosos, sempre na linha ténue que separa o grotesco teatral do absurdo e com uma forte vertente irónica: “I scream, you scream, we all scream for ice cream”.

Isto até Roberto encontrar uma passagem que permite aos três sair das suas celas e atirar-se de novo para o mundo real. Será uma oportunidade para tomar um pedaço da estrada juntos, partilhando ansiedades, planos e esperanças para o futuro. Daunbailò é uma máquina de disparates e humor durante este trajecto que explode do ecrã de forma hilariante. Um encantador road movie em que o diálogo e o elenco fazem quase metade do trabalho para Jim Jarmusch.

Rebels on the Mov(i)e #11 | Nazaré

Em Portugal, durante o Estado Novo, era difícil produzir filmes sob o clima de censura. Por esta razão, não se desenvolveu um verdadeiro movimento neo-realista em Portugal como noutros países europeus. Manuel Guimarães é um dos poucos realizadores que, apesar do regime fascista, tentou várias vezes representar o povo português através do cinema sem enfatizar os seus ideais nacionalistas.

Nazaré é um filme fantástico deste ponto de vista e um achado raro que nos mostra o quotidiano daquela realidade de pescadores nos anos 50 que, apesar dos mais de 40 minutos de cortes ao filme e discursos dobrados pela censura, ainda consegue mergulhar-nos nessa realidade agora perdida no tempo.

Um filme que retrata a história desta comunidade piscatória pobre da Nazaré, as suas tragédias, conflitos e dramas colectivos. António e Manuel Manata são dois irmãos pescadores muito diferentes. Um é forte e valente e o outro fraco e cobarde. A mulher de António sonha em construir uma casa e vai juntando pedra para a erguer, mas o dinheiro da pesca nunca chega para isso. Manuel tem uma relação de amor-ódio com o mar. Para mostrar a todos que é um bom pescador, reúne um grupo, pede um barco emprestado e lança-se ao mar em busca do seu sustento e para vencer os seus medos.

Pademónio Grandíssimo Live – Emissão #16

[Update – aqui o link ao podcast da emissão #16: https://www.mixcloud.com/radio-gabriela/pandemónio-grandíssimo-live-de-21-de-junho ]

Neste que será o penúltimo Pandemónio da temporada (bu-hu-huuuuuu!), continuamos a falar de tudo com todas. Vamos estar em estúdio com xs Left Hand Rotation e ainda com Fannie Vrillaud, Antonio Gori, Pedraugusto e Simone Carugatti a segurar as máquinas e os microfones. Vamos falar de:

– educação em Itália
– a importância da máscara
– uma volta ao mundo em 80 catástrofes, a mais recente intervenção dxs Left Hand Rotation
– a polémica do polícia bom é um polícia morto, uma reflexão da Rádio Paralelo com música dos Vai-Te Foder
– a Concentração pela dignidade dos sem abrigo
– uma canção de luta
– e ainda mais algumas canções da luta

Há sempre aquele momento bónus e aqueloutro, No Comment.

E podes sempre ligar para falar ao vivo e conviver ca gente, já sabes: 910565955 via WhatsApp!

Rebels on the Mov(i)e #10 | Feios, Porcos e Maus

Como o definiu o actor italiano Elio Germano numa apresentação numa praça em Trastevere, em Roma, Feios, Porcos e Maus é “um acto de amor para as pessoas desprezíveis, como que para dizer que é a barbaridade urbana que cria pessoas desprezíveis, e não as pessoas desprezíveis que criam a barbaridade urbana”.

Prémio de Melhor Realização no Festival de Cannes de 1976 “Feios, Porcos e Maus” confirmou Ettore Scola como um dos mais inspiradores cineastas italianos dos nossos dias. Na verdade, Scola é um dos mais nostálgicos impulsionadores da grande sátira social ao mesmo tempo que soube reinventar e evocar de forma notável toda a tradição poética, neo-realista e romanesca do cinema italiano. Debruçando-se sem paternalismos, sem análises sócio-políticas ou mesmo juízos morais, em “Feios, Porcos e Maus” Scola constrói uma sátira espantosa, hilariante, mordaz, sórdida, desconcertante e absolutamente amoral sobre o cruel e alucinante quotidiano de uma miserável família romana “das barracas”. Uma crónica de sabor trágico-burlesco que reflecte toda a miséria humana deste nosso “admirável Mundo novo” europeu, ocidental e rico através de uma farsa truculenta, de um humor irresistível e contagiante mas ao mesmo tempo de uma amargura e de um desencanto perturbadores.

https://ok.ru/video/251378993917

Pademónio Grandíssimo Live – Emissão #15

Brap! Brap! Brap! Neste fim de semana em que qualquer semelhança com um arraial é pura ilusão de óptica, vamos falar a muitas vozes a partir dos estúdios Sirigaita. Aos microfones, a comentar as actualidades e empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras, Yussef, da Consciência Negra, Danilo, do sindicato dos Call Centers Tás Logado?, Sofia, da Habita, e os anfitreões Pedraugusto e Franco a misturar bem a salada. Vamos falar de luta, de interseccionalidade, dos media convencionais, do despejo ilegal da Seara – Centro de Apoio Mútuo de Santa Bárbara e das questões que este nos trouxe. Temos belas canções para ajudar à festa que é a luta, e temos todas as surpresas que um programa em directo sem guião inevitavelmente nos traz.

Rebels on the Mov(i)e #9 | Maradona

Diego Armando Maradona… quem mais? Decidimos incluir um documentário sobre La mano de D10S na nossa série Rebels on the Mov(i)e! Porquê? Estamos certos que as palavras de Emir Kusturica respondem melhor a esta pergunta: “Se Maradona não se tivesse tornado um futebolista, teria certamente sido um revolucionário como Che Guevara”.

Um documentário que tenta acompanhar a história extraordinária e humana de Diego Armando Maradona, um gigante do futebol e (ao mesmo tempo) vítima de si mesmo, do sucesso, da droga e do sistema. Porém sempre capaz de se erguer uma e outra vez das cinzas.

Realizado através de um acesso excepcional e directo a múltiplas fontes e graças também à atenção do próprio argentino, é um documentário absolutamente fabuloso. Porque Maradona é Maradona! Mencionado até por Paolo Sorrentino quando ganhou o Óscar pelo filme “La grande bellezza”, precisamente porque, segundo o realizador, ver Diego jogar ajudou-o a definir o conceito de Beleza.

Imaginar Geografias #5 Solum, Sanguis

Nesta última secção reflecte-se sobre as questões ligadas à cidadania, aos direitos políticos, sociais e humanos. Argumentos estes que constituem os fundamentos da democracia ocidental e que são hoje postos em causa face ao fenómeno migratório. Em muitos países da Europa o debate sobre que tipo de cidadania está a ser criada e como deveria ser regulamentada está mais do que nunca aberto. Solum, Sanguis é uma tentativa de propor alguns instrumentos interpretativos necessários para o enfrentar.

Solum, Sanguis é o quinto programa sonoro de Imaginar Geografias. Com: Dusica, Jorge Malheiros, Mamadou Ba, Pedro Matos, Roberto Nascimento, Samir Samimi. Música de: Khandahar – The Calais Sessions, Christian Luján, Léo Vrillaud.

Imaginar Geografias, trabalho multidisciplinar realizado por Julia Salaroli, Polliana Dalla Barba, Fannie Vrillaud, Marcus Neves.

Pademónio Grandíssimo Live – Emissão #14

Estivemos, como não podia deixar de ser, na grande manif de ontem contra o racismo e Resgatar o futuro e não o lucro e na de Quinta-feira, em que se gritou por cultura. Trazemos um cheirinho e muita pica desses lados com as nossas all surrounding reportagens. Imperdíveis! Estaremos ao telefone com a Ricardina Cuthbert, activista, moradora do bairro da Torre, um bairro no qual à luta contra a exclusão social se junta agora a luta contra a Covid. Tudo isto sem electricidade e parte do bairro sem água canalizada. Tudo isto nos leva a querer conspirar cada vez mais, e o Estado da Conspiração lá estará para responder a essa necessidade básica. E porque a luta também se faz com canções, os Cantacronache mostram-nos como é que isso pode ser, e a playlist da emissão dá-nos outras dicas. Temos sempre um ou dois poemas na manga e podes sempre ligar para dizer das tuas, para o 910565955 e/ou para o 913917797.

Rebels on the Mov(i)e #8 | Bamako

O assassinato cobarde de George Floyd trouxe uma chama de revolta aos países ocidentais, provocando levantamentos contra o racismo estrutural e institucional. Este clima motivou-nos a eleger, para esta semana, um filme do realizador africano Abderrahmane Sissako de forma a reflectir sobre a origem da questão racial, conectada, certamente, com a ocupação colonial de África.

Bamako retrata um processo da vida quotidiana da capital do Mali- que dá o nome ao filme. Durante este processo, opõem-se duas hipóteses sobre a génese da pobreza nos países africanos, mas também nos restantes países considerados subdesenvolvidos. De um dos lados considera-se que que o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional actuam em consonância com os interesses especiais das nações desenvolvidas; do outro lado sugere-se que a corrupção e a má gestão destas nações singulares é responsável pela actual situação financeira destes países.

