DJionísio #6 – Os Três Porquinhos ou Histórias de Habitação

«Era uma vez os três porquinhos!
O porquinho de cima era proprietário da sua casa, que era sólida, magnífica, e não caía.
O porquinho de baixo morava numa barraca cheia de buracos, que estava sempre a cair.
O porquinho do meio vivia numa casa alugada, o que podia correr bem ou mal, conforme os ventos da crise ou da gentrificação.
Quando a casa do porquinho do meio caía, a indignação vinha para os jornais…»

Um programa musical feito para as primeiras «Jornadas Cidade em revolta: Habitação,
resistência e apoio mútuo» (em Outubro de 2018, na Rosa Imunda – Porto). Foi também
ouvido na Sirigaita (em Junho de 2019) e ainda, numa versão curta, numa sessão Ouvido de
Tísico (em Dezembro de 2020, na Casa da Achada – Lisboa).

Um ano de Rádio Gabriela

A Rádio Gabriela nasceu em Março de 2020. Já passou um ano. 
Fizemos reportagens, entrevistas, crónicas, debates, programas de autor, sugestões de filmes, livros e leituras, reflexões políticas e sociais, horóscopos críticos. Tudo bem regado com música. Conversámos com dezenas de trabalhadores de várias áreas, activistas, investigadorxs, artistas, militantes, poetas, sobretudo gente que habitualmente não tem voz nos grandes media. À procura dos outros lados das histórias e das lutas, para dar a ouvir vozes que resistem, saber das derrotas e das vitórias dos movimentos, do que querem, do que exigem, dos combates de que não desistem. 

Falámos de saúde, de direito à habitação, de feminismo, de antirracismo, de lutas de trabalhadorxs, de linguagem, de ecologia, de dívida, de alimentação, de futebol popular, de literatura, de poesia, de sexualidades, de problemas sociais e políticos no mundo inteiro. 

Com entusiasmo e esforço, mas diz que “quem corre por gosto não cansa”. Uma rádio amadora e colaborativa, sem dinheiro, feita com amor, rebeldia, sentido crítico, e sons da solidariedade. E nisto passou um ano.

Viva a Rádio Gabriela!

Assembleia pela habitação: na rua com outras cidades europeias

Gente que não desiste: assembleia pela habitação e contra os despejos
A Rádio Gabriela esteve na Assembleia pela habitação de dia 27 de Março, integrada num dia europeu de luta pelo direito à habitação e à cidade. Centenas de pessoas estiveram presentes na praça do Intendente, em Lisboa, e muitas tomaram a palavra, sobretudo mulheres. Uma assembleia de denúncia, mas também de juntar forças para as lutas difíceis que se avizinham.

A Crise do Jornalismo em Portugal.

Para a discussão em torno da segunda edição do livro A Crise do Jornalismo em Portugal o nosso podcast contou com a presença de dois dos organizadores, José Nuno Matos, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e Filipa Subtil, docente na Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa, e também com Sandra Monteiro, directora da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique. Nuno Domingos, da Livros Outro Modo, esteve na moderação.

#14 “All you fascists bound to lose”

Uma das mais famosas canções antifascistas de Woody Guthrie, cantor e compositor folk norte-americano que escreveu centenas de canções de trabalho, de luta e de crítica social. All you fascists bound to lose é ainda hoje útil, para ajudar a derrubar os fascismos, os racismos e os autoritarismos dos nossos tempos.

Rebels on the Mov(i)e #35 | A DAY IN THE LIFE: The World of Humans Who Use Drugs

As colaborações continuam nesta nossa rúbrica do Rebels on the Mov(i)e. Desta vez o texto e o filme chegaram-nos directament do Grupo de Ativistas em Tratamento (GAT).

As pessoas que usam drogas são frequentemente estigmatizadas, discriminadas, violentadas e impactadas por leis criminalizadoras e por uma “guerra às drogas” que diminuem a sua condição e as desumanizam. Onde ficam as lutas, sonhos e as aspirações das pessoas que usam drogas?

Numa narrativa contra-hegemónica, surgem os movimentos promovidos na primeira pessoa, pelos direitos das pessoas que usam drogas à habitação, emprego, tecnologia, família em igualdade de circunstâncias, e também pelo direito a estados alterados de consciência.

Um dia na vida é um documentário que permite viajar por 8 histórias de vida, de 7 países diferentes. Em comum têm as carreiras psicotrópicas e as batalhas que travam contra um sistema que xs mata. Conheçam a Eva, o Brun, o Edo, a Diana e outrxs utilizadores e ativistas que lutam por um mundo mais justo. Afinal, não somos todxs utilizadorxs de drogas?

O GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos – é uma organização de base comunitária na área do VIH, hepatites virais, infeções sexualmente transmissíveis e tuberculose, cuja missão é melhorar o acesso à prevenção, redução de danos, diagnóstico e tratamento precoces no sistema de saúde através do aumento da participação comunitária dos grupos prioritários na tomada de decisão pública, na implementação e prestação de serviços e na produção de conhecimento.

O GAT tem dois serviços direcionados a pessoas que usam drogas: o IN-Mouraria e o Programa de Consumo Vigiado (em parceria com a Médicos do Mundo).

Vê aqui o filme completo:

#5 | Da loucura e da normalidade

Integrado na norma, normal, seguidor da norma, como deve ser, adaptado. Anormal,
inadaptado, desintegrado, louco. Van Gogh, louco. Artaud, louco. Fora da normalidade. Expectável, normal, seguidora da fake-news tranquilizadora, integrada no sistema. Anormal, desintegrada, louca. Cassandra, louca. Fora do comum, diferente, imprevisto, incómodo. Loucura, atentado ao estado das coisas, atentado ao poder. Regresso à normalidade, eterno retorno. Recusa. Artista, louco.

Um programa que é uma colagem doida de textos e canções, feito para uma sessão Ouvido de Tísico na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, durante o ciclo Van Gogh, em Novembro de 2020.

Rebels on the Mov(i)e #34 | La Commune

A 18 de Março de 1871, uma das experiências mais impressionantes de governo autónomo na história europeia começou em Paris, com carimbo socialista libertário. Tomou conta da cidade durante mais de dois meses, até 28 de Maio de 1871. É considerada a primeira grande experiência de governação autónoma na história contemporânea. Hoje, 18 de Março de 2021, exactamente 150 anos depois, a nossa rúbrica Rebels On the Mov(i)e não podia deixar de prestar homenagem a esta incrível mobilização.


La Commune é um filme de Peter Watkins sobre a Comuna de Paris. O extraordinário filme de Watkins resulta de uma investigação profunda sobre os acontecimentos da Comuna de Paris, afinal tão mal conhecidos. O realizador “encena” um documentário, com uma quantidade enorme de actores, (muitos deles não profissionais) e serve-se de um anacronismo bem a seu gosto: inventa uma estação de televisão, a TV Comuna, que faz uma longa reportagem sobre os acontecimentos, sobrepondo passado e presente e trazendo a Comuna, os seus debates, as suas esperanças, os seus e as suas protagonistas, para os dias de hoje. Para além de uma reflexão política profunda sobre a revolução, La Commune é também um filme sobre o papel dos media e o seu poder. 

Primeira parte:

Segunda Parte:

#7 | Música e Liberdade de Expressão

Na sequência da prisão do rapper Pablo Hásel pela polícia espanhola dedicámos o live Gabriela de 28 de Fevereiro ao tema da liberdade de expressão, com muita música que foi censurada (ou perseguidos os seus autores) em diferentes épocas e geografias. Tivemos como convidados Bruno Carvalho, da Plataforma de Solidariedade com Pablo Hásel, um dos organzadores das manifestações de 26 de Fevereiro (em Lisboa e no Porto), o músico e rapper Scúru Fitchádu sobre a importância da liberdade de expressão (e da tomada de posição) em vários campos de batalha, António Brito Guterres, um dos signatários da petição em solidariedade com Hásel, investigador que tem realizado trabalho social e cultural na Área Metropolitana de Lisboa, que nos falou também dos silenciamentos crónicos e dos perigos de agravamento das censuras na Europa.

Por problemas técnicos, não pudemos infelizmente guardar todo o programa. Aqui está a parte final, à conversa com Mamadou Ba, com quem falámos de liberdade de expressão e da luta anti-racista.

Rebels on the Mov(i)e #33 | Berta não morreu, se multiplicou

“Berta não era apenas uma ambientalista, não era apenas feminista, ou uma simples defensora dos direitos humanos: Berta foi uma revolucionária”.


Na rúbrica desta semana apresentamos uma sugestão do Fórum Indígena de Lisboa e dedicamos este espaço a Berta Caceres, lider indígena, feminista e ambientalista. Berta é vencedora do prémio ambiental Goldman, em 2015 e co-fundadora do Consejo Cívico de Organizaciones Populares e Indígenas de Honduras (COPINH). Foi assassinada, cobardemente, no dia 2 de Março de 2016, por defender a vida e o meio ambiente contra os mega projectos do governo das Honduras.

Este documentário retrata o legado de uma luta de Berta e dos povos indígenas, mas também dos afrodescendentes nas Honduras e de organizações como a Organizacion Fraternal Negra Hondureña (OFRANEH). Em coro, todos lançam uma mensagem bem clara: continuam a enterrar-nos, mas ainda não perceberam que somos sementes. Berta não morreu, multiplicou-se!

.Justiça para Berta Caceres! Viva a luta dos povos!

#4 | A quebra do rame-rame e da lufa-lufa

A quebra do rame-rame e da lufa-lufa e aquilo que as pessoas entre outras coisas se
puseram a fazer (durante uma quarentena).

«Um dia vou compor uma música sobre o romper do dia no Alabama…» «Sim, sim,
depois falamos disso melhor, mas agora não posso…» «Gosto tanto de pintar, mas nunca
tenho tempo…» «Se eu soubesse fazer um vídeo, mas não sei como se faz…»
Em Março e Abril de 2020 para muitas pessoas (não todas…) aconteceu o impensável: os seus obrigatórios, inquestionáveis, imprescindíveis trabalhos pararam. E fecharam as lojas,
acabaram os grandes espectáculos, fomos aconselhados a nem sair à rua. E de repente,
nasceram rádios amadoras, multiplicaram-se na internet vídeos com pessoas a fazer leituras, a dar aulas de italiano ou a partilhar receitas recém-descobertas, colectivos descobriram como fazer música ou teatro, em conjunto, à distância. Em pessoas que eu julgava que conhecia, descobria agora surpreendentes actores, músicos videastas, radialistas, poetas, pintores… E adormeci várias noites a pensar na frase do Marx tantas vezes citada por Mário Dionísio: «Numa sociedade sem exploradores nem explorados não haverá pintores, mas pessoas que, entre outras coisas, pintam».

Neste programa vamos dar um passeio por algumas destas coisas que as pessoas, entre outras coisas, se puseram a fazer durante a quarentena.

Este programa foi feito para uma sessão Ouvido de Tísico no quintal da Casa da Achada
Centro Mário Dionísio em Julho de 2020 e transmitido ao mesmo tempo pela Rádio Paralelo.

Memória dum pintor desconhecido, de Mário Dionísio

“Memória dum pintor desconhecido”, é um livro de poesia do escritor e pintor Mário Dionísio publicado em 1965, três anos depois da conclusão do grande ensaio do autor sobre pintura moderna, A PALETA E O MUNDO, e dois anos depois de ter pintado o seu primeiro quadro abstracto, a que chamou A VISITA INESPERADA, abandonando para sempre a pintura figurativa.

Rebels on the Mov(i)e #32 | Olhares sobre racismo

Esta é uma sessão especial de “Rebel on the Mov(i)e” e, em colaboração com a associação SOS Racismo, apresentamos o último documentário dirigido por Bruno Cabral, Eddie Pipocas e Dércio Ferreira: Olhares sobre Racismo.

“O documentário condensa os contributos de várias figuras da mobilização social e política para esta causa e reflete a interseccionalidade, a diversidade e a transversalidade das várias frentes do combate contra o racismo no nosso país”.


Em Portugal, por estes dias, o debate sobre o racismo endémico tornou-se mais quente do que nunca e, por esta razão, decidimos como Rádio Gabriela incluir este filme na nossa rúbrica semanal. Mas também tínhamos de apoiar e divulgar a campanha Em carne e Osso, promovida pela SOS Racismo, que criou uma onda de solidariedade e de força colectiva repudiando a petição infâme contra Mamadou Ba.


O ódio gerado por esta ridícula petição mostra a fragilidade e o desespero daqueles que ainda não se conseguem ver livres de absurdos ideais coloniais, tornando-se mais claro que o horizonte de luta ainda é turvo e distante, mas que não recuamos e vamos enveredar por este caminho em força. Mamadou Ba Fica!


Brasil-Portugal e os desafios da democracia contemporânea. Encontro 1: Arte e Trabalho.

Neste podcast, a partir do lançamento do novo site da editora por Ana Estevens, a Livros Outro Modo e o Coletivo Andorinha – Frente Democrática Brasileira de Lisboa propõem um debate a partir dos temas presente no livro O Brasil Contemporâneo e a Democracia, agora em edição digital (https://livrosoutromodo.com/2021/01/13/o-brasil-contemporaneo-e-a-democracia/)

Participam da discussão os autores Ruy Braga (Universidade de São Paulo) e Cristina Pratas Cruzeiro (Universidade Nova de Lisboa), com mediação de João Luís Lisboa (Universidade Nova de Lisboa e Livros Outro Modo). A apresentação será de Ana Estevens ( CEG – ULisboa). Apoio da FIBRA-Frente Internacional Brasileira Contra o Golpe e Pela Democracia e Rádio Gabriela.

Lançado na sua versão impressa em outubro último, O Brasil Contemporâneo e a Democracia inaugura a coleção de edições digitais da editora Livros Outro Modo. A publicação reúne artigos de especialistas brasileiros e portugueses, de diferentes áreas e apresentando distintas perspetivas, em torno da crise da democracia no Brasil, como Michael Löwy, João Pedro Stédile, Marcos Kalil Filho, Lincoln Secco, Ruy Braga, Marcelo Ribeiro Uchôa, Ana Carolina Farias, Inês Vieira, Ermínia Maricato, Miguel Enrique Stédile, Isabel Araújo Branco, Cristina Pratas Cruzeiro, Thiago Ávila e ilustrações de Carlos Latuff. Organização e texto de Débora Dias, João Luís Lisboa, Henrique Chaves, Lucas Augusto da Silva e Carlos Hortmann. 

Desconversas do SEF: uma epopeia [colocar o áudio em repeat]

A pandemia arrastou-nos para muitas outras pandemias. Uma delas, relativamente silenciosa, é a de milhares de casais bi-nacionais não casados que estão separados há quase um ano e sem solução à vista. 
Com o fecho de fronteiras em Março 2020 ficaram proibidas – a cidadãos externos à UE – as viagens por motivos de turismo, sendo apenas permitido viajar por motivos essenciais (profissionais, de estudo, de saúde, razões humanitárias ou de reunião familiar). Esta última, a reunião familiar, é lida pelos países de diferentes formas, geralmente estando restrita a conjugues e filhos. Mas, e os milhares de casais binacionais não casados?!

É a partir dos milhares excluídos da reunião familiar que surgiu a mobilização mundial Love is Not Tourism. Em Portugal, esta luta tem sido dura e quase sem espaço nos meios de comunicação, mas em Outubro de 2020 conseguiu que Portugal passasse a reconhecer casais binacionais não casados como viagem essencial. Mas essa directiva manteve esse reencontro na precariedade.Assim é a regra: o/a/e parceiro/a/e estrangeiro/a/e até pode viajar para Portugal e na fronteira deve comprovar a “relação estável e duradoura”, ficando depois à mercê do agente do SEF de reconhecer ou não a relação como legítima e merecedora de reunião familiar. Ou seja, os casais podem pagar centenas de euros por uma viagem e poderão ter que pagar novamente outras centenas de euros para regressar ao seu país caso a sua entrada em Portugal seja recusada.   
Em Fevereiro 2021, uma série de partidos recomendaram ao Governo a criação de condições que possibilitem o reagrupamento em Portugal de famílias e casais binacionais não casados que “assegure que a avaliação da possibilidade de deslocação para efeitos de reunião familiar efetuada a casais binacionais não casados seja feita em momento prévio à chegada do proponente a Portugal, com um intervalo de tempo suficiente à aquisição de voos e ao respetivo planeamento da vida familiar”. Até hoje não houve qualquer resposta por parte do executivo.

Um ano volvido, estes casais sobrevivem numa espiral kafkiana entre chamadas falhadas para o SEF e respostas de e-mail genéricas. O medo de uma viagem falhada e da desilusão do não reencontro, faz com que muitos aguardem a sentença do “juiz” em desespero. Enquanto isto o amor aguarda, à distância, e mantém-se vivo através de mensagens, video-chamadas, fotografias, cartas e presentes.

DRIM DRIM!
Ligou para o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, os nossos serviços encontram-se encerrados.”

Rebels on the Mov(i)e #31 | Para Sama

Este documentário mostra-nos imagens filmadas em primeira mão pela refugiada síria e cineasta Waad Al-Kateab, enquanto atravessa a vida numa Aleppo em estado de sítio. Por cinco anos, documenta a sua vida: conhecer o marido e apaixonar-se, o seu casamento e dar à luz a sua filha Sama, a quem dedica o filme. Para Sama tem como objectivo de mostrar à sua filha a razão de Waad e o seu marido terem optado por ficar em Aleppo. O filme oferece uma visão assustadora do tumulto enfrentado pelos civis durante a guerra civil síria, a partir de locais inacessíveis à imprensa e a fotógrafos internacionais.


Não podemos desvendar mais do que esta contextualização de um documentário que tem de ser visto e, mais importante ainda, sentido. A verdade devastadora das imagens penetra na nossa consciência, reverberando um sentimento para o qual não conseguimos encontrar palavras.

https://www.youtube.com/watch?v=VMM834pA0QM&t=2023s&ab_channel=M%C3%BCcahitBALTA

Canção de Luta #12 “La mala reputación”

“La mala reputación”, na voz de Paco Ibañez, é a versão em castelhano da canção original de George Brassens. Uma canção proibida nos anos 50, que se tornou uma canção de luta pela liberdade e contra a censura, sempre «fora do rebanho», em qualquer das dezenas de versões que teve. Aqui passamos por algumas.

Djionísio #3 – “O ponto de vista”, conto de Mário Dionísio

«Mas qual quê! Os carros passam numa bicha contínua sob a chuva, abrandam, quase param, mas parar não é com eles. Nenhum se digna dar-te tempo para entrares na bicha. Tens o pisca-pisca a funcionar. Desces o vidro e, apesar da chuva, estendes o braço numa ordem, numa súplica. Espera lá! Param tanto como tu pararias. E, além dos carros, nada interessados em que queiras desparcar, ou não, os malvados peões pulam por toda a parte de guarda-chuva em riste, passam-te por trás e pela frente, é um inferno. E tem de se gramar isto assim, não há remédio. Senão «alto lá!», apitos, que atropelaste um homem, uma criança, o raio que os parta a todos.»

Leitura do conto de Mário Dionísio «O ponto de vista», escrito em 1980, que nos diz ainda
tanto acerca do «cada um por si», que piora na selva das cidades. Este programa feito para
uma sessão Ouvido de Tísico em Outubro de 2019, na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio.

Uma declaração Zapatista…. pela vida – Aos povos do mundo

A 27 anos do levantamento contra a guerra do esquecimento, que a partir das montanhas da Selva Lacandona abalou os tronos dos poderosos, o Exército Zapatista de Libertação Nacional anunciou uma turnê mundial para 2021. Uma delegação sairá dos territórios zapatistas no Chiapas para encontrar e conhecer todes aqueles que lutam desde baixo e à esquerda nos cinco continentes, através do diálogo, do intercâmbio de ideias, opiniões e estratégias na convicção de que a união faz a força e a diversidade cria riqueza. Estes eventos irão decorrer no continente europeu nos meses de Julho, Agosto, Setembro e Outubro com a participação directa de uma delegação mexicana formada pelo CNI-CIG, a Frente de Povos em Defesa da Água e da Terra de Morelos, Puebla e Tlaxcala, e o EZLN.

A Rádio Gabriela gravou uma leitura da primeira parte da declaração Zapatista… pela vida.

Primeiro de Janeiro do ano de 2021.