Aliando um drama judicial e um retrato do quotidiano do Mali, Bamako enfrenta ambos os temas com igual habilidade, onde os protagonistas do filme, por serem escritores e filósofos africanos, se emancipam de um guião pré-estabelecido. Como apontamento, queremos ainda chamar à atenção para a força da cena do xamã africano cujo discurso não está legendado, como se nos lembrasse, mais uma vez, de África como continente sem voz, que ninguém quer ouvir ou tentar compreender.

Pademónio Grandíssimo Live – Emissão #13

Update: o podcast da emissão #13 – e o vídeoteaser

Hoje no Pandemónio Grandíssimo Live! #13 vamos estar com Minneapolis na cabeça e com:

– a Marilyn Monroe (fo real, honey bunniez!)
– A Habita e a Stop Despejos e o desconfinamento da campanha Escolher casa ou pão, não! – nem rendas nem dívidas!
– a Alice, uma das organizadoras da manif Resgatar o Futuro, Não o Lucro
– a situação da prisão do anarquista Gabriel Pombo, actualizada pelo Jornal Mapa
Coletivo Andorinha – Frente Democrática Brasileira de Lisboa
– Maxime Appuii e as lutas em França
– os Vintage Football City Tour – Lisboa em estúdio!
– os Cantacronache, na Canção de Luta #6
– a poesia de Sean Bonney, lida e traduzida por Miguel Cardoso
– e com quem mais quiser aparecer (podes sempre ligar para 910565955 e/ou para o 913917797 para mandar bitaites e pedir sons!)

Tudo salpicado por boa música, a actualidade e as reflexões inusitadas que têm tendência a surgir à volta da mesa da Rádio Gabriela.

Rebels on the Mov(i)e #7 “Debate | Chomsky-Foucault”

Para este Rebels on the Mov(i)e , não propomos um filme canónico, mas sim um debate entre duas personalidades da filosofia que, pela sua fluidez discursiva, aludem a um estilo cinematográfico. Numa altura em que nos preparamos para sair da quarentena, pensamos que é importante analisar novamente a figura humana num debate de 1971… ou seja, há quase 50 anos.

O debate entre Chomsky e Foucault trata em profundidade aquelas questões que, muitas vezes, até em conversas mais descontraídas, despertam interesse: o que é a natureza humana e a verdade? Foucault contrapõe à ideia de natureza humana uma abordagem genealógica e histórica necessária para a reconstituição das modalidades e relações de poder que determinaram os processos do conhecimento. Por outro lado, Chomsky aponta para a existência de regras básicas que residem na nossa mente, que representam a criatividade a partir da qual se desenvolvem instituições universais como a língua e a comunicação.

Questões distantes da luta política imediata? Provavelmente não, já que estas problemáticas determinam a posição de cada um de nós. Lutamos para afirmar uma visão do mundo que se pretende universalmente mais justa, ou esta luta acabará apenas com a substituição de um regime de poderes e de verdade? Regressamos à discussão entre poder e conhecimento que marca uma longa fase do pensamento Foucaultiano, bem como muita da obra da militância de Chomsky. Este debate pode ser um ponto de partida para construir um espaço autónomo onde possam convergir a acção imediata e uma elaboração teórica de temas mais profundos, e que proporcione, num espaço pejado de contradições como Lisboa, a formação de um sujeito político capaz de se assumir como colectivo intelectual.

Pademónio Grandíssimo Live – Emissão #12

Olá malta, finalmente o podcast do live do Pandemónio de dia 24, em que se falou de esparguete à bolonhesa…

rádioesparguete

…e também sobre:

– o BDS – Boicote, Desinvestimento e Sanções a Israel (BDS Portugal)
– a cultura em Portugal e o movimento que a está a tentar salvar, com Isabel Rodrigues Costa
– cinema militante… em Portugal (isto não está fácil), uma conversa com Bruno Cabral
– a ligação entre o colonialismo e a subida das rendas em Portugal
– a crise sanitária da fase 2: “Calamidade”
– a poesia de Sean Bonney, traduzida e introduzida por Miguel Cardoso, da Douda Correria
– o poeta Yayha Hassan
– jineology (em Pt, ver Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão)
– e outros assuntos mais ou menos importantes que nos foram surgindo.
– tudo regado com a boa música de Sambacalao, Miriam Makeba, Herbie Hancock, Gil Scott-Heron, Leadbelly, DAM, Sister Sledge e Weather Report Sweetnighter.

Rebels on the Mov(i)e #6 – “Passarinhos e Passarões”

O Marcello e o filho dele, Ninetto, andam pelas periferias de Roma, acompanhados por um corvo (“um intelectual de esquerda de antes da morte de Palmiro Togliatti”) que não pára de disparar recomendações, conselhos e considerações filosófico-políticas. Começa assim a sua viagem numa paisagem metafísica, onde os homens são pequeninos e quase se perdem no pano de fundo preto e branco no cenário campestre de Roma. Para onde é que vão? Para lado nenhum: o Marcello e o Ninetto encontram camponeses desgraçados, proprietários armados, actores num Cadillac estragada, um engenheiro feroz, participam no funeral de Togliatti, viajam no tempo para pregar aos pássaros; mas, como diz o corvo “o caminho começa, a viagem já terminou”. Dirigido em 1966 por Pier Paolo Pasolini, tendo como protagonistas Totò e Ninetto Davoli (e o corvo, claro), Uccellacci e Uccellini é um filme poético, político e metafísico, que mistura neorrealismo e surrealismo – Passarinhos e Passarões parece um À Espera de Godot em movimento, dirigido por um Luis Buñuel apaixonado pela vida dos pobres.

Bónus: a banda sonora original é de Ennio Morricone e o Domenico Modugno canta (?!) os créditos do filme.

Imaginar Geografias #4 Your Position Please ?

Qual é a posição histórica dos novos migrantes? De que forma é considerado o seu passado individual e colectivo? Nas respostas a estas questões procura-se recuperar o esquecimento da História do colonialismo, de evidenciar o quão fracos são os nossos conhecimentos dos países de onde partem os migrantes. Procura-se não escapar das responsabilidades históricas e contemporâneas e enfrentar sem preconceitos as problemáticas que o fenónemo traz inevitalvelmente consigo.

Your Position Please? é o quarto programa sonoro de Imaginar Geografias. Com: Mamadou Ba, Manuela Sanches, Pedro Matos. Música de: Christian Luján, Léo Vrillaud.

Imaginar Geografias, trabalho multidisciplinar realizado por Julia Salaroli, Polliana Dalla Barba, Fannie Vrillaud, Marcus Neves.

Pandemónio Grandíssimo Live – Emissão #11

E ai ai Peeepz! vem mais um Pandemónio e outro a chegar, e 1 mais 1 para nós faz 11. uma emissão em directo do décimo primeiro Pandemónio Grandissimo Live, a partir dos estúdios Sirigaita. Desta vez com a preciosa ajuda de Simone Carugati Verga e música ao vivo dos Quebra!

Todos os domingos às 20h30 no local do costume!

E para quem não consegue (ainda!!) conciliar a agenda aqui fica a gravação:

– O vírus e a metáfora da guerra, uma conversa com António Guerreiro (no pun intended!)
– Leonor Rosas (https://www.publico.pt/2020/05/16/opiniao/opiniao/porajmos-ciganofobia-1916311)
– Reportagem salas de concerto – e agora? com Bartô, DAMAS – Bar • Sala de Concertos e Maus Hábitos – Espaço de Intervenção Cultural
– O Estado da Conspiração explora as greves às rendas no mundo- algo sobre o cinema militante com xs Left Hand Rotation
– Heiner Müller (o próprio!)
Le Monde Diplomatique (também o próprio!) em entrevista com Maria da Paz Campos Lima
Rede de Apoio Mútuo LX
– Canção de luta #5

Ai-do-livro #1 – Uma cerveja no Inferno

Ai-do-livro é a nova rúbrica leituras de livros completos, vários autores, diversos géneros e ainda diferentes épocas. São livros para ouvir em qualquer altura, sozinho ou acompanhado, a jantar ou antes de dormir, durante o jogging ou logo pela manhã para acordar.

Envia-nos as tuas leituras e ajuda-nos a construir esta biblioteca.

Nesta primeira contribuição contamos com uma bela leitura pela voz do Rui Teigão de “Uma Cerveja no Inferno” de Arthur Rimbaud e traduzido por Mário Cesariny.

Rebels on the Mov(i)e #5 – “Rosso Vivo”

Semana quente em Lisboa, e não devido à Primavera, mas consequência da acção de muitos movimentos e indivíduos. Em Lisboa nasceu uma nova ocupação, o espaço “Seara – Centro de Apoio Mútuo de Santa Bárbara”. No comunicado deste novo lugar pode ler-se: “A nossa acção visa recuperar um espaço à especulação imobiliária, transformando-o num lugar de solidariedade social. Responder às exigências do nosso contexto social é hoje uma urgência improcrastinável, todavia, o nosso projeto quer também ser uma chamada coletiva à reprodução de experiências autónomas que respondam à crise social que a epidemia acelerou. A solidariedade e o apoio mútuo, portanto, vão para alem da satisfação de demandas individuais, tornando-se práticas de crítica e transformação do caminho que os interesses económicos querem impor ao nosso futuro”.

É por isto que sugerimos Rosso Vivo, documentário de Claudio Carbone, relativo ao contexto de Roma, com o intuito de incentivar a análise e comparação da experiência deste novo centro em Lisboa com outros processos de ocupações por todo o mundo.

No final dos anos 80, Roma assistiu à recuperação e re-significação de espaços abandonados na cidade através da ocupação ilegal de edifícios públicos e privados, promovidas por colectivos autónomos. Assim nasceu o fenómeno da auto-recuperação dos edifícios municipais como possível solução para o problema habitacional. O ritmo de desenvolvimento da política local e nacional é, de facto, irreconciliável com o imediatismo das emergências da cidade. Os efeitos do sistema de privatização e de venda do património público das instituições continuam a criar novas exclusões. Em 2002 houve um novo ciclo de ocupações que envolveu, por exemplo, os edifícios vazios da Via Bruno Pellizzi, escolas abandonadas como a de Casalbertone, o antigo cinema Império em Torpignattara e, entre estas, o antigo cinódromo da capital em Viale Marconi.

E é precisamente no antigo cinódromo da capital (hoje LOA ACROBAX) que nasceu a equipa All Reds Rugby Roma com uma formação feminina e masculina e com um projecto juvenil, que promoveu, durante dois anos, o desporto popular como um momento de agregação baseado no anti-fascismo, anti-racismo e anti-sexismo. Nasceram em 2005 quando decidiram recuperar a antiga pista de corridas de cães que tinha sido abandonada durante anos, tornando-a num campo onde agora é possível praticar desporto, de forma livre e gratuita.

O All Reds Rugby Roma, dentro do antigo cinódromo uma equipa desportiva popular baseada na autogestão, cria um projecto político inclusivo.

Notas de Autor

O clube desportivo All Reds Rugby Roma é uma organização sem fins lucrativos, as decisões e a organização são partilhadas entre todas e todos os atletas que participam na vida activa da associação. A prática desportiva não depreende o pagamento de uma mensalidade, mas sim a participação activa na gestão e no autofinanciamento.

“Contro ogni fascismo mai un passo indietro”

Neste espaço existem novas formas de agregação através da vivência, organização, transformação e reinvenção de espaços e utilizações. O reconhecimento dos resultados do processo de estabilização e o conhecimento destes espaços urbanos, faz-nos reflectir sobre a relação entre eles e o sucesso/fracasso dos programas e serviços prestados aos cidadãos pelos organismos públicos. No fundo, a acção de colectivos autónomos que se organizam para a recuperação de espaços que funcionam segundo modelos de gestão autónoma e colectiva, tornam-se lugares de integração e agregação social desencadeando formas de regeneração urbana.

Links Uteis:

Pandemónio Grandíssimo Live – Emissão #10

  • Meteu-se a foice na Seara alheia e criou-se o centro de apoio mútuo no Largo de Santa Barbara (sim, essa a padroeira dos mineiros!)
  • As lutas dos bolseiros e investigadorxs precárixs e as lutas dos estudantes do ensino secundário (pimbas, logo pra começo de conversa)
  • A nova edição do Jornal Mapa: uma entrevista ao Toni
  • C. A. Conrad,N Marques e a poesía ecológica
  • Os k da vida (hã-ã?)
  • Crónicas da esfera e do Pireu: poderá um futebolista falar de política?
  • Entrevista à Rádio Paralelo, a partir montras desde 2016
  • Rimbaud, pela voz de Rui Teigão
  • No comment
  • Imaginar geografias (não é isto, mas já viste isto? https://radiogabriela.org/2020/04/24/imaginar-geografias-2-stranded/)
  • E claro, muito mais!

Rebels on the Mov(i)e #4 – “Ficção Imobiliária”

O estado de emergência acabou finalmente e podemos tentar saborear pequenas liberdades de outrora, ainda que com restrições devido ao estado de calamidade. Mas será que nos lembramos das nossas liberdades antes desta pandemia? Será o nosso objectivo apenas o regresso à “normalidade” ou será que temos de nos questionar, mais profundamente do que antes, sobre todas as liberdades e direitos que nos eram continuamente negados?

Através de uma reflexão sobre o direito à habitação, sobre o direito à cidade e sobre a especulação selvagem do capital, no último século das nossas cidades, a trilogia *Ficção Imobiliária* faz uma viagem por um século de produções cinematográficas. O colectivo  *Left Hand Rotation* parte de um extenso e importante trabalho de arquivo, de forma a compilar filmes de ficção em que os problemas relacionados com a questão da habitação surgem no enredo principal.


Notas do autor:
Algumas cidades provam-se cenário paradigmático das questões imobiliárias. Em Nova Iorque, Londres ou Los Angeles há uma constante transformação do espaço cénico testemunhando o outro lado do progresso. Nesta montagem de ficções que tem a cidade e os seus habitantes como protagonistas, escondem-se as crónicas de conflito urbano associados ao modelo socioeconómico de uma época. Do mesmo modo, os seus resultados projectam um leque de soluções limitado apenas pela imaginação. Talvez seja relevante apreciar o cinema ficcional pelas suas características documentais, e dar novas essonâncias e significados a esta evocação narrativa.

Links úteis:

Pandemónio Grandíssimo Live! Emissão #9

Hoje é dia de Pandemónio Grandíssimo Live!, a emissão em directo que a Rádio Gabriela faz todos os Domingos às 20h30 dos Estúdios Sirigaita para o mundo.

Hoje vamos estar com: +Disgraça +Provisório +Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local (ah pois é!) +1º de Maio (em pessoa) +O Estado da Conspiração: o estado de emergência, as rendas e a dívida, a greve dos estivadores +a Ana Gago, da Habita e da Stop Despejos +uma canção de luta +Notícias do Imundo +o Trainspotting +e talvez ainda nos escape uma ou outra crónica inusual do espaço cósmico!

Tudo bem condimentado pela galhofa do Pedraugusto e do Franco, e apimentado por uma excelente selecção musical. A partir das 22h00, ▪️▫️Antena Aberta▫️▪️! Podes ligar e falar em directo, comentar, pedir músicas, ler poemas, mandar beijinhos e o mais que te vier à telha, tudo através dos números:  910565955 e/ou 913917797.  Como é, já há fila?

Imaginar Geografias #3 Excepção Permanente

Com Excepção Permanente, entra-se na parte da pesquisa dedicada à reacção que o fenómeno migratório provoca nos estados-nação europeus. São analisadas as políticas internas e internacionais que levam à construção de novos muros, à instalação de dispositivos legais e materiais que servem para o controlo daquela ‘imagem fantasmagórica de uma horda de migrantes’ que é constantemente evocada por certos meios de comunicação. Paralelamente à adopção das medidas securitárias, que colocam a sociedade ocidental num ‘estado de excepção permanente’, assiste-se ao retorno da afirmação das identidades nacionais e das perigosas regurgitações xenófobas.

Excepção Permanente é o terceiro programa sonoro de Imaginar Geografias. Com Patrick Figueiredo, Jorge Malheiros, José Das Dores. E aúdios de Zygmunt Bauman. Música de: Christian Lujan, Léo Vrillaud.

Imaginar Geografias, trabalho multidisciplinar realizado por Julia Salaroli, Polliana Dalla Barba, Fannie Vrillaud, Marcus Neves.

RAJADA produções.

Rebels on the Mov(i)e #3 – “Underground”

Ainda em quarentena… Perguntamo-nos quando terminará, como reagirão os outros a estas restrições, como nos comportaremos depois, como mudará o mundo à nossa volta e, sobretudo, quais serão as novas “regras/leituras” que nos tentarão impor.

E como nos comportaríamos se descobríssemos realmente que as únicas pessoas em quarentena no planeta somos nós? E descobrir que toda a nossa existência tem sido um jogo de mentiras para por alguém no poder e outros subjugados nas fábricas para suportar esse memso poder? Este filme conta-nos uma história semelhante, no fundo de uma guerra invisível (Segunda Guerra Mundial) que destrói casas, corpos e memórias, as personagens vivem, inconscientemente exploradas, num limbo infernal, uma fábrica de armas para uma guerra já acabada, onde se sentem em casa e desconfortáveis ao mesmo tempo.

Eles permanecem fechados neste bunker durante 50 anos, acreditando que a Segunda Guerra Mundial siga, apesar de tudo a vida continua, uns nascem, outros morrem. Amam-se, odeiam-se, traem um ao outro, casam-se, festejam, embebedam-se…

Um filme imenso sobre o qual é difícil escrever, mais do que qualquer outra coisa tem-se de sentir, mergulhar na história que Kusturica dirigiu magistralmente e analisar todas as suas contradições, tentando compará-las com aquela que é a nossa história mais recente, esta história de quarentena e imposições.

Sinopse

Filmar a política no momento da crise – da desintegração de um país, a Jugoslávia de Kusturika – como gigantesca e circence farsa. A “feérie” do cineasta de “O Tempo dos Ciganos” ao serviço de uma voragem autodestrutiva e uma mágoa explosiva. Palma de Ouro em Cannes em 1995, cinco estrelas dos críticos, filme de culto instantâneo. E, no entanto, a sensação de “overdose” não deixa de contaminar o filme. O cinema de Kusturika, priápico, a desafiar as leis da gravidade. “Underground” é uma comédia negra passada em Belgrado. Um grupo de operários jugoslavos refugia-se em abrigos subterrâneos para resistir aos bombardeamentos nazis. Passam-se 50 anos e quando voltam ao exterior… a guerra continua.