Aos povos do mundo:

Às pessoas que lutam nos cinco continentes:

Irmãs e irmãos, companheir@s:

Durante esses meses anteriores, temos estabelecido contato entre nós por diversos meios. Somos mulheres, lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis, transsexuais, intersexuais, queer e muito mais, homens, grupos coletivos, associações, organizações, movimentos sociais, povos originários, associações de bairros, comunidades e um longo etc etc que nos dá identidade.

Nos diferenciam e distanciam terras, céus, montanhas, vales, estepes, selvas, desertos, oceanos, lagos, rios, arroios, lagoas, raças, culturas, idiomas, histórias, idades, geografias, identidades sexuais e não sexuais, raízes, fronteiras, formas de organização, classes sociais, poder aquisitivo, prestígio social, fama, popularidade, seguidores, likes, moedas, graus de escolaridade, formas de ser, afazeres, virtudes, defeitos, prós, contras, mas, contudo, rivalidades, inimizades, concepções, argumentações, contra argumentações, debates, desacordos, denúncias, acusações, desprezos, fobias, filias, elogios, repúdios, vaias, aplausos, divindades, demônios, dogmas, heresias, gostos, desgostos, modos e um longo etc etc que nos faz distintos e, não poucas vezes, contrários.

Só nos unem muito poucas coisas:

Fazer nossas as dores da terra: a violência contra as mulheres; a perseguição e desprezo às diferenças em sua identidade afetiva, emocional, sexual; o aniquilamento da infância; o genocídio contra os povos originários; o racismo; o militarismo; a exploração; a espoliação; a destruição da natureza.

O entendimento de que é um sistema o responsável destas dores. O verdugo é um sistema explorador, patriarcal, piramidal, racista, ladrão e criminoso: o capitalismo.

O conhecimento de que não é possível reformar este sistema, educá-lo, limá-lo, domesticá-lo, humanizá-lo.

O compromisso de lutar, em todas as partes e por todas as horas – cada qual em seu terreno –, contra este sistema até destruí-lo por completo. A sobrevivência da humanidade depende da destruição do capitalismo. Não nos rendemos, não estamos à venda e não cederemos.

A certeza de que a luta pela humanidade é mundial. Assim como a destruição em curso não reconhece fronteiras, nacionalidades, bandeiras, línguas, culturas, raças; assim a luta pela humanidade é em todas as partes, todo o tempo.

A convicção de que são muitos os mundos que vivem e lutam no mundo. E que toda pretensão de homogeneidade e hegemonia atenta contra a essência do ser humano: a liberdade. A igualdade da humanidade está no respeito à diferença. Em sua diversidade está sua semelhança.

A compreensão de que não é a pretensão de impor nossa visão, nossos passos, companhias, caminhos e destinos, o que nos permitirá avançar, e sim a escuta e o olhar do outro que, distinto e diferente, tem a mesma vocação de liberdade e justiça.

Por estas coincidências e sem abandonar nossas convicções, nem deixar de ser o que somos, temos concordado:

Primeiro: Realizar encontros, diálogos, intercâmbios de ideias, experiências, análises e avaliações entre aqueles que nós encontramos empenhados, desde distintas concepções e em diferentes terrenos, na luta pela vida. Depois, cada um seguirá seu caminho ou não. Olhar e escutar o outro talvez nos ajudará ou não em nossos passos. Mas conhecer o diferente é também parte de nossa luta e de nosso empenho, de nossa humanidade.

Segundo: Que estes encontros e atividades se realizem nos cinco continentes. Que, no que se refere ao continente europeu, se concentrem nos meses de Julho, Agosto, Setembro e Outubro do ano de 2021, com a participação direta de uma delegação mexicana formada pelo CNI-CIG, a Frente de Povos em Defesa da Água e da Terra de Morelos, Puebla e Tlaxcala, e o EZLN. E em datas ainda a marcar, apoiar segundo nossas possibilidades, para que se realizem na Ásia, África, Oceania e América.

Terceiro: convidar quem compartilha das mesmas preocupações e lutas parecidas, a todas as pessoas honestas e a todos os de abaixo que se rebelem e resistam nos muitos rincões do mundo, a que se somem, aportem, apoiem e participem nestes encontros e atividades; e que firmem e façam suas esta declaração PELA VIDA.

Desde um dos pontos da dignidade que une aos cinco continentes.

Nós.

Planeta Terra.

1 de janeiro de 2021.

Rebels on the Mov(i)e #30 | Indianara

Celebramos o trigésimo episódio desta nossa rúbrica com o início de uma colaboração com outros colectivos, com filmes que alimentam todas as nossas veias rebeldes, nas várias lutas que precisamos de travar. O filme de hoje, Indianara, é uma sugestão do colectivo TransMissão. Não percam as próximas publicações!

Neste documentário, seguimos a Indianara Siqueira, uma ativista trans e revolucionária que luta diariamente pelas comunidades marginalizadas de um Rio de Janeiro em plena ebulição.
A TransMissão é uma associação de pessoas trans e não-binárias que lutam pelos seus direitos e pela liberdade de sermos quem somos. Este filme é uma inspiração porque sugere que perante a violência da sociedade, sempre temos uma palavra de ordem: Resistência!

https://www.youtube.com/watch?v=_if0RFbmUTs&ab_channel=ColectivoDocumental

Gabriela Clandestina: especial Carnaval

GABRIELA Live #6

“Neste Carnaval, como não dá para irmos para a rua roçar na pele suada do vizinho, vamos à procura das raízes de resistência desta celebração no mundo. De Trinidade e Tobago a Espanha, falámos com quem vive e conhece a festa mais alegre e tesuda do universo, para conhecer a sua história de resistência, de ocupação de espaço público, de emancipação e de liberdade em movimento.

Tudo com música a condizer, claro. Se calhar não é o melhor programa de sofá!”

Djionísio #2

para encandear o domínio branco
desembaciar o dia cinzento
e sarapintar o futuro negro

Um programa musical para ouvir, dançar, desenhar e conversar por cima, com as contribuições faladas de Bárbara Assis Pacheco, Clara Boléo, Cláudia Oliveira, F. Pedro Oliveira, Joana Louçã, João Rodrigues, Jorge Delmar, Margarida Rodrigues, Mariana Vieira, Nuno Moura, Pedro Rodrigues, Rubina Oliveira, Rui Teigão, Sónia Gabriel e Toni. O programa foi ouvido no Espaço Livre no Porto em Janeiro de 2019 e em Lisboa, na Sirigaita, em Abril do mesmo ano, com muito papel, marcadores e lápis de cor à disposição.

“demarcação de língua”

Um poema de Douglas Pompeu sobre a demarcação das terras indígenas no Brasil.

demarcação de língua

na minha língua se diz terra
como quem diz casa
como quem diz ventre volta
ou fica como quem diz nós
ou como se andar descalço
fosse dar as mãos e nada
entre o chão e o corpo
se encontrasse fora do lugar

na minha terra se diz língua  

como quem diz fala dis-

tende uma palavra ao pé  

do ouvido e na boca dissol- 

vesse açúcar seu arbusto  

dispensasse as consoantes  

como se não fosse áspero  

o gosto de que falhamos 

na minha língua se diz  

língua como se não houvesse  

ossos por trás de sua boca  

a carne fosse apenas hábito  

dos sentidos como se ainda  

fosse possível não morder  

a ideia pronta que saliva  

ansiosa em sua ponta

na minha terra se diz pois
terra como quem diz posse
petróleo divisa ou aduana
como se perfurasse o palato
à procura de um pássaro
raro e como se prende-lo
nas lâminas da língua
lhe desse enfim um nome



Douglas Pompeu é tradutor e escritor. Traduziu para o português a primeira seleção de poemas de Kurt Schwitters, Pra trás e pela frente primeiro (2018), assim como Variações sobre tonéis de chuva (2019) de Jan Wagner e Passeios com Robert Walser (2020) de Carl Seelig. Atualmente vive e Berlin, onde edita a revista alba (https://www.albamagazin.de) e trabalha em seu projeto Biografia de Fábrica. Uma de suas histórias foi publicada na coletânea Lingua Franca (Art In Flow, 2019) e seus poemas foram apresentados em leituras como Ex-Salón, Latinale e no Poesiefestival Berlin de 2019. Mantém o blog: http://glaspo.tumblr.com.       


Horóscopo Fevereiro: Stellium em Aquário.

Oiçam aqui os conselhos da Gabriela para todos os signos em Fevereiro.

Olha para um ponto no centro da parede – Vai Ficar Tudo Bem. Só passou um mês desde o início deste ano e já está claro que todas as expectativas que tínhamos para 2021 talvez se tornem realidade em 2022. O 2021 teve um ataque de ansiedade e ficou em pânico, teve uma reacção kamikaze e atirou-se contra uma parede de olhos fechados. E mais, para complicar tudo chegou dia 30 de Janeiro o primeiro Mercúrio Retrógrado do ano, voilà.

Cantos Nómadas #10 – I want a dyke for president

Lorn, Diamond; Zoe Leonard, I want a Dyke for president; Broken air con that plays a jazz drum solo; Manifesto 74, Querido Diário; The Big Church of Fire, 7th, Arpeggio; Gustav Landauer, Revolution; David Graeber, Dívida, os primeiros 5000 anos; Lorn, Anvil; Aphex Twin, Syro.

Rebels on the Mov(i)e #29 | Chaimite

Chaimite, é o nome de um território que foi cercado pelo exército português em Moçambique, e também o título do filme que a Rádio Gabriela sugere para este Rebels on the mov(i)e.

Este filme, produzido durante o Estado Novo, é um documento de grande relevância, porque testemunha exactamente a glorificação imperial que apaga a violência e o racismo com a qual o império foi construído. De facto, ao propor este filme, a intenção é poder analisar um documento histórico, produzido no período do surgimento de um consumo cultural de massa, no período subsequente à Segunda Guerra mundial, que formou a mundividência dos portugueses, ainda hoje enraizada nas suas mentes. Propor um filme produzido com intenções claramente propagandistas, é, portanto, um convite a uma autorreflexão, um convite a pensar a historia não como factos naturalizados, mas como terrenos no qual estão em tensão diferentes poderes e visões sobre o próprio presente, mais do que um terreno em que se disputa a compreensão do passado.


A mitopoese imperial constitui-se em dois momentos. O primeiro o selectivo: factos específicos são obliterados da história oficial. O segundo o da glorificação dos seus heróis. A história do colonialismo português em África é repleta de omissões históricas. A imagem difundida, ainda em época monárquica, de um direito histórico natural a colonizar porções do território africano junto de outras potências europeias, em combinação com a missão civilizadora, não admite o reconhecimento da resistência dos povos colonizados, quer no século XIX, quer na guerra colonial que eclodiu na década de 60 de XX.

Os movimentos de descolonização que tornaram célebres as figuras de Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane e Samora Machel, foram definidos como terroristas e a resistência ao colonialismo português de finais de XIX é constantemente secundarizada perante a celebração dos heróis das campanhas de África, como Mouzinho de Albuquerque ou Paiva Couceiro. As guerras de conquista pela afirmação de objectivos de controlo geopolítico, no contexto da “corrida a África” iniciada na década de 70 de XIX entre as potências europeias, foram edulcoradas e as brutalidades cometidas omitidas. A mesma operação de ofuscamento histórico que hoje marca os massacres perpetrados durante a guerra colonial (1961-1974), como o de Wiriyamu ou o de Batepá. 

A colonização dos territórios africanos em finais de XIX foi um acto violento, perpetrado pela mão de indivíduos cujos nomes hoje marcam a toponímia das cidades portuguesas: Guerra Junqueiro, Mouzinho de Albuquerque, Paiva Couceiro, entre outros.

Ontem, 3 de Fevereiro, assinalou-se os 52 anos do assassinato de Eduardo Mondlane, em Daar es Salaam, antiga capital da Tanzania. Sugerimos este momento de reflexão, para adensar as tensões deste passado-presente e para que possamos enaltecer outros e não os mesmos de sempre.

Comunicado sobre as novas ameaças turcas sob Rojava e Shengal

A Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão escreveu esta semana um comunicado sobre a situação actual entre o estado Turco e o povo Curdo, denunciando as agressões e ameaças deste estado e uma possível invasão de territórios Curdos.

A Rádio Gabriela publica aqui a leitura desse comunicado.

Comunicado:

Olhando para trás para 2020, que começou pouco depois da mais recente invasão de Rojava pelo Estado fascista Turco e da sua subsequente ocupação das regiões de Serekanîyê e Girê spî, a única coisa que se pode reportar é um número incessável de agressões por parte deste mesmo Estado ao movimento de libertação curda, dentro e fora das suas fronteiras e das regiões por si ocupadas.

Vimos ao longo do ano um escalar brutal de violência e crimes contra a humanidade nas áreas ocupadas. Assistimos em horror à bandeira do infame Estado Islâmico erguer-se mais uma vez nestas regiões onde o Estado Turco promove o jihadismo e o genocídio.

Ao longo do verão, assistimos a uma nova invasão e fortes ataques ao coração do movimento nas montanhas livres de Heftanînê, no Curdistão do Sul (norte do Iraque), assim como continuamos a assistir à brutal guerra genocida nas recentes áreas ocupadas em Rojava pelo Estado Turco e os seus mercenários jihadistas. Também foram perpetuados ataques indiscriminados que tinham como alvo a população civil e com o objetivo de semear o medo entre estas, quer no Curdistão do Norte (sudeste da Turquia), quer em Rojava.

No entanto, foi-nos este ano provado mais uma vez o enorme espírito de resistência do povo Curdo e de todos os povos que se confrontam com o Estado fascista Turco. A operação levada a cabo pelo Estado Turco nas montanhas de Heftanînê foi um enorme fracasso e um
importante momento de resistência por parte do movimento de libertação curdo, em que as guerrilhas das mulheres mais uma vez mostram que são a linha da frente desta resistência e a força que encaminha este movimento a seguir em frente.

Os ataques nas regiões de Ain Issa, de Shehba, Afrin, Shengal ou tantas outras regiões do Curdistão provaram-se fúteis contra a resistência heroica e o sacrifício de tantos mártires, que são e serão eternos e nunca quebrarão perante estas agressões.

Quando olhamos de 2020 para 2021, temos razões para recear que este padrão de agressões e promoção do jihadismo e genocídio contra o povo curdo apenas continue.

Nas últimas semanas, o governo de Ancara reuniu-se com as autoridades do governo
autónomo do Curdistão Iraquiano, e debateram uma invasão à região de Shengal, a região
autónoma do povo Yazidi que em 2014 sofreu um enorme genocídio às mãos do Estado
Islâmico. Para além da ameaça de uma invasão a esta região no Norte do Iraque, a região de Derîk no Nordeste da Síria (na zona fronteiriça entre Turquia, Síria e Iraque) também está sob ameaça.

Estas novas ameaças do ditador Erdogan, não são ameaças vazias. Neste momento e nos
últimos dias, assistiu-se a uma crescente movimentação de tropas do outro lado da fronteira e a atividade de drones e dos serviços secretos Turcos também está a aumentar. Por isto tudo é certo de que uma nova invasão quer a Derîk ou a Shengal será iminente.

Apesar disto tudo, preparações também estão a ser feitas do nosso lado das barricadas. Toda a sociedade está-se a preparar para mais um momento histórico de resistência às forças fascistas Turcas. E a moral está elevado.

Agora mais do que nunca é necessário compreender que o problema do estado Turco e a luta do povo Curdo não são coisas regionais e que nada nos dizem respeito. O problema do
fascismo Turco é um problema internacional, pois todos os estados da modernidade capitalista estão envolvidos e são cúmplices das suas ações contra os povos livres do Médio Oriente. E a luta curda não é apenas uma Luta por um Curdistão livre, mas uma Luta por um mundo livre. Não é mais uma questão de apenas libertar os curdos, mas de libertar a Humanidade.

Por isto tudo, como Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão, como grupo
Internacionalista e feminista, apelamos a todos e todas que não fiquemos mais uma vez
simplesmente a assistir a mais uma operação genocida por parte de um aliado de Portugal.
Apesar dos tempos bastante complicados que vivemos devido à pandemia do covid-19, a
máquina estatal do capitalismo não para, as guerras não pararam, os femicídios não pararam, a destruição ambiental não parou, o genocídio não parou.

Apelamos, portanto, a todos os indivíduos e coletivos que mostrem a sua solidariedade para com os povos que enfrentam todos os dias o Estado Turco e por isso se encontram na linha da frente pela Liberdade da humanidade.

Como Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão apoiamos a luta dos povos da região e sentimo-nos profundamente inspirados e inspiradas pela alternativa construída nos territórios do Curdistão, e por isso, juntamente com os povos do Curdistão a nossa resistência será eterna.

Juntxs esmagaremos o fascismo Turco!
Jîn, Jiyan, Azadî!
Serkeftin!

Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão

#RiseUp4Rojava-Portugal

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Gabriela Live – Emissão #5: Requisição Emocional

A Rádio Gabriela está de volta com um segundo live deste 2021, um ano que parece tudo menos aborrecido. Há quem diga que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades: nós gostamos de pensar que com grandes problemas vêm grandes lutas! Estivemos à conversa sobre:

** habitação a partir de pedaços sonoros da leitura da Carta ao Futurx Presidentx da República, do colectivo Stop Despejos e da conversa com Maria João Neves (“Action” Painting) sobre a sua exposição e luta pela habitação. ** requisição civil dos hospitais privados.

Ouvimos os novos episódios das rubricas:
** Canção de luta.
** Horóscopo.
E de um novo podcast:
** DJionísio: Uma cidade nova se constrói cariada.

“Fellow Prisoners” de John Berger – Uma reflexão sobre o presente como prisão.

John Berger morreu em Paris nos inícios de 2017. Tinha mais de noventa anos. Num dos seus livros mais belos,Here is Where We Meet, que começa na sombra do cipreste horizontal do Príncipe Real e que tem como cenário memorável o Aqueduto das Águas Livres, Berger explica que os mortos convivem com os vivos e que o número de vidas que contém cada vida é incalculável. Durante o primeiro confinamento, a sua voz foi para mim uma voz presente e companheira. E foi mesmo, literalmente, porque o texto “Fellow Prisoners” pode-se ouvir na Internet, lido pelo o próprio autor. 

Trata-se de um texto breve, escrito em 2008, que tem circulado em diferentes versões, através de vários meios e que tem sido traduzido em diversas línguas. Entre elas o português. A editora Antígona publicou-o em 2018 numa bela edição com um posfácio de Júlio Henriques, que é também o tradutor. O título escolhido foi Entretanto. Em castelhano foi publicado pela primeira vez pela revista zapatista Rebeldía em Janeiro de 2010, poucos dias depois da leitura do texto no primeiro Seminario de reflexión y análisis organizado pelo CIDECI-UNITIERRA em San Cristóbal de las Casas, Chiapas, México. John Berger, que em 1972 doou às Panteras Negras metade do dinheiro do Booker Prize que tinha ganho com o seu romance G., acompanhou de muito perto a rebelião zapatista

É difícil resumir a obra de John Berger. Pintor, poeta, dramaturgo, crítico de arte, escritor, storyteller no fim de contas, Berger coloca uma atenção no sensível fora do comum. Escreveu sobre os modos de ver, sobre a desaparição das formas de vida rurais na Europa, sobre a migração, sobre o caderno de desenhos perdido de Spinoza, e muito mais. E sempre com um compromisso político e vital desde baixo e à esquerda.  

Em Entretanto, Berger vai à procura de palavras “para descrever o período da história no qual estamos a viver”. E encontra uma figura, uma imagem que condensa o presente: a prisão. “No planeta todo”, afirma Berger, “vivemos numa prisão”. E não é metafórica, diz, mas real. A relação do poder com o espaço tem mudado, e o raio de acção do capitalismo financeiro, amplificado pela velocidade e a transparência panóptica do ciberespaço, reordena a geografia de um planeta-prisão no qual os “fellow prisoners” são a maioria da população. O escritório, o centro comercial, a urbanização, o elevador, são as celas para os assalariados, cada vez com menos tempo e opções, a viver uma vida marcada pela pressão e as exigências da produção de benefícios. O campo de refugiados, o arame farpado da Fortaleza Europa, os apartamentos sobrelotados, os centros de internamento de estrangeiros, são as celas que excluem as trabalhadoras pobres, transformadas em criminosas. 