A luta da Habita nos dias de COVID e mais além

Associação pelo Direito à Habitação e à Cidade

Quando a pandemia começou há mais de um mês atrás, nós na Habita estávamos empenhadas numa grande batalha contra a Câmara Municipal de Lisboa para impedir os despejos da habitação social no bairro Alfredo Bensaúde. Ao nosso lado tínhamos os habitantes do bairro, muitas pessoas solidárias e, como sempre, as companheiras e os companheiros da Stop Despejos.

Enquanto notícias cada vez mais alarmantes vinham de Itália e se esperava uma quarentena geral por toda a Europa, assistimos com os nossos próprios olhos à brutalidade dos despejos da CMLisboa, que não hesitou em colocar na rua famílias inteiras, dezenas de crianças, idosos, mulheres grávidas, sem garantir qualquer alternativa de habitação. A pressão exercida sobre os órgãos de poder pelo movimento permitiu primeiro deter a vaga de despejos que o município pretendia efectuar, e depois que as famílias despejadas, que tinham acampado nos parques de estacionamento do bairro, fossem re-alojadas em apartamentos turísticos.

Tudo isto, para além de nos mostrar como a força popular pode e deve mudar o estado das coisas presentes, revela de uma vez por todas como quão fora de toda a lógica humana é o modus operandi das instituições e de todo o sistema no que respeita ao direito à habitação nos tempos do neoliberalismo tardio: um direito que, para aqueles que nos governam (e possuem casas com fartura), deve ser “merecido” pelas pessoas e deixado à auto-regulamentação do mercado.

Nós, perante o bloqueio geral iminente e os convites para ficar em casa, ficámos imediatamente preocupadas com todas aqueles que não têm casa para se refugiarem, com aqueles que não têm uma casa em condições dignas, com aqueles que vivem em sobrelotação, que vivem sob a ameaça do despejo. E isto não é porque somos dotados de espírito caridoso, mas porque essas pessoas somos nós. Habita é a sua assembleia de resistência, onde trocamos experiências, nos ajudamos uma às outras e lutamos por nós e pelos outros.

Por esta razão, muito antes da promulgação do estado de emergência, lançámos o manifesto “Como se faz quarentena sem casa”: uma série de medidas que incluem a suspensão imediata dos despejos, a suspensão do pagamento das rendas, a protecção económica de todos os trabalhadores precários, sem contrato, ou trabalhadores ocasionais: medidas que nos protegeriam das consequências nefastas da crise já em curso.

Tivemos de fechar a nossa casa, a Sirigaita, mas não nos esquecemos de nós próprios e da nossa gente. Com as devidas precauções ficámos nas ruas a realizar entrevistas, a denunciar injustiças, a participar na construção das muitas iniciativas de solidariedade que surgiram nos nossos bairros, na construção da nova voz rebelde da cidade: a Rádio Gabriela.

Tivemos de suspender as nossas assembleias e sentimos muita falta do contacto umas com as outras: conscientes da insubstituibilidade do estarmos juntas, de continuarmos a ajudar-nos umas às outras, criámos no facebook o Grupo de Resistência e Apoio Mútuo, onde continuamos a ouvir-nos e a desenvolver estratégias de luta.

Juntamente com a galáxia de pessoas e colectivos que compõem a Acção pela Habitação, com a qual era suposto irmos para a rua no dia 28 de Março, pintámos campanhas coloridas nas nossas janelas para que a mensagem que queríamos passar continuasse a fluir pelas ruas e muros da cidade: “Casas para as pessoas, não para o lucro!”. Será que o surto da epidemia convenceu até os mais relutantes da verdade deste slogan? Na dúvida, já sabem, nós continuamos a lutar.

Sabemos bem que a casa não é o único direito a ser posto em xeque pelo sistema e pelas suas crises: por isso aderimos à campanha Ninguém Fica Para Trás, com a qual colorimos janelas, viadutos, paredes e bombardeamos os órgãos de soberania com e-mails.

Sempre pensámos que os nossos problemas e sonhos não são apenas nossos, mas que são partilhados por pessoas de todo o mundo. É por isso que temos vindo a integrar a European Action Coalition for the Right to Housing and to the City há anos: com os nossos camaradas europeus temos trocado cenários, opiniões e práticas de luta que são e serão necessários nos próximos meses.

Um dos campos de batalha mais ferozes neste momento é certamente o do aluguer: como é que se pode continuar a pagá-los durante uma das maiores crises de sempre? É por isso que estamos a lidar com muitos sindicatos de inquilinos de todo o mundo, na coordenação do Tenants Solidarity Exchange: não deixar sozinha aquelas que não podem pagar e organizar inquilinos é um imperativo que estamos a seguir sem descanso.

Isto e muito mais, é o que fizemos até agora durante esta “quarentena”.

Estamos prontas: uma vez terminado o estado de emergência, para que não haja uma avalanche de despejos, para que as pessoas não sejam esmagadas pelas dívidas e para que a solidão e a fome não dominem, a partir de baixo devemos unir-nos, conspirar, derrubar as barreiras e procurar juntos o horizonte.

Já se ouve o bater das asas dos abutres capitalistas: mas a vitalidade de todos os movimentos vai empurrá-los para longe.

Não vamos pagar nós pela vossa crise.
Vemo-nos, em breve, na rua.
Para todas: tudo.

Pandemónio Imenso Live_Podcast – emissão #8

Companheirxs e camaradas, camarões e camareiros: HOJE é dia de mais um ▪️directo da Rádio Gabriela▪️. Às 20h30 cá estaremos a cozinhar Pandemónio, desta vez com novas vozes ao microfone (say what?)! Connosco: +mais música do que é costume, apresentada por Pedro Rodrigues +memórias invulgares do anti-fascismo italiano +música de luta italiana ao vivo (ao vivo???!) +o 25 de Abril de 2020 à la Glauber Rocha +o colectivo de Apoio Mútuo Almada no Centro de Cultura Libertária +o Processo Viral Em Curso +as Novas Cartas Portuguesas +Outro País + muito mais…! Peter Schmiedin Franco Tomassoni Sara Conchita Laura Almodovar Alma Takver Casa da Achada – Centro Mário Dionísio Claudio Carbone

Volta a ouvir o live em podcast

 

Vê o esplendido vídeo-resumo do live – Claudio Carbone director’s cut 😉

 

É sempre 25 de Abril!

PABIA DI AOS, Por Causa de Hoje

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PABIA DI AOS, Por Causa de Hoje. Programa sonoro com Catarina Laranjeiro sobre o colonialismo, a guerra colonial e o neocolonialismo na Guiné-Bissau, sobre as memórias de uma guerra esquecida nos livros de história, sobre uma possibilidade de se repensar no que aconteceu e no que acontece actualmente nesta e noutras ex-colónias portuguesas.

Catarina Laranjeiro, Abril 2020: Este programa foi realizado por Fannie Vrillaud que generosamente me convidou a participar. É de 2014 e sobre o filme PABIA DI AOS que realizei na Guiné-Bissau em 2013. Fala sobre a Guiné-Bissau, sobre Portugal, sobre a guerra colonial que envolveu ambos os países e que teve o seu fim com a Revolução dos Cravos, que hoje comemoramos. Mas neste programa, falamos também sobre as desigualdades que persistem entre os dois países, e que sobreviveram ao fim da guerra, à democracia portuguesa e à independência da Guiné-Bissau. Naturalmente, que este não é um caso singular, e que as desigualdades e conflictos neo-coloniais de que falamos, marcam as relações entre os países africanos e da américa-latina e a Europa e a América do Norte. E não esquecemos que as mesmas desigualdades raciais e sociais estão também presentes no nosso país, cidade e bairro, acentuando-se gravemente nos tempos vulneráveis que atravessamos. Por isso, faz sentido repor hoje este programa. Comemorar Abril, lembrando aqueles a quem Abril ainda não chegou. Para que chegue o mais depressa possível!

“No documentário PABIA DI AOS é-nos mostrado o que ainda resta da guerra colonial quarenta anos depois, num país onde essa memória não é pacífica. De facto, aqueles que aderiram ao movimento de libertação e aqueles que lutaram no exército colonial põem em cena uma multiplicidade de discursos e memórias irreconciliáveis. Somos assim conduzidos a uma viagem que problematiza a herança colonial na Guiné-Bissau, problematizando o que ainda hoje permanece por se contar sobre os contornos desta guerra.” Catarina Laranjeiro

 

Esta peça sonora (2014), inserida no conjunto de programas sonoros ILHAS, é um relato baseado e ambientado por passagens sonoras do documentário PABIA DI AOS onde são ouvidos os discursos das pessoas que ficaram lá, longe. E uma leitura de trechos do livro Naus de António Lobo Antunes.

 

RAJADA produções.

Imaginar Geografias #2 STRANDED

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Stranded é a história de viagens de migrantes, muitas vezes longas e dolorosas. Deslocamentos que partem do sonho ocidental identificado com o bem-estar dos consumos. Mas Stranded conta também a condição de encalhado com a qual os migrantes são quase sempre constrangidos a confrontar-se ao longo do seu caminho. A ereção de um muro, uma lei que muda, um campo de detenção: o migrante fica muitas vezes bloqueado, à mercê de um claustrofóbico sentimento de angústia.

Stranded, é o segundo programa sonoro de Imaginar Geografias. Com, Mamadou Ba, Mélanie Baufaumé, Patrick Figueiredo, Jorge Malheiros, Roberto Nascimento, Samir Samimi, Francesco Vacchiano.
Música de, Compagnie Les Rémouleurs, Christian Lujan, Léo Vrillaud.

Imaginar Geografias, trabalho multidisciplinar realizado por Julia Salaroli, Polliana Dalla Barba, Fannie Vrillaud, Marcus Neves.

Rebels on the Mov(i)e #2

O segundo “Rebels on the Mov(i)e” coincide com uma das semanas mais rebeldes e resistentes da história moderna, tanto para Portugal como para a Itália, que partilham incrivelmente o mesmo dia da libertação do Fascismo, embora em anos diferentes.

Por esta razão, só poderiamos dedicá-lo à resistência e ao antifascismo e tentámos propor um título que não só enfatizasse o 25 de Abril como o consagrasse como um dia institucional de memória. Para nós o 25 de Abril representa certamente a memória da Resistência ao fascismo, mas sobretudo representa as resistências diárias, feitas de lutas territoriais e sociais, contra o clima de ignorância, indiferença, medo e ódio que alimentam o fascismo moderno em todas as suas formas.

Este filme é um incrível elogio à dignidade humana, retirado de uma história verdadeira: uma cidade, que privada da sua liberdade individual e coletiva, se rganiza e se rebela contra os invasores nazis com todos os meios à sua disposição. Uma luta de disparidade abismal de meios onde o povo napolitano consegue libertar a cidade dos exércitos alemães antes da chegada das tropas aliadas.

Devemos partir novamente desta dignidade representada no filme, para podermos reconhecer o fascismo moderno que, como então, defende o privilégio de classe, mas que hoje se reveste de outros uniformes. Umberto Eco tinha avisado: “O fascismo ainda pode voltar com a sua aparência mais inocente. O nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo indicador para cada uma das suas novas formas – todos os dias, em todas as partes do mundo”. Devemos pois, partir novamente do conceito de anti-fascismo, já não como um slogan a ser cantado no único desfile do ano, mas como uma luta necessária a ser levada a cabo em todo o lado e todos os dias: nas ruas, nas casas, nos hospitais, nos locais de trabalho e nas escolas. Sempre apontando o nosso dedo para todas as formas de fascismo e tentando imaginar todos os futuros possíveis.

25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!

O filme narra a humilde e heróica epopeia dos cidadãos napolitanos que, sem líderes e sem tácticas pré-estabelecidas, se viram unidos em Setembro de 1943 para travar uma batalha improvisada. Apesar de um “ridículo” e rudimentar armamento, graças à coragem das crianças do reformatório e dos idosos e ao envolvimento das mulheres, os insurgentes conseguem libertar a cidade dos nazis, antes da chegada das tropas aliadas.

Pandemónio Grandíssimo Live – emissão #7

Novo Pandemónio Grandíssimo Live! Pouca seriedade, muita ambição. Hoje a partir das 20h30 e dos Estúdios Sirigaita! Se ouvires no teu telemóvel, não te esqueças de instalar a aplicação.

Como já vos habituámos, suas glutonas, muito paleio e pessoas convidadas. Tudo para todas! A Anabela do Centro Social Auto-gerido A Gralha no Porto fala-nos de como estão a lidar com isto tudo em conjunto com o núcleo antirracista do Puarto. Mais um segmento valiosíssimo do jorna Mapa, claro está, e o Manuel do Climáximo fala-nos de uma manifestação virtual (!) que prepararam contra a Galp esta Sexta-feira. A Catarina preparou um Estado da Conspiração que inclui o segmento “a luta do porto de Lisboa para totós como ela”. O Franco em princípio prepara as Notícias do Mundo e o Pedraugusto lê-as com Wagner em fundo. E música, música e mais bitaites. Vamos esmifrar ao máximo o trabalho dos Llama Virgem, que ainda noutro dia tavam a tocar na Sirigaita e agora… ai, filha!

A partir das 22h00, Microfone Aberto! Tema sugerido: a militância (!), bora falar sobre isso? Ligando para o 910565955 e/ou para o 913917797, podem dizer-nos o que vos der na veneta, porque nós sabemos que não é fácil estar em casa com esta narrativa de cuidado-vigilância oficial. Mas também podem ligar só para pedir discos, malhas pa impressionar o people ou cheias de azeite, partilhar aquela poesia que andas a ler/fazer e, last but not least, shots virtuais. Como é, quem é que se inscreve?

Hora de término: nenhuma.

Cantinas Solidárias Autogeridas

Cooperativa Mula (Barreiro): todos os dias, por inscrição, das 19h às 20h30

RDA 69 (Anjos, Lisboa): Todos os dias das 13h às 15h

 Disgraça (Penha de França, Lisboa): Segundas, Quartas e Sextas das 12h às 15h

Provisório (S. Vicente, Lisboa): Todos os dias das 13h às 15h até 30 de Abril

Campanha – Todos à Janela

Começou uma avalanche sem precedentes de ataques aos direitos dos trabalhadores, os que estão e estarão sempre na linha da frente no combate à pandemia: lay offs simplificados que permitem trabalhar por 2/3 do salário; despedimentos; chantagens laborais; violação sistemática das regras de saúde e segurança no trabalho; desregulamentação total dos horários e bancos de horas ilegais.
A solução não pode existir sem os trabalhadores e sem o respeito pelos seus direitos. Urge evitar que à crise de saúde pública se some uma profunda crise social e económica.
É tempo de responsabilizar a banca e os grandes empregadores, exigindo-lhes o respeito por quem trabalha.
É tempo de se fazerem ouvir os que já perderam direitos, o emprego, uma parte do salário, as férias ou o subsídio de refeição.
É tempo de se fazer ouvir quem trabalha.

Exigimos 5 medidas, já.

1. Nem mais um trabalhador no desemprego!
2. Parar a conta da água, da luz e das telecomunicações!
3. Para #FicarEmCasa é preciso #Esquecer_a_Renda!
4. Chegou a hora dos bancos. Que paguem os banqueiros!
5. Não se toca na Segurança Social!Durante uma semana, às 19h, a partir de segunda-feira (de 13 a 17 Abril)Traz os tachos e as panelas,
Por todos, em todas as janelas.

Rede de Apoio Mútuo – CSA A Gralha

Devido à situação excepcional que vivemos, o CSA A Gralha interrompeu temporariamente as suas actividades. No entanto, não pretende resignar-se e ficar indiferente num contexto que revela, dia após dia, a exacerbação do carácter autoritário e paternalista do Estado, o aproveitamento sensacionalista dos média, o policiamento dos comportamentos individuais e sociais, a apologia generalizada de um isolamento frivolizante que pouco ou nada contempla outros lugares, necessidades e experiências.De pouco servem movimentos como o #staythefuckhome, as séries da Netflix, os concertos online e as visitas virtuais a museus para quem não pode deixar de trabalhar (porque é altamente precária, não tem direitos laborais, tem outrem a seu cuidado e contas para pagar), não tem tecto ou está sob ameaça de despejo, está confinada nos campos de refugiadas ou sob ocupação colonial, é imigrante sem papéis, está encurralada no trabalho doméstico, está sequestrada atrás dos muros das prisões, quando a casa é sinónimo de violência.Importa-nos organizar respostas às necessidades concretas da(s) comunidade(s), desenvolver práticas de solidariedade, cuidado colectivo e apoio mútuo, avançar com reivindicações para garantir a sustentabilidade das nossas vidas, resistir ao agravamento das diferentes formas de violência sistémica.

Em conjunto com várixs companheirxs, decidimos mobilizar-nos através de uma rede popular de apoio mútuo, na zona do Bonfim (Porto), que inclui as seguintes dimensões:

1. Ponto de recepção/distribuição de alimentos não-perecíveis (por exemplo, arroz, massa, cereais, feijão, grão-de-bico, lentilhas, farinha, açúcar, azeite, óleo, etc.), produtos de higiene e alimentação para animais com vista à distribuição entre todas as pessoas – nomeadamente aquelas que fazem parte da comunidade de afinidade da Gralha – que se encontrem com dificuldades económicas neste momento.
Horário: Dom. 15h-18h | Recepção Qua. 18h-20h | DistribuiçãoLocal: Travessa Anselmo Braamcamp, 74, Bonfim (Porto)Contacto: agralha@riseup.net Disporemos de um protocolo de higiene e segurança no CSA A Gralha para salvaguardar o cuidado e o bem-estar de todxs.

2. Leva contigo… sopa e fruta!Take-away livreVives precária? Não tens casa? Não tens onde/como cozinhar? Passa por cá e traz recipientes!Horário: Dom. 19h e Qua. 20hLocal: Travessa Anselmo Braamcamp, 74, Bonfim (Porto)Contacto: agralha@riseup.net

3. Apoio logístico:Realização de compras, recolha do lixo, passeio de animais, entre outros, na zona de Bonfim.Contacto: agralha@riseup.net | 968883640

4. Esclarecimentos de dúvidas sobre COVID-19:Se te sentes preocupadx ou ansiosx por causa desta situação, queres tirar dúvidas sobre informações que viste online ou tens questões para as quais não consegues encontrar resposta que consideres fidedigna, podes enviar email para apoio.duvidas.covid19@gmail.com. Os emails serão respondidos por uma companheira que trabalha em Medicina Geral.