Os “fellow prisoners” diz Berger, que conheceu muitas pessoas presas e escreveu sobre o amor através das grades, são peritos em calcular “a quantidade de liberdade circunstancial que existe numa determinada situação”. E nunca aceitam o presente como definitivo. Ao contrário dos poderosos, que costumam viver o espaço de uma maneira abstracta, os “fellow prisoners” conhecem bem o interior da prisão, onde as paredes das celas se tocam e estão lado a lado. E isto abre a possibilidade de escuta, de enraizar e de ajuda mútua entre diferentes. Isto, sempre na condição de que os “fellow prisoners” ignorem a linguagem dos carcereiros, que tem por objectivo “mantê-los num estado de incerteza passiva e relembrar-lhes que na vida só há risco e que a Terra é um lugar inseguro”, para espalhar o medo e fomentar a ilusão que a única salvação é individual, quando na verdade é o oposto. “Aos poucos”, diz Berger, “vamos encontrando a liberdade, não fora, mas nas profundezas da prisão”. 

A leitura ou a escuta deste livro, não vai dar nenhuma resposta à pergunta sobre como a pandemia vai alterar a ordem social e política. Mas se calhar a experiência dos confinamentos que estamos a viver pode abrir fissuras vivenciais que façam ressoar o texto com novos ecos e em novos ouvidos. Perante a pergunta sobre como vai ser o mundo depois da pandemia, Entretanto convida a fazer uma reflexão prévia. Qual era o mundo em que vivíamos antes e qual é o mundo em que vivemos durante a pandemia? E qual é a relação deste mundo com a situação presente? E quem é este nós? 

Berger diz: “vivemos numa prisão”. Mas imediatamente depois avisa: cuidado com a primeira pessoa do plural, porque os poderosos utilizam-na para falar ilegitimamente em nome dos oprimidos. A linguagem dos carcereiros, afirma Berger, é “bullshit”, e precisamos de a ignorar porque não nos deixa pensar. “Fellow Prisoners” convida-nos a procurar formas autónomas de perguntar, de dizer e de comunicar de cela em cela. Só assim poderemos conceptualizar a pandemia não como um acontecimento isolado que modifica a partir de fora o curso da história, mas como um fenómeno constitutivamente marcado pelas relações de poder e de dominação existentes. Como argumentou Ángel Luis Lara em Março de 2020, sublinhando as consequências dos modos intensivos de produção agropecuária na circulação de novos vírus emergentes, “não há normalidade à qual regressar quando aquilo que tínhamos normalizado é o que nos levou ao que temos hoje. O problema que enfrentamos não é só o capitalismo em si, mas também o capitalismo em mim. Oxalá o desejo de viver nos torne capazes de ter a criatividade e a determinação para construir colectivamente o exorcismo que necessitamos. Isso, inevitavelmente, vamos ter que fazê-lo, nós, pessoas comuns.  Sabemos, através da história, que os governantes e os poderosos vão esforçar-se para fazer o contrário”.

Tiago Alfaiate

Leitura integral feita por John Berger do livro “Fellow Prisoners”:

Rebels on the Mov(i)e #28 | O Abraço da Serpente

O Abraço da Serpente é uma jornada sinuosa que atravessa o coração da selva amazónica colombiana – e evidentemente o do ser humano – para mostrar um dos temas mais vulneráveis da América Latina, a neocolonização. Antropológico e humanista, o filme vagueia entre o passado e o presente para observar e reflectir sobre o desbravamento e consequente destruição do tempo e da aparentemente incólume floresta.

E é no encontro de duas culturas antagónicas que o filme se completa. Através das trajectórias de dois “exploradores” – a primeira em 1909, a segunda 31 anos mais tarde – manifesta-se o centro nevrálgico dos efeitos da colonização do século XX: a exploração capitalista e o negócio da borracha, a epidemia ideológica cristã na égide das missões jesuítas, a proibição da multiplicidade das línguas e dos dialectos, a violência brutal do Estado e, finalmente, o discurso científico opressor por meio da invenção e desenvolvimento da etnografia.

A terceira longa-metragem do colombiano Ciro Guerra, é então disruptiva com a tradição ocidental e dialoga-nos e a partir do ponto de vista do habitante originário – e não do colonizador, como o cinema nos foi habituando. Embora tivessem sido os diários verídicos dos expedicionários Theodor Koch-Grunberg e Richard Evans Schultes a despertarem o início da navegação, é na figura integra de Karamakate (o único sobrevivente de uma tribo amazónica aniquilada), que se arquitecta a narrativa. Sim, Karamakate é representado como um homem sábio, inevitavelmente prejudicado pelos limites latentes dos seus preconceitos contra o homem branco, e que tem aqui na posição central que lhe foi concedida, a possibilidade quer de reafirmação quer de expiação do seu Ser. Quanto aos dois homens da ciência, espécimes fiéis da intelectualidade da civilização ocidental, acreditam possuir capacidades superiores para auscultar tudo o que lhes rodeia através da serpente dos rios, apesar de incapazes de sonhar, encontrar e compreender o segredo abscôndito da sabedoria mística dos povos ancestrais.

Talvez seja plausível a convicção de que este filme critica de forma tão aberta algumas das causas que explicam hoje o subdesenvolvimento material e espiritual da humanidade.

Teresa Melo

Filme disponível em:https://www.arcoiris.tv/scheda/it/20742/

DJionísio #1 – Uma cidade nova se constrói cariada

“Quando a cidade se começou a vender, as ruas já não tinham um desenho para eu chegar onde queria facilmente, as ruas passaram a dar saída só para museus, monumentos e lojas de galos de Barcelos».

Um programa palavroso-musical feito para as segundas «Jornadas Cidade em revolta: Entradas e Saídas da Ruína Capitalista» (8 e 9 de Dezembro de 2018, na Associação Cochiló – Porto) e ouvido também, meio ano depois, numa sessão Ouvido de Tísico (em Julho de 2019, na Casa da Achada – Lisboa) com transmissão simultânea pela Rádio Paralelo.

Legalização do aborto: vozes da luta

Desta vez a Rádio Gabriela cruzou o oceano e foi até à Argentina para ouvir a voz das companheiras feministas após a grande vitória da legalização do aborto ocorrida há umas semanas atrás. Conversámos com elas sobre a luta titânica que o movimento está a levar em frente na Argentina e no continente latino-americano, assim como dos próximos desafios no caminho para uma sociedade verdadeiramente equitativa e justa.
Lucia, estudante, trabalhadora, educadora popular, relata a sua experiência de feminista dentro do seu espaço de militância, a associação “Aula Vereda”, um colectivo de educadores e educadoras que trabalham juntes num projecto de educação popular com crianças e adolescentes;
Carolina, educadora comunitária, salienta a centralidade do feminismo no seu quotidiano, tanto nos espaços laborais como nos vínculos afectivos;
Juan Da Heras, desenhador gráfico e investigador trans-feminista, destaca a importância de visibilizar também os direitos reprodutivos e sexuais dos homens trans e a enorme importância da participação da comunidade LGBTQI+ na luta feminista;
Victoria, professora de espanhol e bailarina de Tango fala do feminismo como uma força política e social muito poderosa e da enorme responsabilidade de luta e compromisso com os direitos das mulheres e dissidências que ainda temos daqui para a frente.

Prestamos homenagem à luta das irmãs argentinas e à nossa querida Helena Heft, que nos
proporcionou estas entrevistas. E deixamos aqui um texto que uma outra companheira, a querida @Eli Ella, escreveu no dia em que o direito ao aborto seguro, legal e gratuito se tornou lei na Argentina.

“Com enorme comoção aprendo o resultado desta incrível batalha que as irmãs argentinas levaram à frente com dignidade, lágrimas, orgulho e determinação. A partir de agora, o aborto será seguro, legal e gratuito. Uma decisão histórica num país onde uma das
primeiras causas de morte entre as mulheres grávidas é o aborto clandestino. Estima-se em 135 o número de mulheres internadas cada dia nos hospitais argentinos devido às complicações relativas aos abortos ilegais. As que conseguirem sobreviver, levarão consigo durante a vida inteira as marcas permanentes dos tratamentos desumanizantes da violência institucional e obstétrica, perpetradas através do escudo da religião para justificar a violação sistemática dos direitos humanos.
Esta vitória explode num continente onde nascer mulher significa nascer vítima de discriminação, marginalização e violência, um continente que tem uma dívida tão ampla com as mulheres que teve de cunhar um neologismo: feminicídio, do latim femini (mulher) e caedo (matar). Termo usado para se referir aos milhares e milhares de assassinatos de mulheres que são cometidos cada ano por causa do ódio e do desprezo pelo sexo feminino.
Portanto, num continente onde as violações dos direitos fundamentais das mulheres ocorrem com a tolerância e a cumplicidade das instituições que as disfarçam e as incentivam, esta vitória é, mais do que nunca, necessária.
Um ato revolucionário e inspirador para que as ruas de mais e mais países da América Latina e do mundo inteiro se colorem de verde e que a aspiração por uma vida digna e plena se torne realidade para todas.
Obrigada, mulheres argentinas, por despertarem e tornarem o vosso sonho no sonho de todas nós.
Obrigada, por gritarem até sangrarem e por não desistirem nunca.
Obrigada por serem umas mestras tão poderosas e tão valentes.

Hoje, mais do que nunca, é um orgulho me reconhecer mulher.

É LEI”

“Action” Painting, uma conversa com Maria João Neves

No passado 13 de Janeiro de 2021, a Faculdade das Belas Artes da Universidade de Lisboa acolheu uma imensa diversidade de prédios e de casas emparedadas, pombos dentro de salas, e cores intensas que gritaram pelo direito à habitação digna. Os quadros da pintora, poeta e realizadora Maria João Neves, de técnica mista que inclui a collage e a pintura no óleo, e de um estilo que poderíamos chamar de expressionista, foram expostos na Feira dos Reis organizada pela Associação de Estudantes da Faculdade das Belas Artes da Universidade de Lisboa e podem ser vistos no blog da autora  https://desconhecoaminhamorada.wordpress.com/. A Maria João Neves, que há anos luta em diferentes colectivos da cidade pelo direito à habitação, entre os quais STOP Despejos, Habita e a Rede de Solidariedade Ativa de Campo de Ourique, encontra-se actualmente em risco de despejo por parte da Sociedade Imobiliária Someran. Uma equipa da rádio Gabriela visitou a exposição e falou com a Maria João Neves sobre arte, política e mais. O catálogo da exposição pode ser visto neste link disponível no instagram da Ae Fbaul issuu.com/aefbaul/docs/cata_logo_cloud/

E a habitação, caramba?

O colectivo Stop Despejos, escreveu uma carta ax futurx presidentx da República Portuguesa, na qual questiona o facto do tema da habitação não ter sido (praticamente) tratado nos debates e nas campanhas dos partidos políticos. O colectivo relembra ainda nesta carta o estado lamentável das habitações, com problemas de aquecimento, humidade e de qualidade de construção, e as condições insalubres em que muitas pessoas ainda vivem, sem acesso a água canalizada ou electricidade. Esta é a situação da habitação durante esta pandemia e sucessivos confinamentos. E, mais uma vez, pede-se à população para “ficar em casa.” Enquanto a habitação digna não for acessível a todxs, não vai ficar tudo bem. 

Carta completa (também no site da Stop Despejos):

Carx futurx Presidentx da República,

com as eleições presidenciais à porta e quase a completarmos 1 ano de pandemia em Portugal, cabe a todxs nós fazermos um balanço das condições de habitação em Portugal e da forma como elas foram geridas nos últimos meses. Aqui na Stop Despejos é o que pretendemos fazer.

Em primeiro lugar é importante salientar como a crise da habitação foi ignorada pelos moderadorxs dos sucessivos debates e apenas referida superficialmente por algunxs dxs candidatxs de esquerda. Referir e problematizar esta crise implica fazer um diagnóstico sério e implacável acerca dos falhanços da democracia portuguesa nos últimos 46 anos e isso não é algo que interesse à comunicação social e muito menos a um debate para as presidenciais, onde todas as questões giram à volta de temas mais mediáticos e “polémicos” como a pandemia, o confinamento, a corrupção, o adiamento das eleições ou a gestão do sistema nacional de saúde. E, claro, o reaparecimento do fascismo só poderia acentuar a falta de seriedade dos debates mediatizados, com a sua estratégia única que é tentar arrastar todxs xs candidatxs na lama para poder esconder as suas próprias contradições e falta de um programa coerente e sério.

É evidente que a falta de relevância dada aos assuntos da habitação nestes debates constitui um erro político crasso (muito embora, e provavelmente, intencional). De facto, a habitação está directamente ligada aos aspectos mais íntimos e quotidianos de todas as pessoas e não pode deixar de estabelecer um papel determinante no combate à pandemia, à precariedade e à crise de saúde pública que atravessamos.

Ora vejamos:

  • O novo confinamento decreta o teletrabalho obrigatório e fecha todos os estabelecimentos considerados não-essenciais, proibindo as pessoas de circularem na rua excepto para um número bastante preciso e reduzido de tarefas. Torna-se claro que um vasto sector da população irá passar a maior parte do próximo mês em casa (tal como já vinha fazendo aos fins-de-semana e depois das 23h nos últimos meses, e antes disso de forma idêntica em Março e Abril do ano passado). A habitação torna-se um factor mais determinante que nunca;
  • Estamos a viver um Inverno particularmente frio e há ainda muitos milhares de pessoas que não têm as devidas condições de aquecimento em casa ou que, fruto dos recentes despedimentos, da falta de emprego e do fecho de empresas ou mesmo da precariedade que sempre tiveram (mesmo antes da pandemia!), não podem cobrir as elevadas despesas de electricidade. É importante frisar que em Portugal se paga a 4ª electricidade mais cara da Europa tendo em conta o poder de compra das famílias (dados da Eurostat de 2020). O que é que o Governo decide fazer? Um desconto de 10% nas facturas energéticas, como se esse valor significasse algo de substancial no combate à enorme crise que combatemos e que só se irá acentuar nos próximos tempos;
  • A falta de um devido aquecimento nas nossas casas tem a consequência óbvia de piorar a saúde de muitxs nós, sobretudo xs mais idosoxs, o que levará a uma sobrecarga do sistema nacional de saúde (precisamente aquilo que deveríamos evitar a todo o custo). Segundo os dados do Instituto Nacional Ricardo Jorge morrem cerca de 400 pessoas em Portugal todos os Invernos devido ao frio. Além disso, quase um quarto dos portuguesxs declara não ter possibilidades de aquecer devidamente a sua casa;
  • Se no primeiro confinamento decretado em Março de 2020 nos deparámos com o fecho de muitos balneários públicos em Lisboa (e certamente noutras partes do país que não conseguimos acompanhar), verificamos agora a existência de condições inaceitáveis em muitos desses espaços, com caldeiras que não funcionam e forçam xs seus/suas utilizadorxs a tomar banho de água fria em pleno Inverno. Relembramos que para além das centenas de sem-abrigo que vivem na rua e que dependem destes balneários para tomar banho havia ainda “em 2011, data dos últimos Censos, (…) 4000 pessoas a viver em Lisboa em casas sem instalação de banho ou duche”, segundo o Jornal i, a 9 de Abril de 2019). A este número somam-se os milhares de famílias carenciadas que ocupam casas vazias pelo país inteiro, muitas delas sem luz e sem água;
  • Absolutamente inaceitável é também a condição de vida de tanta gente que vive nos bairros sociais e periféricos das grandes cidades, muitas delas vivendo sem água e sem luz Só na área da Grande Lisboa há mais de 200 bairros ilegais, segundo dados do Público em Maio de 2020). Um deles é o Bairro da Torre, que está há anos sem electricidade. Mas também no interior das grandes cidades, escondidas do olhar dos turistas, podemos encontrar bairros como a Quinta do Ferro, na Graça, onde mais de 100 pessoas vivem sem luz, água canalizada e saneamento básico. Como podem estas pessoas proteger-se contra a pandemia? Como poderão muitas delas não adoecer e sobrecarregar os hospitais e o serviço nacional de saúde?;
  • É também importante referir a falta de preparação dos imóveis portugueses face a fenómenos climáticos extremos (sejam vagas de frio ou de calor) como os que vamos sofrer cada vez com mais frequência à consequência da mudança climática. A maior parte das casas portuguesas têm importantes carências de isolamento térmico e problemas derivados de infiltrações, humidade ou apodrecimento nas janelas e paredes são comuns ao 24% da população portuguesa em 2019, segundo dados do Eurostat. Isto tem um custo muito elevado não apenas para a economia e a saúde dos portugueses senão também para o planeta. 

Por todas estas razões, lamentamos o desprezo que foi dado a este tema no contexto geral dos debates presidenciais e dos enunciados políticos dos diversos candidatos, fazendo as devidas excepções axs candidatxs situadxs mais à esquerda, que tentaram abordar a questão no último debate (a própria moderação, responsável pelas perguntas e organização dos debates, não permitiu grandes desenvolvimentos neste campo).

Como bem sabemos, os despejos continuam suspensos até ao Verão (muito embora não nos faltem exemplos de senhorixs que se consideram à margem da lei e que continuam a despejar ilegalmente xs seus/suas inquilinxs, muitas vezes recorrendo ao bullying e à violência). No entanto, e inevitavelmente, esta torneira fechada pelo Governo terá de ser aberta. Até agora as soluções para o pagamento das rendas passaram por políticas neo-liberais que promovem o sobre-endividamento das famílias ao IHRU (e fazendo muitas delas escolher, literalmente, entre ter casa ou ter pão).

Sem necessidade de criar alarmismos, sabemos que a situação será bastante grave para uma grande camada da população. Não é possível continuarmos a ignorar a crise da habitação que já vivíamos antes da crise pandémica, e não é possível acharmos que podemos continuar a viver sob o mesmo modelo legal e jurídico que, por falta de regulamentações estatais, nos levou até aqui.

A liberalização dos despejos, o preço incomportável das rendas, a especulação imobiliária, as condições insalubres em que muitxs vivem, a política de “gueto” que deu origem aos bairros sociais, a criminalização das ocupações, os benefícios fiscais para residentes não-habituais, os vistos Gold, a falta de regulamentação do alojamento local, a turistificação sem limites da cidade, a privatização dos espaços públicos e o esvaziamento populacional dos centros históricos (basta mencionar o caso de Alfama), não podem mais continuar.

Exigimos um novo modelo habitacional e de cidade e exigimos que ele seja discutido publicamente, entre todxs, e não à revelia dos cidadãos e cidadãs como tem sido prática comum do governo e das autarquias deste país.

Com o fantasma do fascismo ressurgindo sobre nós (cuja única mensagem política neste campo é a de nos convencer de que as pessoas fechadas em guetos uma vida inteira e com as piores condições dehabitação são os unicos responsáveis pela própria pobreza e os maiores
culpados da pobreza dos demais) torna-se ainda mais urgente a promoção de políticas que promovam a inclusividade, a solidariedade e a igualdade de acesso à habitação e a todos os bens essenciais.

Esperemos, futurx Presidentx da República eleitx, com os seus limitados, mas ainda assim expressivos poderes, que tenha tudo isto em conta. Afinal de contas, irá prometer cumprir e fazer cumprir o singelo artigo 65 da Constituição.

A nossa casa é a nossa vida e todxs merecemos viver com dignidade!

Atenciosamente,

STOP DESPEJOS
JANEIRO DE 2021

Rebels on the Mov(i)e #27 | Branco sai, Preto fica

O filme cria suas imagens e sons a partir de uma história trágica: dois homens negros, moradores da maior periferia de Brasília, ficam marcados para sempre graças a uma ação criminosa de uma polícia racista e territorialista da Capital Federal. Essa polícia invade um baile black. Tiros, correria e a consumação da tragédia: um homem fica para sempre na cadeira de rodas, o outro perde a perna após um cavalo da polícia montada cair sobre ele. Mas esses homens não se sentem confortados em contar a história de maneira direta e jornalística. Eles querem fabular, querem outras possibilidades de narrar o passado, abrindo para um presente cheio de aventuras e ressignificações, propondo um futuro.

Branco sai, preto fica (2014), de Adirley Queirós.