5. Difusão de informação crítica e solidária, através de diferentes canais, sobre vários assuntos (por exemplo, saúde, migração, direitos laborais, violência de género, segurança social, habitação, trabalho sexual, cuidado colectivo e apoio mútuo, etc.).A rede popular de apoio mútuo constitui uma forma de participação política, desde as bases e da comunidade, funcionando em auto-gestão. Não é um projecto assistencialista ou de caridade, nem detém quaisquer ligações a empresas, partidos ou instituições do Estado. A permanência e o alargamento desta rede dependerá do número de pessoas que se disponibilizarem a participar e a construí-la colectivamente.

Podes/queres juntar-te à rede popular de apoio mútuo?Escreve-nos para agralha@riseup.net ou através da nossa página de facebook!

Difunde, contacta-nos, junta-te!

Lei da moratória das rendas: austeridade e dívida para os arrendatários

Lei 4-C/2020, aprovada pela Assembleia da República no passado dia 6 de Abril, estabelece um regime excepcional para as situações de atraso no pagamento das rendas, atendendo à situação provocada pela doença COVID-19: o atraso no pagamento das rendas durante o estado de emergência e um mês depois de esta acabar para as famílias que percam 20% do seu rendimento e que, por isso, suportem uma taxa de esforço com despesas de habitação superior a 35%. Quando o regime excepcional acabar (um mês depois de terminar o estado de emergência) todos têm de recomeçar a pagar a renda, juntamente com o pagamento da dívida entretanto acumulada que tem de ser paga no prazo de 12 meses. O Estado, por via do IHRU, vai emprestar dinheiro para que os inquilinos que não o consigam fazer por si, paguem aos senhorios ou aos pequenos senhorios cujos inquilinos não possam pagar.

Embora mostrando que a AR reconhece que será impossível as famílias continuarem a pagar rendas durante os próximos tempos, esta Lei é uma medida que empurra para os inquilinos todo o ónus da crise económica devida à epidemia.

É muito injusta e acaba por ter pouco valor, por se dirigir a muito poucas pessoas.  Vejamos:

Em primeiro lugar, a Lei deixa de fora todas as pessoas que vivem e trabalham na mais absoluta precariedade. Há sectores onde a quase totalidade das pessoas trabalha sem contratos, sem recibos nem descontos, tendo muitos sido sumariamente dispensados logo no início da epidemia. Limpezas, agricultura, construção civil e outros são sectores onde a Autoridade para as Condições do Trabalho se tem mostrado incapaz de intervir eficazmente, mas há muitos outros. Esquecê-los agora é um afronta a juntar à situação desesperada em que já se encontravam antes. Além de terem ficado, já, completamente entregues a si próprios, porque não há medidas que os apoiem, nunca poderão comprovar a perda de rendimentos que a lei exige. Ainda que a portaria remeta para uma simples declaração do patrão a comprovação dos rendimentos, é ingénuo supor que patrões que mantêm pessoas a trabalhar de forma ilegal (isto é sem contratos e sem descontos) vão expôr-se a passar uma declaração!

Recordamos que mesma precariedade atinge o arrendamento, onde numerosas famílias e pessoas sós, incluindo estudantes, alugam quartos e partes de casa sem contratos, sem recibos e muitas vezes com o dinheiro entregue em mão. Como vão comprovar que ultrapassaram os 35% de esforço?

Depois, a Lei pressupõe que um mês depois de terminar o estado de emergência, tudo volta ao normal e que as famílias, mesmo aquelas cujos rendimentos são oficializados por recibos legais, recuperam da quebra tão bem que podem passar a pagar de novo a mesma renda, já inflacionada na maioria de casos, juntando-lhe ainda a dívida acumulada pelos meses que não pagaram. E terão de a pagar no prazo de um ano. A pergunta é: não sabe o governo aquilo que todos sabemos e muitos estudos comprovam, que uma altíssima percentagem das famílias já tinha ultrapassado, em muito, uma taxa de esforço admissível?

Sabe, pois. Por isso arranjou esta solução a que chamou “apoio financeiro”: um empréstimo, a conceder pelo IHRU (Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana), do qual ainda não se sabem as condições reais. Emprestar dinheiro aos inquilinos para que estes não deixem de pagar aos senhorios é um sinal claro da posição do governo ao lado dos senhorios. E mostra que a mantra de que todos são chamados neste momento é uma mentira deslavada: aos que perdem rendimentos (trabalhadores despedidos ou em Lay-off) é oferecida uma dívida, para que os senhorios, grandes empresas, fundos imobiliários, seja quem for, não percam nada.

O mesmo governo que permite às grandes empresas que acumularam lucros dispensar temporariamente trabalhadores, empurrando para eles parte da perdas, decide que quem arrenda casa continue a suportar totalmente  essa despesa. Aliás, o mesmo governo que já antes tinha favorecido toda a especulação imobiliária responsável pela expulsão de moradores dos centros das cidades.

O que agora propõem é continuação, mais do mesmo, para que todos fiquem calmos e encaixem medidas que são, claramente, de austeridade para o lado que mais precisa e de apoio para o outro. Lembremo-nos que grandes senhorios – empresas e fundos imobiliários – têm acumulado tanto propriedade como lucros, sendo responsáveis, juntamente com os governos da última década, da crise imobiliária que a epidemia veio piorar.

REJEITAMOS qualquer tipo de dívida contraída por inquilinos durante a epidemia. Quem já paga mais do que deveria por um direito fundamental, e se vê privado do seu trabalho, não pode ser castigado com uma dívida.

DEFENDEMOS a suspensão total do pagamento das rendas enquanto durarem os efeitos da crise actual e um tecto máximo para as rendas agora e durante a gravíssima crise económica que vai seguir-se: para todos os que perdem rendimentos e sem que fiquem de fora os mais precários. 

A luta tem de continuar, e continuará.

Campanha – Pela reabertura dos balneários públicos

Na actual crise de saúde pública, os nossos governantes não têm parado de nos apresentar recomendações de higiene e segurança: lavar bem as mãos, usar luvas e máscara, desinfectar e cozinhar bem os alimentos, garantir o distanciamento social.

Em Lisboa, desde 11 de Março, vários balneários públicos encontram-se fechados: em Santa Apolónia, na Graça, em Alcântara ou no Campo Mártires da Pátria. Não podemos aceitar que se fechem espaços essenciais na gestão sanitária e democrática da cidade. Os balneários são imprescindíveis para quem vive em situação de sem-abrigo e para quem não possui as devidas condições sanitárias nas suas casas. Em 2011 (últimos censos) havia 4000 pessoas em Lisboa a viver em casas sem instalação de banho ou duche. Para além da situação das famílias despejadas pela própria autarquia, no bairro Bensaúde, nos Olivais, e que agora se encontram a viver em tendas, ou das centenas de famílias que ocupam casas vazias em Lisboa.

No contexto da actual pandemia, esta situação é incomportável. O balneário de Santa Bárbara, nos Anjos, é um dos poucos balneários públicos abertos e, por isso, frequentado por um número cada vez maior de pessoas. A maior afluência é mais um factor que coloca em causa a saúde pública, por não assegurar o cumprimento das medidas de manutenção da distância física e da redução das deslocações, essenciais à contenção da COVID-19.

A CML abriu quatro centros de acolhimento para as pessoas em situação de sem-abrigo, em Lisboa. Fecharam-se os refeitórios e as cantinas sociais onde os sem-abrigo comiam por motivos de contenção epidémica, mas depois amontoam-se as pessoas em pavilhões? A maior parte das pessoas nesta situação vulnerável tem receio de dormir nestes pavilhões (onde, mesmo que todas as medidas sanitárias sejam implementadas, perdem a privacidade e deparam-se com uma rotina disciplinar). As pessoas que vivem na rua não devem ser tratadas como gado. Defendemos a requisição civil de hotéis e alojamentos turísticos para albergar as pessoas em crise habitacional (os sem-abrigo, as famílias despejadas, as famílias que ocupam casas ou que não têm condições sanitárias).

Por tudo isto, exigimos a abertura imediata de todos os balneários públicos de Lisboa e do país, com as devidas condições e medidas de protecção contra o Coronavírus, tanto no distanciamento como na regularidade de limpeza desses espaços e fornecimento de gel desinfectante e sabonetes.

O encerramento destes espaços é uma medida de exclusão social que atinge as populações mais vulneráveis e que aumenta o risco de contágio de todos nós.

Colectivos subscritores

Brigada de Bairro

Perante a pandemia covid-19 e esta crise sem fim, a criação de infra-estruturas auto-organizadas, auto-geridas e de apoio mútuo não poderia ser mais necessária. Com as medidas de precaução sanitárias adequadas podemos entreajudar-nos.

Estamos a organizar-nos nos nossos bairros para apoiar quem precisar e incentivamos a que mais pessoas o façam. O apoio que pensamos abarca tarefas como: ir às compras, à farmácia, passear o cão, pôr o lixo no lixo e receber comida confeccionada em casa, numa parceria com a cantina solidária take-away da associação Recreativa dos Anjos.