Horóscopo “Vai ficar tudo bem 2021”

Com a Terra alinhada com a Pandemia e a entrar na 11a Casa, fomos saber o que os planetas nos reservam. Trabalho, Saúde, Amor, Sexo, Dinheiro, Família e Amigos. Uma coisa é certa, Mercúrio ficará em Revolta até à Revolução e 2021 é sem dúvida um ano auspicioso para “conspirar”.
Ouve o que o alinhamento das estrelas rebeldes nos diz ★

Rebels on the Mov(i)e #26 | Saturado

Saturado é um filme em forma de «tríptico». O seu título tem a ver com as experiências de saturação de cor que o filme faz, mas pode ter outros sentidos. «Saturado» pode querer dizer «farto». E também se trata aqui de um filme «cheio» de coisas, entre reflexões «dançadas», imagens de uma cidade vigiada, sitiada ou privatizada, entre voos de pássaros e câmaras de vigilância, ruínas e despejos, e uma série de referências directas ou indirectas ao 25 de Abril, numa montagem desconcertante (usando filmes do tempo da revolução portuguesa de 1974/75) que levanta perguntas incómodas e procura (re)pensar revoltas e emancipações.

http://lugardoreal.com/video/saturado

Livro: “If They Come in the Morning – Voices of Resistance”

Faz hoje 50 anos de que Angela Davis se declarou inocente das queixas de conspiração, rapto, e assassinato de um juiz. Inocentada 18 meses após a sua detenção, no que foi um dos maiores julgamentos políticos da história dos Estados Unidos da América, a sua prisão marcou a luta pela abolição do sistema prisional que continua até hoje e sobre a qual vos convidamos à reflexão.

Oficialmente, afirma-se que não existem prisões nos Estados Unidos. Existe um Departamento de Correcções, e existem “instalações correcionais” [….]. Também não há prisioneiros nos Estados Unidos; existem apenas “reclusos”. Não há certamente prisioneiros políticos nos Estados Unidos; apenas “terroristas” e aqueles que “perpetram violência criminosa” – o que é conhecido na arena internacional como “agressão comunista criminosa”.

Bettina Aptheker em “The Social Functions of the Prisons in the United States”

“If They Come in the Morning – Voices of Resistance” é uma edição da Verso Books, publicado dentro da série Radical Thinkers, que se inicia com a poderosa “Open Letter to My Sister” escrita por James Baldwin a Angela Davis em 1970. Partindo do encarceramento de Davis e das lutas que o rodeiam, esta coleção de textos leva-nos para uma análise mais abrangente e minuciosa do sistema prisional dos Estados Unidos e dos seus objectivos capitalistas.

Apesar do oceano que nos separa, e do meio século decorrido desde a escrita dos textos, é a sua atroz pertinência que torna esta leitura fundamental.

If They Come in the Morning – Voices of Resistance

Incluí contribuições de numerosos radicais como George Jackson, Bettina Aptheker, Bobby Seale, James Baldwin, Ruchell Magee, Julian Bond, Huey P. Newton, Erika Huggins, Fleeta Drumgo, John Clutchette, entre outros/as.

Vivemos numa época em que o silêncio não é apenas criminoso, mas suicida.

James Baldwin em “Letter to My Sister”

Rebels on the Mov(i)e #25 | Planet of the Apes

Planet of the Apes é um filme de 1968 e um clássico de culto do realizador Franklin J. Schaffner. Com Charlton Heston como protagonista, este filme de ficção científica desenrola-se segundo um modelo de parábola descrevendo-nos indirectamente os anseios e e terrores de um mundo nuclear (acometido por uma Guerra Fria que encerrava em si a possibilidade do apocalipse) e onde os problemas da segregação e estratificação sociais adquiriam particular intensidade (sobretudo nos EUA, mas não só). Heston era à altura um defensor muito importante dos direitos civis contra a discriminação, em particular da população afro-americana, bem como de medidas de gun control, antes da sua viragem súbita para a direita e para o partido Republicano, que o tornariam numa espécie de celebridade ultra-conservadora e alvo da crítica de um realizador como Michael Moore (ver Bowling For Columbine).

Em Planet of the Apes, um grupo de astronautas despenha-se num planeta desconhecido depois de uma viagem à velocidade da luz onde hibernaram durante um longo período de tempo. Na sua descoberta do planeta encontram um mundo onde os macacos são os seres civilizados e os humanos os selvagens que são caçados, perseguidos e estudados em laboratórios. O desenrolar enigmático do filme mostrar-nos-á uma sociedade pós-apocalíptica onde as estratificações ontológicas e políticas entre humanos e animais, brancos e negros, homens e mulheres serão evidenciadas e satirizadas.

Não poderemos deixar de pensar, à medida que vemos o filme, que esse planeta habitado por macacos é estranhamente parecido ao nosso… Numa altura de crise pandémica, que é também uma crise política, social e, sobretudo, uma crise de percepção e de subjectividade, parece-me adequada a proposta deste filme, que através da parábola e da sátira põe a nu a possibilidade de destruição da nossa própria realidade.

Rebels on the Mov(i)e #24 | Persépolis

É véspera de Natal, 24 de Dezembro, o dia em que os mais pequenos esperam a chegada de um velho com uma grande barba e vestido com a cor mais bonita que existe – o vermelho. Infelizmente, apesar da semelhança, não estamos a falar de Karl Marx e o vermelho da indumentária não é ditado pela posição política, mas sim por uma simples e bem sucedida operação de mercado da Coca-Cola, que substituiu as suas anteriores roupagens verdes.


Para terminar este preâmbulo, que nada tem a ver com o filme que sugerimos, resta-nos afirmar que acreditamos que o Natal é um momento para ver filmes de animação, sobretudo aqueles que, pela sua veia rebelde, servem de contraponto à maioria de séries e filmes disponíveis nesta época festiva.


Persépolis é um filme de animação de 2007, nomeado para um Óscar, baseado na novela gráfica com o mesmo nome. O filme foi escrito e realizado por Marjane Satrapi – a autora deste relato autobiográfico – e por Vincent Paronnaud. O título é uma alusão à antiga e histórica “cidade persa”.
O enredo inicia-se pouco antes da Revolução Iraniana e dá-nos a conhecer, através dos olhos de uma criança de nove anos, Marjane, como as esperanças de transformação alimentadas pela população foram lentamente defraudadas com a tomada de poder dos fundamentalistas islâmicos. As mulheres vêem-se forçadas a cobrir as cabeças com o lenço, a liberdades da população diminuiu e milhares são aprisionados. A história termina com Marjane, já com 22 anos, expatriada.
No seu discurso de recepção do prémio do júri em Cannes, Marjane Satrapi declarou: “embora este filme seja universal, quero dedicar o prémio a todos os iranianos.”

Cantos Nómadas #6

Francisco Aguiar, Subsolo, Queda; David Graeber, Dívida, os primeiros 5000 anos; Os Homens da Segurança; Michel Luc Bellemare, The Structural-Anarchism Manifesto; Maria Daniela, Cona Cósmica, 1.º Excerto; Miami Vice; Guarda Rios, Improv 1; Quebra,?; Maria Daniela, Cona Cósmica, 2.º Excerto; Luigi Nono, Complete Works for Solo Tape.

Teletrabalho: uma visão 360º…

1.      Introdução

Num contexto laboral em constante mutação devido sobretudo ao desenvolvimento tecnológico, questões capitalistas e imperialistas à escala mundial acentuadas pela globalização, esta mutação torna-se cada vez mais recorrente. São as alterações constantes que surgem no trabalho, tanto em termos de abrangência transversal – em que são englobadas cada vez mais pessoas e territórios, em termos numéricos e de velocidade – como de intensidade com que essas alterações se sucedem.

Com a pandemia de COVID 19, está a ocorrer um aumento exponencial do teletrabalho, o que em certa medida, e em jeito de prevenção, é bastante positivo. Pese embora já existissem em todo o mundo algumas pessoas a trabalhar neste regime laboral, o facto é que na generalidade existe pouca regulamentação nesta matéria, e alguma da existente poderá estar obsoleta ou com enormes lacunas, pois na altura da sua criação não foram contempladas diversas realidades que agora se colocam de uma forma muito mais clara, devido à massa crítica provocada pela diversidade de situações e de insatisfações por parte da classe trabalhadora. É sobretudo o caso das políticas levadas a cabo por parte de multinacionais que procuram, de forma oportunista, acentuar as desigualdades sociais aumentando a precariedade laboral, seja a nível de formas de contratação perversas, incluindo o recurso a empresas de trabalho temporário, como imputando custos à classe trabalhadora quando estes deveriam ser totalmente suportados pelas entidades patronais (que devem assumir todos os encargos relacionados com o trabalho). O que sobretudo estas multinacionais fazem, na realidade, é tirar partido de todo um sistema, explorando a classe trabalhadora e os próprios Estados através de engenharias financeiras, acabando por lucrar com isso, para posteriormente aumentarem o seu capital e distribuírem os seus lucros pelas suas administrações e acionistas.

A legislação, seja em que matéria for, procura colmatar falhas detetadas no sistema quando também há interesse político nisso, pois, por mais importantes que possam ser as falhas encontradas, muitas vezes ninguém as quer resolver na sua totalidade e, como tal, a revisão legal vai sempre atrás dos prejuízos e por vezes ao ralenti. Nesta matéria será necessário balizar as regras gerais à escala mundial, de forma efetiva, transversal e intersectorial, não deixando que a regulamentação do teletrabalho permaneça somente sujeita ao livre arbítrio de cada país, provocando prejuízos e consequências gravosas que podem ocorrer no imediato, a curto, médio e/ou longo prazo. Sabemos que estas recaem sobretudo sobre a classe trabalhadora e sobre os contribuintes, direta ou indiretamente, seja através dos parcos serviços de que necessitam – como a saúde, por exemplo – até aos impostos pagos.

2.      Empresas & Classe Trabalhadora

a)      Custos e organização/reorganização do trabalho

As empresas devem ser responsáveis pela disponibilização de todos os equipamentos necessários à atividade laboral, como computadores e demais equipamentos e aplicações informáticas e devem garantir o seu transporte ou suportar os custos inerentes ao mesmo. Nos casos em que haja necessidade por parte do trabalhador/a, a empresa deve igualmente disponibilizar ou suportar todos os custos relativos aos mais diversos materiais e serviços, tais como: instalação de internet, cadeiras, secretárias, consumíveis, etc.; custos relacionados com o aumento dos consumos de água e eletricidade devido ao teletrabalho devem também ser suportados pela empresa e em momento algum pelo trabalhador/a.

Quando haja necessidade de reconversão profissional, adaptação a novas funções ou a novas formas de trabalhar, a empresa deve garantir a respetiva formação inicial e contínua em condições de segurança (neste caso, tal como acontece com o teletrabalho, deve ser utilizada a teleformação).

Também em contexto de teletrabalho é um desafio e uma obrigatoriedade da entidade empregadora garantir que toda a classe trabalhadora possa continuar a usufruir de condições de higiene e segurança no trabalho, condições de ergonomia e medicina do trabalho; urge também implementar o acompanhamento psicológico de forma pró-ativa, não se restringindo apenas à legislação existente ou a eventuais recomendações que possam advir de entidades reguladoras da saúde, entre outras.

b)     Relutâncias na implementação do teletrabalho por parte de muitas empresas

Muitas empresas tiveram relutância na aplicação do teletrabalho e, ainda hoje, apesar da pandemia existir por todo o mundo, diversas empresas nunca chegaram a implementá-lo – mesmo em países em que este foi declarado obrigatório em determinados períodos. O teletrabalho continua a manter-se como recomendável sempre que possível. Estamos a falar de uma verdadeira responsabilidade laboral e cívica.

   1. Uma das principais relutâncias por parte das empresas está relacionada com os custos de investimento requeridos, como por exemplo a disponibilização de computadores para que as pessoas possam trabalhar em casa, a instalação de internet em determinados casos, e outros equipamentos necessários e afetos às funções.

  2. Outra das razões está relacionada com a forma de gestão dos recursos humanos e o elevado controlo/ assédio que recai sobre o/a trabalhador/a, de que uma boa parte das empresas não está disposta a abdicar. Controlo dos tempos de trabalho: neste aspeto, o controlo é muitas vezes apenas nas horas de entrada ao serviço, já que os tempos trabalhados a mais raramente são pagos de acordo com a lei e com os direitos laborais; quebras de sistema aplicacionais, computadores por vezes lentos e obsoletos e/ou quebras de internet que impossibilitam a realização das tarefas servem muitas vezes para penalizar salarialmente o/a trabalhador/a. Contabilizar tudo… chegando ao ponto de, em muitos casos, se contabilizarem ao segundo as pausas de descanso/tempo de refeição/idas à casa de banho… Para poderem continuar a controlar à distância, as empresas teriam de fazer um investimento em ferramentas informáticas para esse efeito. Este tipo de controlo excessivo é em muitos casos, para além de ilegal, bastante perverso.

3. A questão de licenças informáticas individualizadas poderá também levar a eventuais encargos. 4. Investimentos na segurança informática de forma individualizada e potenciais fugas de dados e por conseguinte o não cumprimento do RGPD – Regulamento Geral de Proteção de Dados é outra questão.

5. Superiores hierárquicos já com fraca capacidade de gestão de equipas e lacunas que poderão, em alguns casos, ficarem ainda mais acentuadas, podem constituir mais problemas no quadro desta nova forma de trabalhar à distância.

c) Novas realidades laborais, também aqui existem realidades distintas…

O que foi e pode voltar a “ser” …

O que foi e não pode voltar a “ser” …

O que foi e não volta a “ser” …

O que foi e pode voltar a “ser” … Existem empresas que já tinham por hábito proporcionar boas condições de higiene e segurança no trabalho e que, com a pandemia, simplesmente reforçaram o que de bom já faziam, atendendo às recomendações e à época em que vivemos, procurando ir ao encontro das necessidades da empresa e da classe trabalhadora. Por outro lado, este tipo de empresas, embora sejam escassas (do meu ponto de vista), por norma já cumpriam ou procuravam cumprir com a legislação nas suas mais diversas vertentes, não aplicando a precariedade laboral mas sim um sistema justo para todos, com progressões salariais, carreira, articulação com sindicatos, comissões de trabalhadores se existentes ou necessário. Acredito que este tipo de empresas, se não degenerarem, estarão aptas para fazer face à pandemia e sobreviverem no mercado, mesmo que para isso tenham ou tiverem de reconverter toda a sua produção, criando serviços para um bem comum (tal como alguns exemplos que temos vindo a conhecer nos últimos meses, como empresas que passaram a produzir de um dia para o outro máscaras, gel desinfetante, etc.). Produzir coisas úteis para a sociedade de verdade e algumas delas com preocupações verdadeiramente sustentáveis para o planeta.

O que foi e não pode voltar a “ser” … Espaços tais como call centers, shared service centers, com centenas e até mesmo milhares de trabalhadores literalmente uns em cima dos outros, sem qualquer distanciamento social, muitos deles a trabalhar em espaços sem luz natural, espaços fechados a funcionar 7 dias por semana, 24 horas por dia e sem arejamento natural, com manutenção do ar condicionado fraca ou quase inexistente. Elevadores cheios em edifícios que chegam a ter mais de 10 andares e cujos espaços comuns são igualmente reduzidos, edifícios que contam com poucas casas de banho face ao número de trabalhadores existentes. Fracas condições de higiene e segurança no trabalho e fracas condições de ergonomia de uma forma geral.

O que foi e não volta a “ser” … Com a forte implementação do teletrabalho a nível mundial (embora em alguns países/setores devido sobretudo à luta sindical, como foi o caso dos call centers em Portugal, em que muitas empresas aplicaram o teletrabalho não de livre e espontânea vontade, mas devido a uma greve no sector de duas semanas, aliado ao elevado medo e grande revolta dos/as trabalhadores/as), todas as empresas foram forçadas a apostar fortemente na informática. Esses investimentos tiveram de ser feitos mais cedo e de forma muito mais intensiva do que muitas empresas pretendiam fazer. Certamente irão continuar a apostar na informatização e otimização dos sistemas informáticos e, neste âmbito, dificilmente haverá retrocessos, bem pelo contrário… Acrescido da robotização, que tem estado a ocorrer faz décadas, a pandemia veio contribuir para muitas inovações informáticas das quais a robótica faz parte e que levou a uma automação em alguns serviços que outrora eram feitos por pessoas. Neste aspeto, as empresas multinacionais que auferem lucros brutais são as que poderão lucrar mais, devido à sua capacidade de investimento, feito com base na precarização laboral através de políticas de baixos salários, exploração das leis existentes, e fraca fiscalização, com conivência dos vários Estados e dos vários e sucessivos governos – não somente em Portugal, mas no mundo inteiro.

Também foram feitos investimentos informáticos em segurança e no controlo da classe trabalhadora à distância, muitas vezes de forma ilegal, como a instalação de câmaras e outros meios remotos de monitorização de equipamentos pessoais do/a trabalhador/a (computadores, telemóveis, aplicações de uso pessoal que foram e estão a ser utilizadas também para fins laborais), quebrando todas as regras de privacidade de cada pessoa. Neste caso das aplicações terá de haver um maior investimento em ferramentas internas de comunicação (intranet), seja para a realização de reuniões online, como para troca de mensagens.

3. Teletrabalho e suas envolvências…

a) O ser humano é um ser que vive em sociedade… sociável portanto!

Sendo sociável e vivendo em comunidade, o teletrabalho leva ao isolamento, gerado pela falta de interação presencial. Por isso, este acaba por não ser o mais adequado para todas as pessoas e muito provavelmente apenas para uma minoria da população. Por outro lado, pode comprometer futuramente o desenvolvimento interpessoal, devido à falta de interação presencial. Haverá ainda assim inúmeras pessoas que, por temerem o contágio da pandemia preferem, dentro do cenário atual, manter-se em teletrabalho. Querem resguardar-se da exposição nas suas deslocações para o trabalho e mesmo nos seus locais de trabalho. Estes espaços tendem cada vez mais a ser espaços pequenos face ao elevado número de pessoas que aí trabalham, como no caso dos call centers, service shared centers (serviços partilhados), fábricas, etc. Os equipamentos necessários para a laboração (computadores, ratos, auriculares, cadeiras, mesas, máquinas e outros equipamentos fabris) acabam inevitavelmente por serem partilhados por bastantes pessoas sem a higienização regular e adequada. Quanto aos espaços comuns (casas de banho, elevadores, locais de descanso e/ou refeição, etc.) são muitas vezes, além de escassos face a tantas pessoas, diminutos, e por isso potenciais focos de elevada contaminação, o que se alia à fraca ou inexistente disponibilização, por parte das empresas empregadoras, de equipamentos de proteção individual.

b) O “eu” e o teletrabalho…Terei ou não perfil…Terei ou não condições… Estas eventuais realidades permanecerão eternamente estanques no tempo e no espaço!

Cada pessoa tem as suas próprias características pessoais e vive ou pode viver num contexto muito específico, por conseguinte há um pouco de tudo… e o que hoje é uma realidade amanhã pode dar uma volta de 180º…

·        Há pessoas mais organizadas e auto-disciplinadas que outras…

·        Há quem por norma já seja sedentário e pode ganhar peso de forma substancial e por acréscimo ficar com falta de autoestima e vir a desenvolver graves problemas de saúde…

·        Há quem tenha o chamado perfil workaholic (trabalhador/a compulsivo/a) e trabalhe mais sem auferir contrapartidas salariais em conformidade com esse tempo disponibilizado “voluntariamente” …

·        Há quem fique simplesmente excluído do sistema (sem forma de ter acesso à internet e outros equipamentos informáticos… e cuja entidade patronal não queira facultar qualquer meio necessário e opte simplesmente por colocar a pessoa em lay-off ou acabe por agilizar um despedimento ilegítimo)…

·        Há quem consiga desligar do trabalho e diferenciar/separar a vida laboral da vida familiar e social…

·         Há quem sofra de violência doméstica e não tenha ferramentas (internas e externas) para ultrapassar a situação…

·         Há quem tenha de cuidar dos filhos ou sejam cuidadores informais de forma parcial ou a tempo inteiro, seja de pais ou outros familiares e/ou pessoas com quem coabitam no mesmo espaço…

·         Há quem tenha animais de estimação e isso possa interferir com a inaplicabilidade do teletrabalho…

·        Há quem possa ter vizinhança barulhenta ou simplesmente tenham obras a ocorrer nas proximidades…

·        Há quem possa viver num quarto sozinho ou com mais pessoas…

·        Há quem tenha uma casa pequena devido à falta de regulamentação que faça face à especulação imobiliária…

·        Há quem tema um despejo ou mudança involuntária de casa devido à perda de rendimentos do agregado familiar…

·        Há quem esteja a viver em casa de familiares de forma voluntária e há quem esteja na mesma situação por ter sido obrigado a isso (motivos financeiros, etc.)…

·        Há quem esteja a passar fome…

·        Há quem não consiga honrar os seus compromissos financeiros (créditos de habitação, automóvel, etc.)…

·        Há quem esteja com depressão…

·        Há quem seja hipocondríaco…

·        Há quem tenha perdido uma pessoa amiga ou familiar devido à pandemia…

·        Há quem tenha familiares e/ou pessoas amigas próximas que estão a passar sérias e graves dificuldades e se encontre, em simultâneo, impotente para as ajudar…

·        Há quem seja doente crónico/de risco ou coabite com familiares/pessoas consideradas população de risco…

·        Há quem reúna boas condições para o teletrabalho…

·        Há quem more perto do local de trabalho ou que não necessite de apanhar transportes públicos…

·        Há quem diariamente perde 2, 3 ou mais horas na sua deslocação de casa para o local de trabalho em transportes sem condições e muitas vezes sobrelotados…

·        Há ambientes familiares diversos, alguns salutares e outros pouco salutares…

·        Há quem tivesse rendimentos mensais já insuficientes e que com acréscimos de despesas (como água, eletricidade), sem qualquer apoio do empregador, fique com o cenário ainda mais agreste…

·        Há quem não tenha forma de ter acesso a comunicações em sua casa por motivos de falta de rede, ou que tenha acessos bastante limitados, ou mesmo casos em que não existe qualquer prestador que disponibilize serviços como a internet na sua área de residência.

Considerações finais:

·        O que pode ser bom para mim ou para ti, pode não o ser para outra pessoa…

 O conceito de qualidade de vida é muito relativo e cada caso é um caso e mesmo cada realidade atual pode sofrer alterações substanciais a qualquer momento. Toda e qualquer implementação do teletrabalho deve contemplar a sua reversibilidade, atendendo a questões opcionais e consensuais, que devem ser legais, leais e idóneas. Cada situação deve ser encarada de forma personalizada e adaptada o mais possível a cada pessoa e não deve ser tratada de forma generalista. Devemos todos estar atentos à legislação existente e à que vai saindo diariamente e lutarmos pelos nossos direitos, de forma preferencialmente organizada, para contribuirmos não somente para tornar real a legislação existente, como também para reivindicar de forma organizada e coletiva as eventuais melhorias que pretendemos obter de forma concertada e mais eficaz. Falo de organizações como comissões de trabalhadores, sindicatos, organizações da sociedade civil.

·        As entidades empregadoras devem procurar implementar e manter o teletrabalho consoante a evolução da situação pandémica. Nos casos em que possa não ser aplicável o teletrabalho por motivos da função em si, ou devido às próprias condições inerentes ao trabalhador/a, a empresa deve assegurar todas as condições de higiene e de segurança com o objetivo real de precaver qualquer forma de potenciais contágios (seja através da higienização regular e eficaz dos espaços e equipamentos, como da manutenção da distância entre as pessoas nos seus postos de trabalho e nos locais comuns, seja através do reajustamento de horários, de folgas e de férias, negociado de forma consensual e de acordo com a lei, em conjunto com a classe trabalhadora e os seus representantes). Esta situação não pode nem deve ocorrer de forma alguma através do assédio, uma estratégia sobejamente conhecida da classe trabalhadora e praticada frequentemente por parte das entidades empregadoras. As condições de monitorização do teletrabalho não devem invadir a privacidade das pessoas nem fomentar as irregularidades e desigualdades sociais perante as leis e o bem comum.

·        O futuro poderá passar por soluções híbridas em que parte do trabalho será realizado de forma presencial e outra em regime de teletrabalho. Certamente haverá um número de pessoas, talvez mais reduzido nalgumas empresas, que após esta experiência já não voltarão a trabalhar presencialmente de todo; enquanto outras empresas, para reduzirem encargos com instalações, apostarão 100% no teletrabalho, livrando-se deste tipo de encargos fixos. Haverá também empresas que voltarão à antiga normalidade, apostando única e simplesmente no trabalho presencial. Haverá de tudo um pouco. Ocorrerá certamente a deslocalização de algumas pessoas que vivem nos grandes centros urbanos para outras regiões, onde os custos de vida são menores do que nas grandes cidades. Por outro lado, abre-se uma janela de oportunidade e simultaneamente de precariedade, de dimensões potencialmente incalculáveis, pois uma pessoa com o teletrabalho pode estar a trabalhar para qualquer país, mas também a entidade empregadora pode contratar onde quiser e com as condições que quiser (procurando contratar pessoas em regime de teletrabalho em países onde são pagos salários mais baixos, com baixa regulamentação laboral e fraca fiscalização ou benefícios fiscais).

·        Os sindicatos, as comissões de trabalhadores e outras organizações que lutam e defendem os direitos da classe trabalhadora devem adaptar-se de forma rápida para garantir o acompanhamento desta nova realidade e, além das lutas presenciais, devem implementar novas formas de luta à distância que podem não ter sido contempladas até à data, tendo em vista obrigar os governos a nível internacional a aplicar as leis existentes e a rever a legislação do teletrabalho. Ao mesmo tempo devem ter cada vez mais como um dos seus principais focos a criação de sinergias à escala mundial e intersectorial, por forma a serem muito mais eficazes, eficientes e consequentes nas suas lutas.

Mais informações úteis:

Living, working and COVID-19 First findings – April 2020 Work, teleworking and COVID-19 https://www.eurofound.europa.eu/sites/default/files/ef_publication/field_ef_document/ef20058en.pdf

Este artigo encontra-se disponível para download no Cidac – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral: https://cidac.pt/files/9915/9912/1668/boletim_agosto.pdf?fbclid=IwAR2gOiPmZqkpNfJE-xWelxm8vM5BkOoBKceerInWOHJmGCC-jCH7cxI6Hpc

Danilo Moreira, Presidente do Stcc, tás logado? (Sindicato dos Trabalhadores de Call Center)

Rebels on the Mov(i)e #23 | Afirma Pereira

Afirma Pereira é um filme de 1995, baseado no livro homónimo publicado apenas um ano antes por Antonio Tabucchi e que é talvez a obra mais famosa do escritor toscano. Afirma Pereira, de facto. Um filme interpretado magistralmente pelo actor italiano “Marcellino” Mastroianni.

É a história de um jornalista, gordo e diabético, extremamente comum, que come omeletes e limonada todos os dias no mesmo bar, o Orquídea café. Está obcecado com o medo da morte e a memória da sua esposa, que morreu de tuberculose.

O contexto histórico é 1938, quando Portugal se encontrava sob a ditadura de António Salazar. “Era o dia 25 de Julho em mil novecentos e trinta e oito, e Lisboa brilhava no azul de uma brisa atlântica, afirma Pereira”. Pereira edita a página cultural de um jornal local, o Lisboa. É um homem apático, politicamente despreocupado e completamente desinteressado pelos assuntos sociais do seu país.

Tudo isto muda quando ele entra em contacto com um jovem escritor italiano, Francesco Monteiro Rossi, que nos seus obituários exprime facilmente as suas tendências políticas. Os acontecimentos da sua vida vão mudar rapidamente, tanto por causa do conhecimento de Monteiro Rossi, como por causa do encontro com o Dr. Cardoso. Este último apresenta-lhe a teoria da “confederação de almas”: em cada pessoa coexistem várias almas sobre as quais uma mais forte domina, mas pode acontecer, contudo, que uma destas almas se fortaleça ao ponto de expulsar a dominante. O resultado desta partilha é uma metamorfose completa do indivíduo. Pereira começa a tomar consciência da opressão do regime, da censura e do clima de violência.

A viagem de Pereira leva-nos a reflectir sobre os conceitos de liberdade e prisão. Pereira, na sua solidão, nas suas obsessões e na sua inépcia pensa ter encontrado a sua liberdade, optando por não ver a opressão e a censura, instrumentos necessários para levar a cabo a ditadura. Pereira vive assim sufocado entre os seus hábitos e a presença do regime.
Este filme, baseado no livro e na história de Pereira, pode ser tomado como uma contextualização da formação de oposição contra o sistema dominante. Vivemos uma crise sindémica (pandemia acompanhada por uma crise económica e social) onde se experimenta formas de controlo social muito semelhantes a ditaduras. Assim, esperamos que este filme seja uma inspiração para aqueles que querem realizar actos de coragem e questionar a nossa indiferença, em muito semelhante à do protagonista Pereira.

Cantos Nómadas #5

ALARMA#4, Rádio Sonoplasmática; Flower, Francisco Seara Aguiar; Merry Go Round, The Big Church of Fire; David Graeber, Dívida, os primeiros 5000 anos; John Zorn plays Cobra;
Shoshana Zuboff, A era do capitalismo de vigilância; Random Post-rock Recording, STOP,
Porto; ALARMA#4, Rádio Sonoplasmática; The Songlines, Bruce Chatwin; HHY & The Makumbas, Desertfest 2019.

Gabriela Live – Emissão #3

Este último Domingo estivemos nos Estúdios Sirigaita a levantar questões e a espicaçar debates naquele que provavelmente foi o último programa de mixórdias do ano da Rádio Gabriela. Sintoniza-te!

Falámos de:
i) Novas realidades laborais. O que é que é isso do trabalho ao sabor de uma app?

ii) Aniversário da Sirigaita e da resistência dos espaços auto-geridos.

iii) Acordos e desacordos climáticos.

iv) O que se passa noutras geografias, com paragens:
– temos um correspondente em Roma!

Tudo bem salpicado de óptimas malhas e, quiçá (a esperança é a última a morrer), da melhor gastronomia local.

A propósito do aniversário de um espaço auto-gerido.

A Sirigaita é uma associação cultural situada em Lisboa, no Intendente, no início da rua dos Anjos. Muitos colectivos autónomos – feministas, anti-racistas, anti-fascistas, ambientalistas, LGBTQ+, grupos de apoio mútuo, grupos artísticos – ali reúnem, debatem, fazem assembleias e preparam acções. É ainda a sede da associação Habita, que luta pelo direito à habitação. Neste lugar onde também se pode beber um copo já houve centenas de concertos, exposições, debates, filmes, performances. Ali se encontra uma cooperativa de consumo de produtos biológicos (a Bela Rama), ensaia um grupo de teatro comunitário e funciona uma pequena livraria. Quando em Março a Sirigaita foi obrigada a fechar portas, por causa da pandemia, ali surgiu a Rádio Gabriela. Lugar de convívio e de confluência de energias várias, políticas, sociais e artísticas, é um espaço que se assume como feminista e livre de apartheid israelita. A propósito do seu segundo aniversário, a Catarina, uma das Sirigaitas, escreveu este texto:

É o aniversário da Sirigaita e não consigo decidir se é a celebrar que o devemos passar.

Celebrar, sim, esta casa que se construiu colectivamente. Este espaço de cultura, de luta, de festa, de solidariedade, de convívio, de olhar crítico, de encontro, de livros, de pensar e fazer em conjunto, de experimentar sem olhar ao lucro, de amizades, de arte, de escuta, de comunidade no centro da cidade.

Mas sem ilusões: este é um espaço quase permanentemente em risco, porque está inserido numa zona de rápida gentrificação, porque as autoridades locais não têm interesse em proteger, quanto mais em apoiar as colectividades e associações de forma a que consigam manter-se em actividade, e deixa-as fechar para que hotéis e empreendimentos de luxo nasçam onde elas existiam. Mas também porque as pessoas à nossa volta têm as vidas fragmentadas e têm no seu viver uma luta tão grande que lhes resta pouca energia para construirem a associação cultural de que querem usufruir. Assinalar dois anos de Sirigaita é assinalar dois anos de luta, dura e alegre, tirada a ferros mas fecunda.

Se, quando abrimos portas, em 2018, sabíamos que íamos ser um lugar querido, não imaginávamos a procura nem a quantidade de solicitações que íamos ter. É uma ilusão pensarmos que as nossas ideias não precisam de uma casa, que sobrevivem em encontros online ou nos nossos quartos em casas partilhadas. É em lugares como a Sirigaita que se ensaia, que se reúne, que se planifica e que se apresenta trabalho que não quer esperar por espaço no mercado.

Este é o nosso lugar, um lugar contra a lógica e ideologia regentes, que experimenta outras formas de organização, que se baseia nos valores da solidariedade e da auto-gestão. Mas que não consegue escapar totalmente a um sistema opressor que não olha a meios para protecção da propriedade privada e prefere que esta esteja morta mas a render do que viva se não der lucro.

A Sirigaita não paga renda desde Março. Não paga porque não tem como pagar. De momento estamos protegidxs por uma lei que nos permite acumular dívida até um momento posterior em que, tudo indica, continuaremos a não ter como pagar. A certa altura perguntámo-nos se queríamos pedir ajuda financeira às e aos nossxs sócixs, mas achámos que, numa altura em que tanta gente à nossa volta ficou sem chão, não era prioritário pagar aos senhorios. Fizemos bem. Mas teremos uma luta e pêras pela frente, ou uma oportunidade para pôr um pauzinho na engrenagem. Esta casa quer-se, como todas as casas, por muito tempo. E em breve, cheira-me, vamos ter de fazer valer este desejo com a nossa força.

Que essa força cresça! Que a Sirigaita seja a casa de cada vez mais gente, de cada vez mais ideias e que seja construída sempre por mais gente com ideias. Que continue por muitos anos a evitar os tiques do mercado e dos grupinhos fechados, a dar lugar às lutas e às expressões que se constroem nesta cidade. E que um dia ganhe janelas, para respirarmos melhor em conjunto!

Catarina Carvalho

#FightFor1Point5

Vários colectivos saíram à rua nos dias 11 e 12 de Dezembro, a fim de contestar o Acordo de Paris e demonstrar o seu falhanço, ao final de 5 anos. Em diversos países gritou-se pelo fim da hipocrisia dos nossos governos, que prometeram metas que não tinham a intenção de cumprir: evitar uma subida da temperatura média global de 2 graus; promover o baixo desenvolvimento de emissões de gases de efeito estufa e avançar com projectos de desenvolvimento “sustentável”, tentando convencer o mundo (?) que adoptando alguns termos poderiam mudar as coisas…

Face à ineficácia dos governos, propõe-se hoje um novo acordo assinado por colectivos internacionais e nacionais: o Acordo de Glasgow.

Estivemos com a Climáximo que saiu hoje à rua e nos falou do Acordo de Paris, que foi feito para falhar.

#FightFor1Point5

Direito a existir, liberdade para ser e fazer acontecer…

Após um longo processo histórico passando pelo Cilindro de Ciro (539 a.c.), Carta Magna (1215), a Petição de Direito (1628), a Constituição dos Estados Unidos (1787), a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1798), e a Declaração dos Direitos dos Estados Unidos (1791) chegámos aos direitos humanos atuais. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) foi adotada pelas Nações Unidas no dia 10 de dezembro de 1948. Um processo complexo com avanços e retrocessos traduzidos em lutas eternas para que no seguimento das palavras escritas estas sejam cada vez mais modos colectivos de vida com carácter universal. Como forma de assinalar o dia 10 de dezembro (Dia Internacional dos Direitos Humanos) deixamos esta reflexão.

Direito a existir, liberdade para ser e fazer acontecer…
Que mundo queremos? O que está por fazer? Que contributo podemos dar?

Somos convidados a viver assim de repente sem mais nem menos, e dá-se início a todo o processo do existir e do interagir com tudo e com todos quer queiramos quer não, falamos aqui de todo o nosso percurso no tempo e por tempo indeterminado neste Mundo não tendo nem hora nem data marcada de fim.

Ao longo deste nosso ciclo existencial somos educados, deseducados pela família, sociedade, moldados por tudo o que nos rodeia não abdicando de parte do nosso cunho pessoal, de alguma forma através do peso da personalidade individual de cada um…

Nascemos livres e iguais, mas por vezes com severas restrições e condicionados por diversos factores, tais como, a época, o país, a cultura etc… onde nos encontramos inseridos por exemplo, nascer na Venezuela, Coreia do Norte nos dias de hoje é totalmente diferente de nascer em Portugal, no entanto, ao longo da história haverá sempre avanços e retrocessos no que diz respeito aos Direitos Humanos dado estes uma vez adquiridos não estão garantidos de forma vitalícia.

Consciente e/ou inconscientemente discriminamos e somos discriminados sendo este um processo de evolução e/ou mutação ao longo do tempo marcado por um crescimento/degeneração individual e coletiva dependendo do meio onde estejamos e da influência marcada pelo exterior à escala mundial.

Abominam-se práticas de tráfico humano, a escravatura e tortura ainda assim nos dias de hoje elas existem, em alguns casos com punições e em outros casos com a conivência e o interesse de determinados “chefes do mundo, chefes de estados”.

Através do uso da força militar, policial fazem-se dispersar pessoas reprimindo-as, colocando em causa a democracia, liberdade de expressão e de pensamento, visando aniquilar quaisquer formas de reunião/organização que não se coadunem com interesses de quem está no poder. Prende-se de forma arbitrária pelo simples facto de serem opositores de regimes ditadores …colocando em causa o facto de sermos todos iguais perante a lei e por vezes sem direito a julgamento justo ou mesmo com esquemas de corrupção por detrás.

A estabilidade e a instabilidade mundial a nível político, económico, o controlo sobre o território, sobre as populações e normas de segurança coloca em causa a privacidade a que temos direito, põe à prova a ambição do ser humano em alcançar um mundo livre e justo. É um desafio constante a distribuição/redistribuição da riqueza entre todos garantindo um sistema com equidade no tratamento de questões relacionadas com a segurança social, condicionando o acesso a princípio básicos de subsistência, como o direito a habitação, educação, saúde etc…

A exigência/instabilidade laboral e as oscilações de mercado constantes restringem em grande parte o assumir de compromissos mais sérios no que diz respeito à liberdade de constituir família em condições dignas de subsistência. 

Dizem-nos que temos direitos, mas onde quer que vamos deparamo-nos com políticas que restringem o direito a uma nacionalidade, limitam a liberdade de movimento, o direito ao asilo acabam por ser também uma responsabilidade de todos nós, ninguém nos pode tirar os nossos direitos. Procuramos de forma constante a felicidade e o bem-estar próprio e também para e com aqueles que mais gostamos, por vezes estamos solidários com situações das quais tomamos conhecimento e com as quais nos preocupamos, queremos nos divertir, queremos ter liberdade para criar sem sermos plagiados,  ambicionamos que o resultado das nossas criações sejam divulgados/replicados e igualmente reconhecidos.

Queremos agregar valor de alguma forma à sociedade em geral e não cairmos em esquecimento em tempo algum … queremos ser eternos…

Texto de Danilo Moreira, activista pelos Direitos Humanos das palavras à sua aplicabilidade no terreno!

https://www.humanrights.com/



Canção de Luta #5 “Gorizia”

“Gorizia”, canção antimilitarista do início do século, levantou grande polémica em Itália nos anos 60 quando voltou a ser cantada no Festival de Spoleto por Michele Straniero no espectáculo “Bella Ciao”. Feridas da Primeira Grande Guerra Mundial que esta canção reabriu.

Pelo Coro e Banda della Scuola Popolare di Musica di Testaccio.

Cantos Nómadas #4

Planningtorock, The Breaks; David Graeber, Dívida, os primeiros 5000 anos; Jeffrey Paul, Your Computer Isn’t Yours; Diogo Neto, Leonardo Janeiro e et al., Mal Menor; Shoshana Zuboff, A era do capitalismo de vigilância; Radio Klaxon, Ça y est on a gagné; Marc Rebillet, Bisexual Jesus; William Basinsky, The Disintegration Loops.

Rebels on the Mov(i)e #22 | They live

They Live é um filme americano de ficção científica de 1988 escrito e realizado por John Carpenter, baseado no conto “Eight O’Clock in the Morning” de Ray Nelson, de 1963. O filme acompanha a história de um vagabundo que descobre, através de óculos de sol especiais, que a classe dominante é composta por extraterrestres que disfarçam a sua aparência e manipulam as pessoas para consumir, procriar e conformar-se com o status quo através de mensagens subliminares nos meios de comunicação social.