Neste momento, a maioria de nós mora ou (continua) a trabalhar entre as freguesias de Arroios, São Vicente e Penha de França e por isso começamos aqui.

Acreditamos que é tempo de desenhar redes fortes de solidariedade, de nutrir cumplicidades e desenvolver uma força que trace o início de uma vida em comum diferente da que vivíamos antes.

Contactos gerais: brigadadebairro@gmail.com | 925 326 337 | grupo facebook

Habita: Grupo de Resistência e Apoio Mútuo

Grupo de partilha de problemas de habitação e apoio mútuo em tempos de pandemia.Agora que não podemos encontrar-nos pessoalmente em assembleia Habita, criámos um grupo onde podemos continuar a apoiar-nos mutuamente e construir estratégias de acção sobre como lidar com os nossos problemas de habitação e outros que queiramos partilhar.Este grupo serve para:
– Partilharmos os nossos problemas de habitação;
– Apoiarmo-nos mutuamente na busca de soluções;
– Denunciar casos de abuso de senhorios, bancos, Câmaras Municipais, etc.
– Partilhar notícias e informações sobre habitação;
– Criarmos campanhas de solidariedade e resistência.

Neste grupo toda a gente é bem-vinda!

Manifesto – A Minha Luta Não Faz Quarentena

A 21 de março assinala-se o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, para lembrar que o racismo e a xenofobia, entre outras violências relacionadas com o preconceito e ódio raciais, são uma realidade quotidiana. Foi nesse sentido que escolhemos esta data para o lançamento da campanha #AMinhaLutaNãoFazQuarentena

No contexto atual, ficar em casa e evitar o contacto social é a principal orientação para controlar a expansão do Covid-19 e para proteger todas e todos. São circunstâncias difíceis para cada um e cada uma, sem exceção. Se esta situação nos deve unir, não deve ao mesmo tempo fazer-nos esquecer aquilo em que ainda não somos iguais. Quem e quantos e quantas de nós podem ficar em casa? Trabalhar e ver garantida segurança? Pôr alimento na mesa e cuidar da saúde da família? Quantos e quantas têm a certeza de poder garantir os seus rendimentos? Agora é também tempo de relembrar que os/as mais vulneráveis serão também os/as mais atingidos/as no contexto desta pandemia. É, por isso, impossível olhar para o cenário atual sem considerar a desigualdade étnico-racial. 

Para assinalar esta data a SOS Racismo lança o Manifesto #AMinhaLutaNãoFazQuarentena, uma tomada de posição que pretende ser um ponto de partida para o trabalho coletivo e plural, trabalho esse que desejamos transversal a toda a sociedade, mas no qual se pretende, em particular, envolver todos/as aqueles/as que vivem no dia-a-dia a discriminação.

Convidamos todos e todas que se identificam com a luta antirracista a que se apropriem desta hashtag, para partilharem reflexões, propostas de medidas, testemunhos e todos os conteúdos que nestes dias, como nos que virão, nos permitam seguir efetivamente unidos e unidas no caminho de uma sociedade igualitária e diversa.

Campanha – Ninguém fica para trás!

NINGUÉM FICA PARA TRÁS! A situação provocada pela disseminação do vírus COVID-19, com tudo o que envolve de alteração da normalidade, afecta de forma geral e radical a vida de toda a comunidade, mas afecta com particular violência quem já se encontrava numa condição de fragilidade antes da pandemia surgir. Quem vive sem casa ou habita uma casa insalubre, quem tem trabalho sem direitos e quem não tem trabalho de todo, ou quem está social e afectivamente mais isolado, são as pessoas que mais expostas estão à violência de um vírus que ataca tenazmente a vida biológica, ao mesmo tempo que paralisa largas esferas da produção e circulação.Cabe-nos a todos agir de acordo com as regras de higiene e de saúde necessárias para lidar com o coronavírus, cumprirmos a nossa parte num projeto coletivo de eliminação do risco.

Mas o projeto coletivo de uma comunidade não pode passar apenas por isto e não pode revelar-se somente nestes casos de emergência. Também deve passar, por exemplo, por exigirmos que toda a gente tenha sempre direito a todos os direitos que permitam levar uma vida digna, incluindo o acesso a serviços essenciais, rendimentos, habitação, saúde, educação e qualidade de vida. No momento presente, perante a ameaça da catástrofe social, apresentar essa exigência é uma responsabilidade de todos, e algo que é, pelo menos, tão grande e decisivo como ficar em casa para evitar o contágio do vírus. Trata-se de garantir que ninguém fica para trás e que, nesta fase difícil e potencialmente devastadora, toda a gente terá acesso às condições necessárias à sua sobrevivência e à sua dignidade.

Para que ninguém fique para trás estas são as seis demandas que apresentamos:
1 – Saúde para toda a gente
2 – Casas para toda a gente
3 – Gratuitidade dos serviços essenciais
4 – Rendimento Básico de Quarentena
5 – Manutenção dos postos de trabalho
6 – Indulto de presos por crimes menores e dignidade para todos

Manifesto – Como se faz quarentena sem casa?

Medidas fundamentais para contenção e protecção em tempos de pandemia

Num momento em que o governo tenta conter a pandemia de Covid-19, com consequências na vida das pessoas e na economia do país, nós, pessoas, colectivos, associações, exigimos que as medidas tomadas para proteger a saúde pública e o bem-estar social sejam acessíveis a toda a população.

A contenção terá de ser analisada nestes próximos tempos segundo vários pontos de vista e as suas intenções interpretadas de forma aprofundada. Neste momento, é preciso observar a situação actual: o sistema de saúde nacional foi sendo enfraquecido com a austeridade permanente e em prol da sua privatização. A diminuição do número de camas nos hospitais públicos, as condições precárias dos profissionais de saúde e uma enorme falta de sensibilização e educação sanitária fizeram com que o sistema nacional de saúde se encontre hoje desprovido de capacidades básicas para responder a esta pandemia. É por isso preciso que toda a população tenha as devidas condições necessárias para se proteger, ou seja, que todas as pessoas tenham uma casa segura onde viver com higiene e infra-estruturas básicas (água, luz, gás e saneamento).

Actualmente, muitas pessoas vivem na rua ou em formas precárias ou sobrelotadas de habitação porque foram despejadas pelos mesmos governantes que agora pedem às pessoas para lavarem as mãos, que fiquem em casa e que todo o país se proteja. Para assegurar que todos tenham as mesmas condições, exigimos:

– fim imediato dos despejos;

– realojamento imediato de todas as pessoas e famílias despejadas;

– realojamento imediato de todas as pessoas que se encontram a viver na rua;

– a requisição de casas vazias, sejam elas apartamentos turísticos, de luxo ou municipais, para realojamentos de emergência.

Para além das questões básicas de acesso a uma habitação adequada, devemos também evitar que o peso económico desta situação não seja novamente suportado pela faixa mais frágil da população, na forma de perda de casa, de perda de trabalho, de nova miséria. De modo a assegurar que o apoio do estado não se limita às empresas e aos grandes interesses económicos, exigimos para este período temporário:

–  a suspensão do pagamento das rendas das casas para todas as pessoas afetadas pela crise;

– a suspensão do pagamento das hipotecas;

–  a suspensão das rendas dos espaços sociais, como coletividades e associações;

–  a suspensão das rendas de pequenos comércios e de pequenas empresas afetadas pela crise;

–  a proteção física dos trabalhadores mais expostos ao vírus;

– a proteção financeira de todas as pessoas com trabalho precário e a recibos verdes, que não são atualmente protegidas pela segurança social;

Na iminência de uma nova crise, as condições básicas não podem ser colocadas em último lugar. Neste momento é importante que se pense na vida das pessoas antes dos interesses dos bancos e da especulação financeira. A solução não pode passar pelo agressivo modelo de dívida, de privatização e de austeridade que foi seguido nas crises financeiras anteriores.O bem estar das pessoas tem de ser posto acima do lucro, bem como o estado social público acima do setor privado. As casas, os serviços comunitários e os hospitais têm de servir a população, e urge salvaguardá-los da voracidade da finança, que sabemos estar sempre pronta a lucrar em situações de crise como a que se avizinha.

Nota final: há pelo menos uma semana que tem havido todos os dias (incluindo hoje) despejos de famílias sem alternativa habitacional, pela Câmara Municipal de Lisboa. Há várias dezenas de pessoas e muitas crianças a dormir na rua neste momento.
Em França e Espanha os despejos foram todos suspensos).

TextoStop Despejos + Habita! + Espaço social Sirigaita

Colectivos subscritores

Imaginar Geografias #1 Mobilidade – Fuga em comum

Mobilidade – Fuga em comum é o primeiro programa sonoro do projecto multidisciplinar Imaginar Geografias.

Com o primeiro programa aproximamo-nos da questão migratória querendo sublinhar o facto de a mobilidade consistir hoje em dia num valor em si. A partir desta ideia desenrolam-se nos trinta minutos discursos com pontos de vista diferentes argumentados através das palavras de pesquisadores, migrantes e escritores do passado. A mobilidade torna-se um valor, um factor que cria fracturas, clivagens sociais que, para os mais débeis, levam muitas vezes a uma condição de clandestinidade.