O desempregado John Nada deixa Denver para se mudar para Los Angeles em busca de um emprego. É contratado como trabalhador da construção civil num estaleiro e, com a ajuda do afro-americano Frank Armitage, encontra alojamento num acampamento de barracas na periferia da cidade. Pouco depois da sua chegada, Nada nota uma série de acontecimentos estranhos: um pregador religioso que sofre de cegueira dizendo às pessoas para “acordarem”, mensagens estranhas de um homem que aparece como interferência na televisão e um helicóptero da polícia inspeccionando continuamente o local. Nada encontra vários equipamentos científicos, uma inscrição “Eles vivem, nós dormimos” e uma caixa escondida na parede, mas é obrigado a sair quando o pregador chega, que o deixa ir depois de lhe tocar no rosto e nas mãos.

https://www.youtube.com/watch?v=2sHp_WUF2tM&t=1708s

VIH e SIDA. Conversa sobre discriminação nos dias de hoje.

No Dia 1 de dezembro assinala-se o Dia Mundial da Sida. Momento anual criado em 1988 para prestar tributo aos que morreram, aos que vivem com VIH e reconhecer o que falta fazer. Desde os anos 80 até agora a realidade da infeção pelo VIH mudou. Os tratamentos e a prevenção evoluíram, mas o estigma e a discriminação continuam, criando uma invisibilidade que custa ultrapassar.

A Rádio Gabriela esteve à conversa sobre o tema da discriminação e da invisibilidade, a propósito do Dia Mundial da Sida e do lançamento da campanha #zerodiscriminação da Lisboa Sem Sida.

Com Paolo Gorgoni da iniciativa Lisboa Sem Sida, Maria João Brás do GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos, Eduardo Lima do CheckpointLx/GAT e João Brito do CAD – Centro Anti-Discriminação VIH e SIDA.

Gabriela Live – Emissão #2

A segunda emissão foi este Domingo dia 29 de Novembro.

Neste segundo live:

– da condenação de 8 agentes da PSP por agressões a jovens da Cova da Moura,
– dos EUA, com os seus movimentos sociais de base a eleger e revirar os olhos a Biden simultaneamente,
– do Orçamento de Estado e do que deixa por fazer em termos de políticas de habitação
– do 25 Novembro, ou seja, do dia mundial para a eliminação da violência contras as mulheres,
– de uma canção de luta,
– de podcasts que tens de ouvir: Cantos Nómadas,
– do que vier à rede!

Gabriela live é um programa para escutar os sons e os movimentos do mundo, com depoimentos e reportagens, música e pensamento livre.

Cantos Nómadas #3

Cantos Nómadas, um podcast de Pedro Augusto.

Sleaford Mods – Discourse; David Graeber, Dívida, os primeiros 5000 anos, continuação da introdução tradução de Pedro Augusto), com Steve Reich, Variations for Winds, Strings and Keyboards; Leonardo Janeiro, Herança, com Das 13:23 às 05:00, do álbum Recolhimento N.º 1, de Diogo Neto Machado; O Peregrino, de J.A. Baker, trecho de Os primórdios, tradução de Andreia Farinha, com Olivier Messiaen, Catalogue d’oiseaux, Book 7, No.1 Buzzard; Poema Muu, de Evelyn Reilly, tradução de Nuno Marques, com Turtle Dreams, de Meredith Monk; Radio Panik, Bruxelas, excerto de “La cloche de bois”.

Marcha pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, 25 Novembro

A Rádio Gabriela foi no último dia 25 de Novembro à concentração no Rossio falar com algumas associações, grupos e colectivos que participam na Marcha Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres.

Entrevistámos intervenientes da Umar, do Clube Safo, das Mulheres pelo Direito à Habitação, e da Rede 8 de Março.

Imagem de Las Piteadas.

Rebels on the Mov(i)e #21 | Another Lisbon Story

Estamos no meio de uma pandemia, dizem todos… mas talvez não tenhamos percebido que já entrámos numa segunda fase e que o termo correcto seria, talvez, Sindemia ou melhor, uma caracterização da integração mútua dos problemas de saúde da população no seu contexto social e económico. Através deste filme vamos tentar imaginar o que pode significar viver neste contexto histórico com o Inverno ao virar da esquina, nas mesmas condições que estas pessoas.

Another Lisbon Story foi filmado há mais de quatro anos para denunciar esta realidade. Naquela altura viviam lá 62 famílias – cerca de 300 pessoas – entre mulheres, crianças, homens, idosos, pessoas com deficiência e alguns casos com graves problemas de saúde. Num bairro sem condições mínimas de higiene, sem saneamento básico, com casas precárias, e nem sempre com água potável disponível. E, quatro anos mais tarde, o Bairro da Torre continua lá e em piores condições do que quando o realizador o filmou.

O encontro entre a comunidade e um grupo de investigação universitária iniciou um processo de inclusão na sociedade deste bairro estigmatizado com o objectivo de criar uma futura consolidação e integração através de planeamento urbano partilhado: entre práticas de auto-produção comunitária no seu habitat e de movimentos de cidadãos em defesa do seu direito à habitação, ao lugar e à cidade.

Link uteis:https://www.insider.pt/2017/11/26/claudio-carbone-e-o-cinema-militante-de-another-lisbon-story/

https://www.archdaily.com.br/br/796757/documentario-another-lisbon-story-narra-a-vida-em-uma-favela-de-lisboa

https://www.publico.pt/2017/02/20/video/as-portas-de-lisboa-um-bairro-de-barracas-20170220-130107

Cadáver Esquisito #1

Do que é que não se anda a falar por causa do que se anda a falar?

Um cadavre exquis dos temas menos batidos do momento, feito em dia de recolher obrigatório, a partir de muitas casas diferentes. O desafio era cada um falar sobre um tema sobre o qual não encontrasse eco no que anda p’raí. O resultado? Ouve aqui:

Cantos Nómadas #2

Cantos Nómadas, um podcast de Pedro Augusto.

Panther Modern, Kick it out; David Graeber, Dívida, os primeiros 5000 anos, Cap. 1, com o tema Das 23.13 às 05, de Diogo Neto; Schubert, Ave Maria shittyfluted; Por trás da fachada: estratégias e padrões de argumentação populistas de direita, com o tema Nível de Fumo, de Serpente; Leonardo Janeiro e Afonso Patinhas; Trechos de Radioart Residency, Halle, Alemanha; African fart insane music, artista não identificado.

Barulho pela Habitação

Na quinta-feira, 12 de Novembro, a Acção pela Habitação (coligação de vários coletivos que lutam pelo direito à habitação e à cidade na Área Metropolitana de Lisboa) esteve em frente ao Ministério das Finanças para entregar uma carta aberta com exigências para o Orçamento de Estado 2021 e as verbas atribuídas à habitação.

“A população teve uma queda de rendimentos brutal, o que notamos é que as rendas apesar de não continuarem a subir ao ritmo galopante de antes mantêm-se quase iguais.”

“O actual governo e o anterior, prometem alguns investimentos em termos de habitação pública e em termos de apoios também para as pessoas pagarem as rendas e depois não os cumpre, não os executa (…) numa estatística de Julho, por exemplo, no Programa Primeiro Direito, o governo executou 8% dos valores prometidos que é um valor baixíssimo.”

“…fartos de uma crise que não foi preparada, uma crise sanitária que podia ter sido prevenida através de investimento na saúde pública, através de investimento no trabalho a sério e não no trabalho precário, através de casas e habitações dignas.”


Carta Aberta

Se a crise de habitação já era uma lamentável realidade antes da crise pandémica, atualmente um número crescente de pessoas vê ainda mais difícil e incerta a sua situação habitacional. O desemprego e a enorme perda de rendimentos tem deixado muita gente à beira da rotura, os aumentos salariais e das pensões são irrisórios e a possibilidade de entreajuda familiar, já desgastada pela ultima década, deteriora-se. Muitas pessoas não conseguem pagar as rendas e sofrem enormes pressões dos senhorios. Muitas não aguentam e abandonam as casas que habitam ou são expulsas por proprietários que não cumprem a suspensão dos despejos.

As medidas para responder à crise de habitação têm sido insuficientes do ponto de vista estrutural ou na resposta à emergência do momento. Se assim não fosse, não teríamos o aumento do número de pessoas sem abrigo (que se amontoa em ginásios, abrigos colectivos, ou vivendo sem local fixo), não teríamos um número crescente de pessoas a viver em barracas sem água sequer para lavar as mãos, não teríamos tantos jovens desempregados a abandonar as casas que partilhavam e que deixaram de conseguir pagar, não teríamos famílias que perdem a casa, não teríamos o aumento de famílias em sobrelotação e o aumento da infecção Covid19 dentro de casa. Os programas de suspensão da renda duraram menos do que o necessário e transformaram-se em dívida, o apoio ao pagamento da renda pelo IHRU mostrou o quão limitado era.

Apesar da quebra do turismo, o preço das casas não caiu o necessário para que o mercado se torne razoável e seja novamente possível habitar de acordo com os rendimentos. Esta crise veio reafirmar a enorme vulnerabilidade económica de um país que se deixou tornar dependente deste sector de baixa produtividade, sector que paga mal e assim contribuiu para a crise e desigualdade na habitação.

O mercado imobiliário esteve em alta durante vários meses da pandemia e os vistos gold, ao contrário das promessas do governo, não acabaram. Aproveitando-se deste momento de crise, os fundos preparam-se para açambarcar os chamados activos imobiliários.

Os construtores e promotores imobiliários vêm pedir mais subsídios, mais isenções fiscais e parcerias para continuar a construir e a fazer aumentar a oferta no mercado privado. Querem, com o apoio do dinheiro público, continuar a ganhar dinheiro, promovendo a ideia falsa de que é o aumento da oferta privada de habitação que vai resolver os problemas de acesso a habitação. O aumento de oferta de habitação das últimas décadas nunca fez baixar os preços e não é agora que o fará. Os especuladores, responsáveis pela crise de habitação, não podem ser recompensados com dinheiro público para fingir que fazem parte da solução. As soluções devem ser habitação pública e regulação contra a especulação.

O governo anuncia, recorrentemente, que agora é que vai promover a habitação pública, agora é que vai converter património do Estado em habitação, agora é que vai acabar com os Vistos Gold. No entanto, essas promessas não saem do papel há vários anos. Por outro lado, preocupa-nos que no decreto-Lei n.º 81/2020, do início do mês de Outubro, se tenha acrescentado que o IHRU passa a participar em “sociedades, fundos de investimento imobiliário, consórcios, parcerias públicas e público-privadas e outras formas de associação (…)”. Esperemos que esta não seja a via privilegiada de resolução do problema de habitação: subsídios públicos ao negócio privado que não resolvem o problema da habitação.  Gasto público deve servir para habitação pública.

As promessas do governo têm alguns problemas fundamentais:

1) o governo não tem vindo a cumprir os seus compromissos em matéria de habitação:
a) estamos praticamente no fim de 2020 e, ao contrário do prometido, não acabou com os vistos gold;
b) os anúncios de habitação pública, através do programa Primeiro Direito, tem níveis de execução orçamental insignificante e assim, nos últimos anos, nunca foi sequer cumprido o magro orçamento para habitação pública que tinha sido anunciado e votado por uma maioria parlamentar; E fica por saber qual a capacidade das autarquias, altamente pressionadas, para acompanharem a parte que lhes compete (cerca de metade do investimento necessário).
c) para o ano de 2021 não é sequer claro no orçamento qual o valor que será afeto a esta área.

2) Por outro lado, não é suficiente anunciar o desenvolvimento de habitação pública. Além da demora deste projeto em sair do papel, será sempre um processo de médio/ longo prazo, em quantidade insuficiente para responder às necessidades da crise social e habitacional que temos hoje. Apesar da importância fundamental do aumento do parque público, a habitação em Portugal está esmagadoramente no sector privado e, por isso, é fundamental regular as rendas e dar estabilidade aos contratos desde já. É urgente e determinante impedir rendas abusivas e a espoliação das pessoas através da remuneração especulativa de rendas que em nada contribuem para o desenvolvimento económico do país.

3) A continuação dos vistos gold e do programa de fuga fiscal, o regime dos residentes não habituais é responsável pelo desgaste do mercado de arrendamento, orientação para a venda a preços nada têm que ver com o contexto de quem vive e trabalha em Portugal.

4) Programas para alojamento de emergência e outros anunciados ficam sempre muito aquém das necessidades. São pequenos programas que nunca serão suficientes para responder à dimensão de um problema que é estrutural. O Porta65 Jovem anuncia subsídios às rendas, no entanto apenas subsidia rendas com determinados limites que não existem na realidade, e por isso, não funciona onde faz mais falta.

Perante a crise pandémica e todos os problemas económicos e sociais decorrentes, a habitação não pode continuar a ser fator de agravamento da pobreza e da desigualdade. A política de habitação é crucial para responder à crise sanitária, social e económica.

Por isso neste mês de discussão do orçamento vimos relembrar a questão da habitação a todas as forças parlamentares e ao governo. O silêncio sobre este tema é ensurdecedor. Por isso HOJE fazemos barulho pela Habitação!

Exigimos:

– Investimento em habitação pública e um orçamento que cumpra, que execute, efectivamente, o que diz;

– Clareza na definição das rubricas sobre investimento em habitação pública no Orçamento do Estado, de forma que a sociedade consiga estar informada e envolvida nessa discussão;

– Que as verbas públicas não sirvam para parceiras público-privadas ou para financiar o mercado privado especulativo ou as chamadas “rendas acessíveis”, que não o são;

– O fim imediato dos vistos gold e do regime dos residentes não habituais;

– A regulação de preços para acabar com rendas abusivas; A regulação de tetos de renda não pode continuar a ser tabu: Berlim e Catalunha estão já a regular os preços do arrendamento, e esta legislação vai estender-se a todo o Estado espanhol.

– Diferenciação entre grandes e pequenos proprietários, impondo aos grandes especuladores responsabilidades, impedindo que tenham casas vazias e promovam despejos;

– A requisição das casas que são deixadas vazias, para responder à emergência na habitação;

– o cancelamento das rendas para quem não pode pagar durante a crise sanitária e social;

– O impedimento de despejos durante a pandemia, mas também para além desta, sempre que não haja alternativa de habitação adequada.

Rebels on the Mov(i)e #20 | Comizi d’amore

O que é surpreendente na linguagem de Pasolini é a sua pureza e simplicidade plasmada em toda a sua obra, capaz de manter a actualidade até hoje: incide a sua luz numa investigação sobre o conceito de sexualidade e a sua percepção pelo povo italiano.


Comizi d’amore é um registo incrível da Itália dos anos 60, onde os entrevistados de diferentes classes sociais se debruçam sobre temas quentes para a época – o divórcio, a homossexualidade e a emancipação das mulheres. Entre os protagonistas, destacam-se os convidados intelectuais da época, como Moravia, Ungaretti ou Fallaci.


Olhando para este passado recente – apenas há 50 anos – podemos reflectir, por exemplo, sobre a rapidez das transformações da moral de uma sociedade e como, através de lutas muito relevantes e constantes, alguns impensáveis da época representam hoje conquistas consolidadas.

Canção de Luta #2 “Blessed are those who struggle” The Last Poets

Canção de luta #2 “Blessed are those who struggle” – The Last Poets.
Uma canção de homenagem a quem lutou (e luta) contra a escravatura, a opressão, a discriminação e o apartheid, lançada em 1977 pelos The Last Poets, um grupo de arte e acção – através da poesia e da música – com uma história bem interessante. «Para que a liberdade e a paz sejam mais do que uma palavra para aqueles que vierem depois».

Onde bate o ponto? #1 A Crise sanitária e o sistema de saúde

Onde bate o ponto?
A mesa redonda da Rádio Gabriela sobre a crise sanitária e o sistema nacional de saúde.

Sentamo-nos à mesa com a Ágata, o Fabrizio e a Virginia, profissionais de saúde, para uma conversa sobre a crise sanitária e o SNS. Muito para além dos números do costume, falaremos da pandemia e das questões que nos assaltam a todos há mais de seis meses.

Uma mesa redonda onde conversamos sobre temas sociais de forma esclarecedora mas próxima das experiências vividas.



Passeio no Rossio – impressões no toque de recolher obrigatório

É dia 14 de Novembro de 2020 e são 12h30. Saímos dos Estúdios Sirigaita e dirigimo-nos ao Rossio, curiosos para ver com os nossos próprios olhos como corria a manifestação em Lisboa, depois da de anteontem no Porto, mas também testemunhar o efeito de uma cidade que entra num recolher obrigatório, em plena luz do dia.

O céu está cinzento, chuviscos caíram sobre a cidade pela manhã. Não há muita gente por perto, a maioria das pessoas desloca-se rapidamente, as lojas fecham as persianas. Chegamos ao Rossio saudados pelo hino nacional português, uma praça meia cheia – cerca de mil pessoas que tendo em conta estes tempos é um número considerável. Quando o hino termina, a Grândola, vila morena começa imediatamente. Olhamos à nossa volta e vemos muita gente comum. Enquanto no palco começam os discursos dos organizadores, nós passamos entre o povo. A esmagadora maioria usa máscaras, as pessoas não estão realmente longe umas das outras, mas também não estão juntas. A atmosfera é um pouco sombria, embora as vozes do palco soem bastante alto.

Pensamos que, entretanto, a cidade à nossa volta irá esvaziar-se, porém vemos mais pessoas a chegar para a manifestação. Se ao microfone, a falar, surgem principalmente pequenos empresários (restauração, hotelaria, turismo, cultura) a praça parece ser constituída de um pouco de tudo. Há trabalhadores e trabalhadoras, há patrões de restaurante, motoristas de autocarros de turismo. Muita gente comum.

Vêem-se jovens, afrodescendentes, migrantes, reconhece-se o empregado de mesa da tasca onde se vai sábado à noite. Mas também observamos: betos, um padre, um grupo de fascistas, muitos polícias à paisana. Para além de uma bandeira do Movimento Cumprir Portugal (que acabámos de descobrir que tem por objetivo “voltar ao mar”), não existem outras siglas para além da do Movimento Pela Liberdade, que tinha convocado uma manif para a Avenida da Liberdade ao mesmo tempo.

Toda a comunicação é feita com uma linha gráfica comum na qual são expressas poucas revindicações (na essência “querem trabalhar”), alguns “factos” tais como: “68% das infecções ocorrem em casa” ou “Não somos um movimento somos pessoas cansadas de arroz”.

As intervenções sucedem-se, por vezes mais sensatas, por vezes muito contraditórias. Aqueles que falam ao microfone, falam genericamente em nome de “empresários, trabalhadores e comerciantes”. Fala-se muito sobre a responsabilidade dos bancos, há muita raiva em relação ao governo, cujas escolhas parecem ilógicas. Os migrantes também intervêm ao microfone. Quando há intervenções “mais nacionalistas” a multidão não aclama como quando se enfurecem contra o governo (e os impostos). O slogan de maior sucesso é “vocês estão a matar os que querem trabalhar”.

Aqueles que pertencem à “indústria da cultura” querem enfatizar que “a cultura é segura”. A certa altura, um dono de uma discoteca decide fazer-nos dançar ao ritmo de RITMO Black Eyed Peas e J Balvin, dizendo: “As coisas mais importantes na vida não são os psicólogos, mas quem dá comida e faz dançar”.

Decidimos que já vimos o suficiente, são 14h30 e deixamos uma praça que promete permanecer ocupada a tarde toda. O Martim Moniz está deserto, apenas alguns trabalhadores de uma obra vagueiam por um edifício. À medida que subimos a colina, perguntamo-nos sobre o que vimos. Vimos tantas pessoas juntas. Os padrões hierárquicos pareciam os mesmos do trabalho – os patrões que comandam o protesto e reivindicam em nome dos seus trabalhadores e das suas trabalhadoras. E isto é estranho de se ver, pelo menos nas ruas. Mas também vimos os olhos e ouvimos as vozes desses trabalhadores e dessas trabalhadoras, vimos tanta preocupação e tanta raiva. Pensamos que isso só irá aumentar e alastrar a outros grupos.

Olhando em redor, com a cidade deserta, estamos quase perdidos, sem pontos de referência. Chegamos ao topo da colina e ouvimos a amplificação do Rossio a rasgar o silêncio surrealista da Lisboa no recolher obrigatório. E parece como um zumbido de uma tampa que, cada vez mais prensada, está preste a saltar.

Tano

Cantos Nómadas #1

Cantos Nómadas, um podcast de Pedro Augusto.

A linguagem começou como cântico. No Tempo do Sonho, cantou o mundo para a mente consciente e a memória. À medida que se canta a terra, a árvore, a rocha, o caminho, elas devêm. Aqui se combina evidências ancestrais com ideias modernas sobre a evolução humana, não esquecendo que na savana fomos uma espécie migratória caçada por um predador felino dominante. As nossas andanças alastram cantos nómadas pelo globo.

Neste primeiro podcast de Cantos Nómadas:

1-Genérico de abertura
2-Diamanda Galás, Autumn Leaves
3-Sexismo ambivalente, por Emma, com John Cage, In a landscape
5-Manifesto homeopático, de Karen Bennett, com Lula Côrtes e Zeca Ramalho, Ohm
6-Pedaço de rádio – Cocovidalocacaducul, emissão 1
7-Torel, de e por Leonardo Janeiro, com Camille 2000, Piero Piccioni
8-EUA, manifestantes pró-Trump e pró-Democratas em confrontos
9-Genérico de fecho

Rebels on the Mov(i)e #19 | A Estratégia Do Caracol

Num bairro pobre de Bogotá os habitantes de um prédio antigo encontram-se face à iminente expulsão e demolição de suas casas. Juntos decidem opor-se ao proprietário rico. Depois de várias tentativas de resistência os habitantes conseguem ganhar mais tempo o que lhes permitirá participar na estratégia proposta por Don Jacinto.

Este filme fala sobre uma luta colectiva de uma comunidade de vizinhos que se opõe às burocracias, à resignação, ao fatalismo mostrando como a inventividade pode muitas vezes trazer soluções a situações que parecem sem volta.

La Estrategia Del Caracol |Sergio Cabrera, 1993 – Colômbia.

Canção de Luta #1 “It isn’t nice”, Malvina Reynold

Canção de Luta # 1: “It isn’t nice”, de Malvina Reynolds. Uma canção sobre a necessidade de desobedecer perante as injustiças, de uma grande compositora norte-americana empenhada nas lutas pela emancipação em todo o mundo. Primeira «canção de luta» de uma série que aqui publicaremos.

Rebels on the Mov(i)e #18 | Property Is No Longer a Theft

Total, um jovem funcionário bancário, é alérgico ao dinheiro. Detesta tocar-lhe e despreza aqueles que o possuem. Acredita que o mundo é constituído por ladrões: aqueles que se professam ladrões e aqueles que ganham dinheiro à custa dos outros. Um dia convence-se que o dono do talho, cliente do banco onde trabalha, pertence a esta segunda categoria de ladrões. Decide alvejá-lo. 

Impressiona a escolha cinematográfica do realizador, que em casos específicos abandona o enredo ao optar por um discurso frontal. Os actores olham para a câmara e falam directamente com o público, com o objectivo de fazer com que a sociedade se reconheça nessas personagens e desmascare a hipocrisia e o egoísmo como pilares de uma sociedade baseada na competição e na propriedade. 

” Grotesco e brechtiano, frontalmente político, mas não tão esquemático como parece, escrito por Petri com a colaboração de Ugo Pirro. Rabino e verboso, exagerado e sombrio, desconjuntado e desafinado, apocalíptico e sinceramente fora do Partido”.  Vidioteca di classe

Gabriela Live – Emissão #1

A Rádio Gabriela está de volta às emissões em directo, da Sirigaita para o mundo! A primeira emissão foi este Domingo dia 1 de Novembro.

Neste Primeiro live:

– lutas na América Latina, com a participação especial de um correspondente da Telesur;
– espaços culturais fechados, trabalhadores em luta;
– protestos do cinema;
– acções climáticas e Resgatar o Futuro.

E o que vier à rede é peixe!

Gabriela live é um programa para escutar os sons e os movimentos do mundo, com depoimentos e reportagens, música e pensamento livre.
Podes enviar as tuas ideias e contribuições áudio (poemas, receitas ou desabafos que possamos incluir neste programa de mixórdias) para radiogabrielalisboa@gmail.com.

#Ao Vivo ou Morto

A associação Circuito promoveu no sábado dia 17 de Outubro de 2020 manifestações em Lisboa, Porto, Viseu e Évora, pela sobrevivência de espaços com programação musical regular. Sob o lema “ao vivo ou morto”, a Circuito, que junta salas de programação de música de todo o país, apelou a um protesto que pretendia “sensibilizar para a importância destes locais para a cena musical nacional”. A Rádio Gabriela esteve na “fila” de Lisboa, que partia da discoteca Lux. 

Quando salta a tampa: o que se passa em Itália

Notas escritas a quente sobre a súbita onda de mobilização e conflito que está a aquecer a Itália – por Tano “Que” Festa

A curva dos contágios enlouqueceu e desta vez não é só a Lombardia ou Milão. Desta vez, o vírus espalha-se um pouco por todo o país, os hospitais estão sob pressão e o governo decide emitir novos decretos, cada vez mais confusos, sem qualquer lógica aparente. Após 8 meses ou mais de pandemia, o véu da retórica governamental cai e “descobre-se” que não há qualquer preparação para a chamada segunda vaga da covid-19.

O governo volta a recorrer às armas do costume: a culpa e responsabilidade dos indivíduos em relação aos contágios. Arma que já funcionou tão bem nos últimos meses. Mas agora a situação mudou e as pessoas, o povo, as trabalhadoras e as pequenas empresas já deram tudo nos meses anteriores. As poupanças estão a esgotar-se, não há dinheiro, as medidas postas em prática pelo governo são irrisórias face à crise económica. E, quando se soube que os bilionários italianos aumentaram os seus rendimentos em 30% desde o início da pandemia, o conflito alastrou por todo o lado.

Napule è mille culure

Perante o novo confinamento nocturno, decretado sexta-feira, 23 de outubro – encerramento de quase todas as atividades e recolher obrigatório às 18 horas: restaurantes, bares, ginásios, teatros, cinemas, associações, escolas secundárias, etc. … – em Nápoles, centenas de pessoas saem à rua e manifestam-se em dois cortejos espontâneos. Há de tudo – trabalhadores informais, pequenos comerciantes, desempregados – os slogans são simples, mas claros: “A saúde é a primeira coisa, mas sem dinheiro não se pode ir a lado nenhum”, “Stop às rendas, às contas, aos impostos”. Os manifestantes dirigem-se contra a região (na Itália o sistema de saúde é regional, e o novo decreto dá mais poderes aos presidentes das regiões) e os confrontos com a polícia escalam rapidamente. Os contentores de lixo são incendiados, são lançadas numerosas bombas de gás lacrimogéneo, e seixos são atirados. É o primeiro verdadeiro cheiro de revolta desde que o estado de emergência foi declarado (que em Itália tem estado em vigor ininterruptamente desde março).

Os nazis tentam vestir a camisola nas redes sociais com proclamações, mas Nápoles não é Roma, aqui os fascistas têm historicamente pouco espaço de ação. Mas os jornais (especialmente os da esquerda liberal) gostam desta retórica e atiram-se de cabeça, apesar da complexidade da realidade das coisas. Os jornais e as redes sociais enlouquecem imediatamente, derramando todo o repertório colonial da tradição italiana sobre os napolitanos: é a Camorra, são os mafiosos, os ultras (adeptos), os nazis, os negacionistas (a grande imprensa continua a fazê-lo ainda hoje, sem vergonha).

Mas quem realmente saiu à rua? Pelo que podemos ver, o quadro é realmente muito heterogéneo. Não se pode falar de uma praça de esquerda, mas o que é certo é que as camaradas estão presentes, misturam-se com este húmus feito de desempregados, pequenos empresários, vendedores de rua e informais.

O destino, juntamente com a “boa saúde” do contexto nacional dos movimentos sociais em Nápoles, faz com que no dia seguinte, sábado, 24 de outubro, a rede anticapitalista convoque uma manifestação. Graças à noite anterior, nesta manifestação saem à rua não apenas os militantes das organizações, mas também muitas pessoas que não estão habituadas às manifs da esquerda de classe. A manifestação começa num cortejo espontâneo reiterando que, concretizando-se o confinamento, deve haver proteção para as classes mais pobres. Tinta vermelha é atirada contra a sede da Confindustria (a organização nacional de empresários italianos) e ocorrem confrontos com a polícia, mas o desfile mantém-se e termina calmamente na Piazza del Plebiscito.

Na segunda-feira, 26 de outubro, uma nova manifestação com o slogan “Fecha-nos, paga-nos” é marcada, novamente às 18 horas: hora do recolher obrigatório. A composição é complexa e heterogénea, os militantes da Casapound (organização neofascista) tentam juntar-se, mas são imediatamente afastados pelos manifestantes. Para descrever quem está na praça pedimos emprestadas as palavras de Napoli Monitor, um site de informação independente:

No Plebiscito iluminado pelas sirenes dos veículos da polícia, pode-se encontrar barmen, bailarinas/mulheres, gerentes de clube, empregadas de mesa, agentes de expedição, atrizes e atores, artistas de teatro, técnicos de som, carregadores, trabalhadores precários licenciados, gestores e operadores de centros de fitness, animadores de festas infantis, músicos (de refinados a instrumentalistas de casamento), vídeo-makers, operadores de serviços audiovisuais, mas também cuidadores, baby-sitters, desempregados, trabalhadores têxteis ou logísticos, freelancers, bem como grupos de fãs organizados, operadores de automóveis não autorizados, e outras figuras, de formas diferentes, unidos pela precariedade económica e social. Mulheres e homens que, pela primeira vez, partilham um momento de conflito coletivo motivado pela iminência do novo confinamento. A grande maioria deles são trabalhadores que, durante anos, aceitaram empregos pagos por baixo da mesa renunciaram a contribuições e outros direitos em nome de salários amaldiçoados e imediatos. Os trabalhadores forçados a não reivindicar a legitimidade da sua posição, da sua especialização, do seu papel no mercado de trabalho. Trabalhadores que sentiram a insustentabilidade da sua própria condição quando com a pandemia até o rei vai nu.

Não há núcleo duro da manifestação, não se pode ver nenhuma componente hegemónica do movimento. Vê-se que a polícia aprendeu a sua lição na sexta-feira e a cidade está militarizada, os polícias à paisana são muitos. Chega-se à frente do edifício da Região da Campânia e são feitas intervenções confusas, mas entusiásticas. As reivindicações são as mais díspares. A polícia provoca, mas a inteligência coletiva evita o confronto devido ao destacamento de forças e meios blindados. Os camaradas de Nápoles estão a tentar dar forma a esta nebulosa de raiva e entusiasmo, a fim de continuar a mobilização sustentada por reivindicações políticas precisas e não corporativas. Ontem à noite, a bandeira principal era pedir impostos para os ricos e rendimentos para todas, e isto já é um grande salto em frente. O facto político é que em Nápoles há fermentação e tudo pode acontecer.

De facto, quarta feira 28 de outubro, os trabalhadores e as trabalhadoras da multinacional Whirlpool, em greve contra o fecho do estabelecimento marcado para este sábado que vai deixar sem trabalho 1400 pessoas, ocuparam e bloquearam a entrada da autoestrada A1. Perante a inatividade do governo e em defesa do tecido produtivo da região, uma greve geral metropolitana está já marcada para a próxima semana, dia 5 de novembro.

Grande e generalizada é a confusão debaixo do céu

Na sequência do que aconteceu em Nápoles, no sábado, começam a surgir mobilizações no resto do país.

Na Catânia, Sicília, um desfile semelhante ao de Nápoles, na sexta-feira: heterogéneo, não classificável, mas irado, estiveram cara a cara com as “forças da desordem”. Em Roma, o partido neonazi Forza Nuova lançou uma mobilização na Piazza del Popolo. Cerca de duzentos manifestantes reuniram-se ao grito de liberdade e nada mais, encenando confrontos com os seus amigos da polícia.

Nos meios de comunicação e nas redes sociais, torna-se evidente que a crise e as dificuldades já não podem ser resolvidas e, mesmo personalidades embedded, começam a criticar as medidas governamentais, mas sobretudo começam a quebrar o silêncio à volta da falta de políticas económicas, sociais e de saúde perante a crise. Obviamente, a descarga escatológica das redes socias continua sobre aqueles que tomam as ruas: mas é evidente que a investida contra os manifestantes é classista.

Os apelos para ocupar as ruas começam a aparecer por todo o país, e não apenas nas principais cidades. Na segunda-feira à noite, realizam-se manifestações em Turim, Milão, Trieste, Génova, Viareggio e Palermo. Mais uma vez uma composição que supera categorias pré-determinadas. O que se vê é muita raiva e desejo de fazer com que o mundo sinta. Um pouco em todo o lado há confrontos com a polícia, barricadas e atiram-se pedras e cocktails molotov. Em Turim, as lojas de luxo da Louis Vuitton e da Gucci são saqueadas. Segundo o Infoaut, órgão da Autonomia Contropotere, em Turim houve dois desfiles: um dos comerciantes e trabalhadores, outro da precariedade mestiça metropolitana. Ambos espontâneos, ambos imediatamente reprimidos pela polícia. Foi precisamente a repressão imediata que desencadeou um motim que durou várias horas.

Em suma, como se pode compreender a partir destas notas, a situação é confusa e complexa e existem demasiadas variáveis e contextos muito diferentes para se fazerem previsões. Durante toda a semana decorrem mobilizações do norte ao sul país. Para amanhã, sábado, em Roma uma nova manifestação é convocada pelos movimentos, centros sociais, organizações e sindicatos de base.

O que é evidente é que em Itália existe subitamente um nível de mobilização e conflito que não se via há alguns anos, que perante um novo confinamento e medidas governamentais insultuosas, a tampa da mediação baseada na proteção da própria saúde e da saúde dos outros saltou. É necessário ver se na emergência pandémica será possível dar continuidade, se será possível sair da dimensão corporativa de certas reivindicações, se será possível dar um sentido político à raiva. Será necessário ver a escala que a repressão assumirá num contexto de estado de emergência permanente.

Entretanto, no entanto, podem ser feitas algumas reflexões que podem ser úteis para os tempos que vêm.

Preparar as ferramentas, saber colocar-se

O primeiro aspeto que queremos destacar é como este conflito surgiu espontaneamente e de forma bastante repentina. Não que não houvesse (existem há anos) as razões pelas quais explodiu, mas na realidade a Itália dos últimos tempos e a Itália do período pandémico não permitiram antecipar tais acontecimentos. O acender das brasas da raiva só era visível em relação à guerra entre os pobres, e não dirigida para as instituições. Isto mostra-nos, apesar dos esforços das “organizações de classe” para criar movimentos de massas, como hoje em dia estes últimos surgem muito frequentemente fora das próprias organizações. A raiva contra um sistema que não lhes dá quase nada e exige apenas sacrifícios pode ser controlada apenas até um certo ponto pelo Estado. Em Portugal, a nova versão da gestão comunicativa da crise pandémica pelo governo de António Costa parece aproximar-se da versão muito italiana da culpabilização dos indivíduos (especialmente dos pobres) e da desresponsabilização do Estado: “ficar em casa”, “instalar stayaway Covid” e assim por diante. Em Itália, esta abordagem de criminalizar a vida quotidiana e o tom paternalista fez com que as pessoas começassem a irritar-se e a tomar consciência que não “vai ficar tudo bem”, porque não pode correr tudo bem para quem ficar em casa sem proteção económica e social e sem que haja uma redistribuição de rendimentos.

Outro aspeto interessante é que, como aconteceu noutros tempos na história dos movimentos italianos, a onda de mobilizações começou a partir do Sul. De facto, pode dizer-se que sem a faísca que eclodiu em Nápoles na sexta-feira, dificilmente teríamos visto enchentes nas praças das outras cidades nos dias seguintes. O sul da Itália tem características semelhantes a Portugal: insegurança no emprego, dependência do turismo, comércio informal, uma longa e constante história de emigração. No sul, o “estado social” e o trabalho são sempre mais escassos, a população é menos rica do que no resto do país, as crises fazem-se sentir mais intensamente e rapidamente e talvez por isso a raiva é desponte mais facilmente.

O caso de Nápoles é extremamente interessante. De facto, pode dizer-se que nos últimos anos, caracterizados por um declínio geral dos movimentos sociais na Itália, Nápoles representou, de certa forma, uma exceção e as iniciativas e as alternativas mais interessantes de auto-organização vieram da capital da Campânia. Talvez seja este o motivo dos protestos espontâneos assumirem cada vez mais conotações políticas: porque[LA1]  assentam na relação pragmática, baseada nas lutas, das companheiras napolitanas com as contradições de classe.

Todas as mobilizações destes dias demonstraram uma grande raiva e um certo grau de conflito, e graças a este conflito alcançaram as primeiras páginas dos jornais, colocaram o governo em grandes dificuldades, estão a pressionar para rever certas medidas tomadas e forçar os intelectuais, personalidades, etc., a falar sobre os problemas reais da população. Tudo resultados que as muitos mais pacíficas, performativas e “sinceramente democráticas” iniciativas que se têm sucedido nos últimos meses não conseguiram conquistar. Nem mesmo remotamente.

Obviamente, este nível de conflito é também a causa e consequência da enorme repressão que recai sobre os movimentos sociais e, de uma forma mais geral, sobre aqueles que protestam em Itália. Há vídeos nas redes, da noite passada, em que os chefes polícias dizem para disparar contra os manifestantes. E esta é uma variável a estudar e compreender em profundidade. Igualmente óbvia é a posição dos principais meios de comunicação face a estas manifestações: reduzir a fenómenos marginais, mafiosos, criminosos, negacionistas é a sua especialidade. E o refrão nas redes sociais para dar apoio a este mantra jornalístico é já um clássico. As companheiras italianas, o que resta do chamado Movimento, parecem estar a conseguir não ser cooptadas por estas vozes e, seguindo o exemplo das napolitanas, estão a misturar-se nestes processos, quanto mais não seja para manter afastados os nazi-fascistas.

Em suma, a raiva também se pode manifestar aqui em qualquer momento, porque as condições estão todas lá. Como irão as classes subalternas do nosso país ultrapassar esta segunda vaga e estas novas restrições? Quem poderá pagar as dívidas contraídas nos últimos meses? Como é que as famílias dos desempregados podem meter comida na mesa?

Pela nossa parte, como organizações de base e movimentos sociais, devemos ser capazes de estar à altura desta raiva. Saber expulsar os abutres fascistas que se lançarão na carnificina da guerra entre os pobres. Teremos de saber colocar em campo todas as ferramentas de luta que adquirimos nos últimos anos, para que as inteligências e os conhecimentos cultivados funcionem em conjunto e à disposição de instâncias iradas, a fim de as politizar com sucesso. Devemos ter o cuidado de não cair no moralismo e no paternalismo do debate dos meios de comunicação social. Devemos ser capazes de alavancar as nossas forças no nosso sofrimento e dificuldades e unir-nos a todos os que sim, estão no mesmo barco. E ser capazes, por uma vez, de fazer com que os ricos e poderosos que especulam sem restrições sobre as nossas vidas paguem pela crise.

Rebels on the Mov(i)e #17 | Do The Right Thing

Brooklyn, durante um dia quente: a situação parece calma no distrito de Bedford-Stuyvesant. O mesmo acontece na pizzaria italiana, dirigida por Sal e pelos seus dois filhos, Vito e Pino, e frequentada sobretudo por negros. Tudo corre como habitualmente. A agitação racial vivida quinze anos antes parece esquecida. Mas um acidente trivial é suficiente para desencadear, imprevisivelmente, a batalha…  

https://mixdrop.co/f/47ettvsq8

Resgatar o Futuro – Não o Lucro Manifestação 17 de Outubro

No sábado, 17 de Outubro, vários colectivos e associações que subscreveram o manifesto da plataforma Resgatar o Futuro – Não o Lucro saíram à rua. Esta foi a segunda manifestação convocada pela plataforma. A primeira foi realizada no dia 6 de Junho.

Entrevistámos alguns colectivos, sindicatos e associações: Semear o Futuro; Resgatar o Futuro – Não o Lucro; SOS Racismo; PALVT – Plataforma Antifascista Lisboa e Vale do Tejo; Tás logado – Sindicato dos Trabalhadores dos Call-Centers.