Imaginar Geografias. Imaginar novas formas de mover ou de fixar.
Vozes que a partir de observatórios vários defrontam as múltiplas facetas do fenómeno migratório na tentativa de semear a dúvida e de dar vida a uma reflexão pragmática sobre argumentos que põem em causa a nossa humanidade. Os programas de rádio foram imaginados a partir de uma pesquisa histórica e actual sobre mobilidades e migrações. Um trabalho sonoro que reúne leituras e entrevistas sobrevoadas por sopros sonoros de migrantes que caminham, voam ou que se mantêm fixos. Uma reflexão que atravessa as questões de mobilidades, trajectórias e paragens, fronteiras e muros, colonialismo e actualidade, cidadania e pureza, Europa, possibilidades e perspectivas. Imaginar o vai e vem, a troca de lugares, os movimentos de todos nós, a partilha do espaço. Imaginar Geografias, projecto multidisciplinar realizado Julia Salaroli, Polliana Dalla Barba, Fannie Vrillaud, Marcus Neves.

Pandemónio – Emissão 5

A Gabriela saiu à rua, entrou pela janela e encontrou as duas semicolcheias invertidas que nunca mais a largaram… Caparapambapa. Foi visitar a Cooperativa Mula no Barreiro em conjunto com a Catarina Carvalho e o Pedro Boléo, e a cantina solidária na Recreativa dos Anjos, com outros dois indivíduos. O horóscopo sugeriu-lhe que, enquanto ficasse em casa, poderia pensar melhor sobre o Rendimento Básico Incondicional (RBI), com o Bruno Lamas… e já que a luta não faz quarentena, o antirracismo também não! A Gabriela encontrou-se com Mamadou Ba e perguntou-lhe: será que podemos viver sem SEF?… Caminhando pela sua cartografia urbana e emocional, encontrou a Stop Despejos e a Habita que a seduziram e lhe pagaram um, dois, três, ou mais copos, e a conduziram para longe, até… Arroios. Com elas entrou num espaço em sobrelotação e em condições onde a quarentena é simplesmente infazível… Continuando a traçar essa cartografia, o Jornal Mapa ofereceu-lhe uma viagem à Argentina, mostrando-lhe a luta de classes… Termina com um no comment ou Da jardinagem f-r-o-m-L-o-n-d-o-n

Rebels on the Mov(i)e #1

A serie de cinema “Rebels on the Mov(i)e” da Rádio Gabriela começa hoje e decidimos partir com um documentário que cumpre plenamente um dos nossos principais objetivos, que é mostrar alternativas e futuros possíveis, através das experiências práticas dos movimentos em todo o mundo. Partimos do México, um país das mil contradições que começou o século passado com uma grande revolução (a primeira do mundo a incluir os direitos sociais na própria constituição) e terminou o mesmo século com outra revolução: a do pensamento neozapatista, que põe realmente em prática um novo conceito de pensamento social e político, a autonomia.

Nota de autor

“Uma viagem ao México que resiste ao neoliberalismo. Vozes de uma terra onde ninguém desiste, onde imaginar um mundo que inclua outros mundos não é um simples slogan, mas uma prática diária real e constante.Começámos a pensar coletivamente, a imaginar um projeto. A forma que escolhemos é a de um filme documentário. Uma série de entrevistas que podem dar um olhar diferente sobre o México e as lutas que o animam.Nas terras por onde passámos entrámos em contacto com diferentes ativistas e militantes de organizações radicais e anti-capitalistas, tentando captar o sentimento comum que vive em torno do “discurso revolucionário” no México de hoje.Falando de capitalismo e resistência, coletividade e autonomia, aprendemos que, apesar de tudo, pensar num futuro revolucionário e agir num presente tão complexo pode ser uma prática diária. Vimos como se pode falar de tudo isto com uma simplicidade desarmante. A mesma simplicidade com que, há mais de vinte anos, os camponeses de Chiapas têm vindo a fazer frente aos ataques do governo, construindo o seu próprio mundo, retirando-o do capitalismo e dando-nos todos os dias um motivo de esperança.” 

Um filme de: Claudio Carbone, Antonio Gori, Massimiliano Lanza, Leonardo Balestri.

Fotografia: Claudio CarboneDesenhos: Mario Berillo

Edição: Leonardo Botta

Música: Moovercom a colaboração de Elementi Kairos http://www.elementikairos.org/

Página Facebook: facebook.com/CielitoRebelde.VocidelMessicoresistente
https://vimeo.com/159938524 

Link úteis: 

Página oficial Ezln: http://enlacezapatista.ezln.org.mx/

Nodo Solidale: https://nodosolidale.noblogs.org/

Zibechi: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/587290-mexico-o-movimento-zapatista-e-chiapas-25-anos-depois

Balanço de vinte anos de zapatismo (Jornal mapa, 2014): http://www.jornalmapa.pt/2014/02/27/nao-tem-que-se-pedir-permissao-para-se-ser-livre/

Pandemónio Grandíssimo Live! – Domingo, 12/04 às 20:30

Então, pessoal, está tudo na mesma como a quaresma? Nã nã nã, que a Rádio Gabriela vos vai ressuscitar esses ouvidinhos e tirar o Jaasus do lockdown.

Temos para vós amanhã o Pandemónio Grandíssimo Live! com convidadas especiais surpresa nos Estúdios Sirigaita e testemunhos valiosíssimos em directo.

+Notícias do mundo, da Palestina e quem sabe de outros lugares +A Brigada de Bairro e Todos à Janela apresentam-se na primeira pessoa +Saúde pública ou investimento militar? +Canção de Luta com Pedro Boléo

Tudo polvilhado com leituras do magnífico Ingenuidade Inocência Ignorância de Raquel Lima e as sonoridades dos grandíssimos Alförjs.

A partir das 22:00, Antena Aberta para quem quiser ligar e participar na emissão em directo.

E porque em quarentena pode sempre dar jeito improvisar um spaghetti aglio olio com piri-piri, podem enviar-nos desde já sugestões e/ou contribuições áudio vossas que tentaremos passar na emissão!

https://www.mixcloud.com/live/radio-gabriela/?fbclid=IwAR0uQySJx7iBYHc9jxXfqhvRt1do0MfwC7rpyeiyW7617Y2SJZ4iEB2EMSo

Pandemónio – Emissão 4

O Pandemónio 4 chegou! Vacinem-se!

+Sandra Monteiro sobre os 21 anos do Le Monde Diplomatique e quão relevante é precisamente em tempos de pandemia +João Melo explica o que é o espectacular movimento Ninguém Fica Para Trás
+o Estado da Conspiração reclama rendas zero e muito mais +Enfermeira Ágata Baginha discorre sobre determinantes de saúde +Henrique Raposo faz perguntas profundas e são pouco parvas, são… +no comment com Federica Fiasca…… Tudo condimentado com música e muita parvoíce
MUAH-MUAH

Rádio Gabriela é uma rádio colaborativa. A ideia é partilharmos neste podcast notícias, do mundo mas também das nossas comunidades, ferramentas críticas, campanhas, e outras coisas que andamos a fazer – música!, yoga, receitas, peripécias da quarentena, enfim, tudo o que noutras circunstâncias caberia num espaço associativo! Envia-nos sugestões e contributos para radiogabrielalisboa@gmail.com

Pandemónio – Emissão 3

No Pandemónio #3: Policiamento do outro – justiceiros da varanda – securitização da pandemia – políticas urbanas e neoliberalismo – o trabalho e a enfermagem. Todo isto nos interessa, com Nuno Dias, Simone Tulumello, Bárbara Barros, Ágata Baginha e o jornal MAPA. As casa, as rendas e os bairros: reportagem do bairro Alfredo Bensaúde – Com Catarina Carvalho e Pedro Boléo. Há quem, contudo, acha que a melhor estratégia para responder a pandemia seja rezar, e rezar muito…..no-comment…..todo condimentado com musica e parvoíces……hastaLuego…..MUAH-MUAH-MUAH

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Pandemónio – Emissão 2

Pandemónio #2 já aqui está! Na emissão de hoje: Música: The Comet is coming +Apresentação do blog da Rádio Gabriela +Notícias do mundo +Conversa com Nuno Domingos sobre Nacionalismos +Os dramas de um liberal no jornal +Uma canção original sobre o vírus +Uma canção de luta (Malvina Reynolds) +Manifesto Rádio Gabriela +Leituras de Bruna Castro de «Ideias para adiar o fim do mundo» (Ailton Krenak) +Presidente Drógado na Sirigaita +Um texto feminista de Carla Panico lido por Fannie +Fatal Microbes +A operação stop da ponte +Moralismos virais +Pérola final (BolsoFighter vs StreetNero)

Pandemónio – Emissão 1

No Pandemónio #1: Franco e Pedro Augusto tecem animadas teses sobre a pandemia +Música +Nuno Rodrigues sobre uberização, precariedade e lutas +O estado da conspiração: greve dos call-center, campanhas pela suspensão das rendas em Espanha e no mundo, medidas do governo em El Salvador parecem ser bué à frente, notícias de acções por cá +conversa com Antonio Gori sobre actividade da Habita e Stop Despejos +Manifesto Rádio Gabriela (lido por robot) +Monólogo do Vírus +Situação em Gaza +Absurdos do CM + É proibido mas pode fazer-se.

Rádio Gabriela em andamento!

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