Vimos exigir medidas de emergência para uma situação de emergência. As medidas de emergência devem ser medidas para salvar as pessoas e para salvar o clima, através da criação de um plano de empregos públicos para reforçar o serviço nacional de saúde, para reforçar a habitação, para garantiar direitos básicos para todas as pessoas” Resgatar o Futuro – Não o Lucro.

O mesmo governo que toma decisões sobre uns aspectos é o mesmo governo que toma decisões sobre outros, o governo que insiste em fazer o aeroporto do Montijo e portanto meter mais aviões a circular apesar de saber que isso contribui para o aquecimento global é o mesmo governo que se recusa a proibir os despedimentos que é o mesmo governo que se recusa a ter uma política de habitação justa“, “Então ganhamos em estar todos juntos nestas várias lutas” Semear o Futuro.

Apesar da pandemia temos de sair às ruas para pressionar os governos a tomarem políticas que vão ao encontro das nossas necessidades enquanto sociedade no seu todo“, “Acho que é extremamente importante os sindicatos envolverem-se nas lutas sociais porque de facto ficarem só pelas lutas laborais acaba por ser uma visão muito reduzida do que são os direitos, que os trabalhadores devem ter porque há questões que podem afectar indirectamente as questões laborais.” Tás Logado?

Mobilização Climática Global

Na sexta-feira, 25 de setembro, a Greve Climática Estudantil saiu à rua para responder “ao apelo internacional para a realização de uma Mobilização Climática Global“. 
Estivemos com Mourana Monteiro da Greve Climática Estudantil que nos falou sobre as razões e as propostas desta mobilização.

“O ambiente também inclui o ser humano, então medidas que são sustentáveis mas que não têm em conta as pessoas são medidas que não são sustentáveis”, “Nós queremos que nesta transição energética justa exista uma requalificação das pessoas trabalhadores dos sectores poluentes (Campanha Empregos para o Clima)”.


Respondendo ao mesmo apelo o GAIA Alentejo, o Movimento Alentejo Vivo, e a Associação Ambiental Amigos das Fortes também saíram às ruas de Beja para “uma acção pelo mundo rural” em frente à Câmara Municipal da cidade de Beja (Travar o Ecocídio).

Rebels on the Mov(i)e #16 | Bacurau

Os moradores de uma pequena povoação do sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade já não consta em nenhum mapa. Aos poucos, percebem algo estranho na região: enquanto drones passeiam pelos céus, estrangeiros chegam à cidade. Quando carros se tornam vítimas de tiros e cadáveres começam a aparecer, Teresa, Domingas, Acácio, Plínio, Lunga e outros habitantes chegam à conclusão de que estão a ser atacados. Falta identificar o inimigo e criar coletivamente uma forma de defesa.

Rebels on the Mov(i)e #15 | A Terra Treme

O pescador ‘Ntoni Valastro e a sua família vivem e trabalham em Aci Trezza, explorados por comerciantes de peixe e vivendo na profunda miséria. Cansado de sofrer o abuso dos comerciantes, ‘Ntoni incita os outros pescadores a revoltarem-se contra a situação opressiva que se tornou intolerável. Os colegas, convencidos pela proposta do ‘Ntoni, provocam motins. Determinado a criar o seu próprio negócio, ‘Ntoni hipoteca a casa e compra um barco só para si’. 
Em ‘I Malavoglia’ de Verga, Visconti desenha um filme que aborda o documentário (os actores são verdadeiros pescadores que falam em dialecto) e acentua os tons ‘políticos’ da história, divididos entre realismo e pessimismo contemplativo, conduzindo o neorealismo a resultados de refinada estética.

Rebels on the Mov(i)e #14 | Looking For Eric

Eric (Steve Evets) é um carteiro de Manchester com uma grande paixão pelo futebol e um fã incondicional do campeão francês Eric Cantona. Porém, a sua vida não corre muito bem. Os remorsos se um erro cometido muitos anos antes, quando abandonou a sua amada Lily (Stephanie Bishop) e a sua pequena filha Sam (Lucy-Jo Hudson), assaltam-no constantemente.

Eric vive com os dois filhos de uma esposa que partiu, Ryan (Gerard Kearns) e Jess (Stephan Cumbs), dois rapazes bastante confusos, especialmente Ryan, o mais velho, que se relaciona com bandidos perigosos. Pouco a pouco, no entanto, a sua vida acalma, contacta Lily, fala com ela e tem a oportunidade de esclarecer as coisas.

Os seus amigos no trabalho e no estádio ajudam-no muito, mas o crédito principal do seu renascimento é de Eric Cantona, que ele imagina ser o seu guia moral, a pessoa que se senta ao seu lado e o aconselha, representando o único ponto de apoio real para se levantar.

Uma Paciência Selvagem

“Uma paciência selvagem é uma hora e pouco de música (e algumas palavras), dedicada à electrónica experimental feita por mulherxs, para acabar com a domesticação.”

Por Filipa Cordeiro.

Tracklist:
Raw Forest – One Night at Google Valley
Cátia Sá – Deusa da Poda
Abençoada – Institutional Emptiness (feat. Rene McBrearty)
Odete – Mom I’m Not Eating
Sukitoa O Namau – Good Boy
Hüma Utku – Truth from the Deepest Source
Metamorphosis – VICOD-91
Kastrata – It’s Only Paranoia
Glandulas Syntax – Saliva
Maia Koening – Organicalterna
Calhau! – Bófiacult
Bartholins Glands – Printed Circuit Maze
Jejuno – Becos [unreleased]

Pademónio Grandíssimo Live – Emissão #17

Último Pandemónio Grandíssimo Live da temporada!
O primeiro quiz radiofónico das nossas vidas!

É verdade, babies, estivemos aos microfones, tudo à molhada, para nos despedirmos da primeira temporada de Pandemónios. A Rádio Gabriela vai continuar a lançar maravilhas durante o Verão, a propor discussões, leituras, filmes e trabalhos multi-disciplinares, mas o Pandemónio só voltará lá pra Setembro.

Para a despedida, preparámo-vos um mega Quiz radiofónico!

Vais ainda poder ouvir aquela conversa de associação que escreve com X que te faz tanta falta e podes contar com as sugestões para o Verão de Franco Tomassoni, Pedro Ferreira, Laura Almodovar, Antonio Gori, Fannie Vrillaud, Claudio Carbone, Marco Allegra, Catarina Carvalho e Pedro Rodrigues.

Rebels on the Mov(i)e #13 | Aguenta-te, Canalha!

Este filme já estava na lista de espera para ser lançado na nossa série Rebels on the Mov(i)e, e esta semana, após a perda do mestre Ennio Morricone, sentimos que o devíamos publicar já, dada a fantástica banda sonora gravada para o filme. “Sean, Sean, SEAN!”
Já desde os primeiros dez minutos é claro porque quisemos apresentar este filme: um contraste de classe cheio de ódio racial leva o protagonista a pilhar a carruagem burguesa e a dar uma lição de vida às várias figuras presentes.

Um filme do realizador que deu a forma definitiva ao “western-spaghetti”. Mais uma vez, Sergio Leone constrói uma história onde nada é o que parece. No entanto, “Aguenta-te Canalha!” é um “western” diferente, mais político, passado em plena revolução mexicana. Mas também contém muita acção, com Juan Miranda (Rod Steiger) a roubar bancos para libertar presos políticos mexicanos com a ajuda de John Mallory (James Coburn), um terrorista irlandês que tenta fugir ao seu passado — uma equipa estranha mas eficaz.

Rebels on the Mov(i)e #12 | Down By Law

Jim Jarmusch cria, em Down By Law, um alegre encontro entre três amigos devido a uma estadia forçada numa cela prisional em Nova Orleans. Os três têm diferentes origens sociais: Jack (John Lurie), um chulo, enfrenta a prisão por exploração de prostitutas, Zack (Tom Waits), um DJ, que acabou na prisão graças a uma luta e, por fim, Roberto (Benigni), um turista italiano, preso por um erro judiciário.

Roberto, com o seu temperamento cómico, vai encontrar pontos improváveis de convergência semântica para conversar com os outros dois. O resultado serão diálogos realmente grotescos e deliciosos, sempre na linha ténue que separa o grotesco teatral do absurdo e com uma forte vertente irónica: “I scream, you scream, we all scream for ice cream”.

Isto até Roberto encontrar uma passagem que permite aos três sair das suas celas e atirar-se de novo para o mundo real. Será uma oportunidade para tomar um pedaço da estrada juntos, partilhando ansiedades, planos e esperanças para o futuro. Daunbailò é uma máquina de disparates e humor durante este trajecto que explode do ecrã de forma hilariante. Um encantador road movie em que o diálogo e o elenco fazem quase metade do trabalho para Jim Jarmusch.

Rebels on the Mov(i)e #11 | Nazaré

Em Portugal, durante o Estado Novo, era difícil produzir filmes sob o clima de censura. Por esta razão, não se desenvolveu um verdadeiro movimento neo-realista em Portugal como noutros países europeus. Manuel Guimarães é um dos poucos realizadores que, apesar do regime fascista, tentou várias vezes representar o povo português através do cinema sem enfatizar os seus ideais nacionalistas.

Nazaré é um filme fantástico deste ponto de vista e um achado raro que nos mostra o quotidiano daquela realidade de pescadores nos anos 50 que, apesar dos mais de 40 minutos de cortes ao filme e discursos dobrados pela censura, ainda consegue mergulhar-nos nessa realidade agora perdida no tempo.

Um filme que retrata a história desta comunidade piscatória pobre da Nazaré, as suas tragédias, conflitos e dramas colectivos. António e Manuel Manata são dois irmãos pescadores muito diferentes. Um é forte e valente e o outro fraco e cobarde. A mulher de António sonha em construir uma casa e vai juntando pedra para a erguer, mas o dinheiro da pesca nunca chega para isso. Manuel tem uma relação de amor-ódio com o mar. Para mostrar a todos que é um bom pescador, reúne um grupo, pede um barco emprestado e lança-se ao mar em busca do seu sustento e para vencer os seus medos.

Pademónio Grandíssimo Live – Emissão #16

[Update – aqui o link ao podcast da emissão #16: https://www.mixcloud.com/radio-gabriela/pandemónio-grandíssimo-live-de-21-de-junho ]

Neste que será o penúltimo Pandemónio da temporada (bu-hu-huuuuuu!), continuamos a falar de tudo com todas. Vamos estar em estúdio com xs Left Hand Rotation e ainda com Fannie Vrillaud, Antonio Gori, Pedraugusto e Simone Carugatti a segurar as máquinas e os microfones. Vamos falar de:

– educação em Itália
– a importância da máscara
– uma volta ao mundo em 80 catástrofes, a mais recente intervenção dxs Left Hand Rotation
– a polémica do polícia bom é um polícia morto, uma reflexão da Rádio Paralelo com música dos Vai-Te Foder
– a Concentração pela dignidade dos sem abrigo
– uma canção de luta
– e ainda mais algumas canções da luta

Há sempre aquele momento bónus e aqueloutro, No Comment.

E podes sempre ligar para falar ao vivo e conviver ca gente, já sabes: 910565955 via WhatsApp!

Rebels on the Mov(i)e #10 | Feios, Porcos e Maus

Como o definiu o actor italiano Elio Germano numa apresentação numa praça em Trastevere, em Roma, Feios, Porcos e Maus é “um acto de amor para as pessoas desprezíveis, como que para dizer que é a barbaridade urbana que cria pessoas desprezíveis, e não as pessoas desprezíveis que criam a barbaridade urbana”.

Prémio de Melhor Realização no Festival de Cannes de 1976 “Feios, Porcos e Maus” confirmou Ettore Scola como um dos mais inspiradores cineastas italianos dos nossos dias. Na verdade, Scola é um dos mais nostálgicos impulsionadores da grande sátira social ao mesmo tempo que soube reinventar e evocar de forma notável toda a tradição poética, neo-realista e romanesca do cinema italiano. Debruçando-se sem paternalismos, sem análises sócio-políticas ou mesmo juízos morais, em “Feios, Porcos e Maus” Scola constrói uma sátira espantosa, hilariante, mordaz, sórdida, desconcertante e absolutamente amoral sobre o cruel e alucinante quotidiano de uma miserável família romana “das barracas”. Uma crónica de sabor trágico-burlesco que reflecte toda a miséria humana deste nosso “admirável Mundo novo” europeu, ocidental e rico através de uma farsa truculenta, de um humor irresistível e contagiante mas ao mesmo tempo de uma amargura e de um desencanto perturbadores.

https://ok.ru/video/251378993917

Pademónio Grandíssimo Live – Emissão #15

Brap! Brap! Brap! Neste fim de semana em que qualquer semelhança com um arraial é pura ilusão de óptica, vamos falar a muitas vozes a partir dos estúdios Sirigaita. Aos microfones, a comentar as actualidades e empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras, Yussef, da Consciência Negra, Danilo, do sindicato dos Call Centers Tás Logado?, Sofia, da Habita, e os anfitreões Pedraugusto e Franco a misturar bem a salada. Vamos falar de luta, de interseccionalidade, dos media convencionais, do despejo ilegal da Seara – Centro de Apoio Mútuo de Santa Bárbara e das questões que este nos trouxe. Temos belas canções para ajudar à festa que é a luta, e temos todas as surpresas que um programa em directo sem guião inevitavelmente nos traz.

Rebels on the Mov(i)e #9 | Maradona

Diego Armando Maradona… quem mais? Decidimos incluir um documentário sobre La mano de D10S na nossa série Rebels on the Mov(i)e! Porquê? Estamos certos que as palavras de Emir Kusturica respondem melhor a esta pergunta: “Se Maradona não se tivesse tornado um futebolista, teria certamente sido um revolucionário como Che Guevara”.

Um documentário que tenta acompanhar a história extraordinária e humana de Diego Armando Maradona, um gigante do futebol e (ao mesmo tempo) vítima de si mesmo, do sucesso, da droga e do sistema. Porém sempre capaz de se erguer uma e outra vez das cinzas.

Realizado através de um acesso excepcional e directo a múltiplas fontes e graças também à atenção do próprio argentino, é um documentário absolutamente fabuloso. Porque Maradona é Maradona! Mencionado até por Paolo Sorrentino quando ganhou o Óscar pelo filme “La grande bellezza”, precisamente porque, segundo o realizador, ver Diego jogar ajudou-o a definir o conceito de Beleza.

Imaginar Geografias #5 Solum, Sanguis

Nesta última secção reflecte-se sobre as questões ligadas à cidadania, aos direitos políticos, sociais e humanos. Argumentos estes que constituem os fundamentos da democracia ocidental e que são hoje postos em causa face ao fenómeno migratório. Em muitos países da Europa o debate sobre que tipo de cidadania está a ser criada e como deveria ser regulamentada está mais do que nunca aberto. Solum, Sanguis é uma tentativa de propor alguns instrumentos interpretativos necessários para o enfrentar.

Solum, Sanguis é o quinto programa sonoro de Imaginar Geografias. Com: Dusica, Jorge Malheiros, Mamadou Ba, Pedro Matos, Roberto Nascimento, Samir Samimi. Música de: Khandahar – The Calais Sessions, Christian Luján, Léo Vrillaud.

Imaginar Geografias, trabalho multidisciplinar realizado por Julia Salaroli, Polliana Dalla Barba, Fannie Vrillaud, Marcus Neves.

Pademónio Grandíssimo Live – Emissão #14

Estivemos, como não podia deixar de ser, na grande manif de ontem contra o racismo e Resgatar o futuro e não o lucro e na de Quinta-feira, em que se gritou por cultura. Trazemos um cheirinho e muita pica desses lados com as nossas all surrounding reportagens. Imperdíveis! Estaremos ao telefone com a Ricardina Cuthbert, activista, moradora do bairro da Torre, um bairro no qual à luta contra a exclusão social se junta agora a luta contra a Covid. Tudo isto sem electricidade e parte do bairro sem água canalizada. Tudo isto nos leva a querer conspirar cada vez mais, e o Estado da Conspiração lá estará para responder a essa necessidade básica. E porque a luta também se faz com canções, os Cantacronache mostram-nos como é que isso pode ser, e a playlist da emissão dá-nos outras dicas. Temos sempre um ou dois poemas na manga e podes sempre ligar para dizer das tuas, para o 910565955 e/ou para o 913917797.

Rebels on the Mov(i)e #8 | Bamako

O assassinato cobarde de George Floyd trouxe uma chama de revolta aos países ocidentais, provocando levantamentos contra o racismo estrutural e institucional. Este clima motivou-nos a eleger, para esta semana, um filme do realizador africano Abderrahmane Sissako de forma a reflectir sobre a origem da questão racial, conectada, certamente, com a ocupação colonial de África.

Bamako retrata um processo da vida quotidiana da capital do Mali- que dá o nome ao filme. Durante este processo, opõem-se duas hipóteses sobre a génese da pobreza nos países africanos, mas também nos restantes países considerados subdesenvolvidos. De um dos lados considera-se que que o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional actuam em consonância com os interesses especiais das nações desenvolvidas; do outro lado sugere-se que a corrupção e a má gestão destas nações singulares é responsável pela actual situação financeira destes países.

Aliando um drama judicial e um retrato do quotidiano do Mali, Bamako enfrenta ambos os temas com igual habilidade, onde os protagonistas do filme, por serem escritores e filósofos africanos, se emancipam de um guião pré-estabelecido. Como apontamento, queremos ainda chamar à atenção para a força da cena do xamã africano cujo discurso não está legendado, como se nos lembrasse, mais uma vez, de África como continente sem voz, que ninguém quer ouvir ou tentar compreender.

Pademónio Grandíssimo Live – Emissão #13

Update: o podcast da emissão #13 – e o vídeoteaser

Hoje no Pandemónio Grandíssimo Live! #13 vamos estar com Minneapolis na cabeça e com:

– a Marilyn Monroe (fo real, honey bunniez!)
– A Habita e a Stop Despejos e o desconfinamento da campanha Escolher casa ou pão, não! – nem rendas nem dívidas!
– a Alice, uma das organizadoras da manif Resgatar o Futuro, Não o Lucro
– a situação da prisão do anarquista Gabriel Pombo, actualizada pelo Jornal Mapa
Coletivo Andorinha – Frente Democrática Brasileira de Lisboa
– Maxime Appuii e as lutas em França
– os Vintage Football City Tour – Lisboa em estúdio!
– os Cantacronache, na Canção de Luta #6
– a poesia de Sean Bonney, lida e traduzida por Miguel Cardoso
– e com quem mais quiser aparecer (podes sempre ligar para 910565955 e/ou para o 913917797 para mandar bitaites e pedir sons!)

Tudo salpicado por boa música, a actualidade e as reflexões inusitadas que têm tendência a surgir à volta da mesa da Rádio Gabriela.

Rebels on the Mov(i)e #7 “Debate | Chomsky-Foucault”

Para este Rebels on the Mov(i)e , não propomos um filme canónico, mas sim um debate entre duas personalidades da filosofia que, pela sua fluidez discursiva, aludem a um estilo cinematográfico. Numa altura em que nos preparamos para sair da quarentena, pensamos que é importante analisar novamente a figura humana num debate de 1971… ou seja, há quase 50 anos.

O debate entre Chomsky e Foucault trata em profundidade aquelas questões que, muitas vezes, até em conversas mais descontraídas, despertam interesse: o que é a natureza humana e a verdade? Foucault contrapõe à ideia de natureza humana uma abordagem genealógica e histórica necessária para a reconstituição das modalidades e relações de poder que determinaram os processos do conhecimento. Por outro lado, Chomsky aponta para a existência de regras básicas que residem na nossa mente, que representam a criatividade a partir da qual se desenvolvem instituições universais como a língua e a comunicação.

Questões distantes da luta política imediata? Provavelmente não, já que estas problemáticas determinam a posição de cada um de nós. Lutamos para afirmar uma visão do mundo que se pretende universalmente mais justa, ou esta luta acabará apenas com a substituição de um regime de poderes e de verdade? Regressamos à discussão entre poder e conhecimento que marca uma longa fase do pensamento Foucaultiano, bem como muita da obra da militância de Chomsky. Este debate pode ser um ponto de partida para construir um espaço autónomo onde possam convergir a acção imediata e uma elaboração teórica de temas mais profundos, e que proporcione, num espaço pejado de contradições como Lisboa, a formação de um sujeito político capaz de se assumir como colectivo intelectual.